domingo, 28 de outubro de 2007

FLAGRANTES DA VIDA REAL II

Tejo ciumento

Outono de 1980.

A coçada gabardina do Fonseca da Lisnave sacudia pingos de chuva, na paragem do 33. Junto aos carris molhados, era o turbilhão de sempre, ao cair da tarde: gente que passa, chega, vai, sobe e desce, em mais uma hora de ponta do tombar do dia. O turno de serviço do fiel de armazém na Doca da outra margem, chamava-o, naquela Segunda-Feira de Outubro, para mais uma noite de vigília por entre carcaças de barcos envelhecidos. Pelas oito da noite, segurava-se na borda do cacilheiro que, apinhado, rasgava as águas sujas do Tejo, na rotineira procura da outra banda. Era um homem quarentão, o Fonseca, de nariz bexigoso espetado em farto bigode que cofiava, pensativo. No outro lado, esperava-o o Ernesto, companheiro de quinze anos de trabalho nos estaleiros. Considerava-o um bom amigo. Ambos moravam para os lados de Campolide e, pelas tardes de Domingo, beberricavam uns copos no carvoeiro da sua sombria calçada. Com este se abria, como um livro, em confidências íntimas, vendendo ao desbarato parte das suas preocupações. O Ernesto apercebera-se, havia já uns tempos, que o Fonseca não estava muito seguro da fidelidade da sua Rosa, com quem "juntara os trapos", já lá iam uns vinte anos, numa capelinha lá para as frescas verduras do Minho e que lhe dera um bonito pimpolho, hoje um rapagão emigrado. Lia-lhe desconfiança nos olhos sempre que dela falava e intrigava-o o ar taciturno que lhe revestia as feições sempre que alguém aflorava a notória diferença de idades entre ambos. - Cá estou, pá! Pega no saco e dá o fora que o barco pira-se, não tarda muito. - Mas o Ernesto, coçando as madeixas desgrenhadas, com uma ruga crescendo-lhe na fronte larga, media o amigo, sem qualquer pressa em abalar. - Então?! Vais ou não vais? Tens algum problema? - Interrogava o Fonseca, estranhando a demora do amigo. - Olha, Fonseca, é uma gaita...tem calma...o Miguel da taberna telefonou há pouco para te avisar que, lá por volta das nove, apareceu um chavalo à tua porta e entrou abraçado à tua Rosa. - Que merda de gozo é lá esse? Levas é com a brilhantina que vais é brincar com o tio do Camões! - E, com os olhos desorbitados, fulminava o acabrunhado companheiro de trabalho. - É verdade, Fonseca! Pergunta à telefonista, lá em cima...foi ela quem me chamou. Vai lá a casa ver o que se passa que eu faço-te o turno...e tem calma! Mas, também te digo, se aquele Miguel tasqueiro mentiu, mando-o contar ciprestes para o Alto de São João!... E, pouco depois, já o Fonseca rumava para a outra margem, fitando, com raiva muda, as amareladas luzes do Cais Sodré. De cabelo revolto, ele que sempre fora de olhares anatómicos nem sequer dissecava os borrachos que, em pavoneio, se bambaleavam barco fora, com pressa das nocturnas delícias que iam procurar, noite alta, na capital. Toldava-se-lhe a vista e as unhas crispavam-se nas asas da negra sacola pousada entre os joelhos irrequietos. - Eu mato-os... eu esfolo-os, eu.....eu.... - murmurava, aturdido, para a imagem que o vidro húmido lhe devolvia. Ainda o transtejo não havia despejado o Fonseca na doca pombalina e já o Ernesto mergulhava em cogitações de toda a ordem, pesando, agora mais friamente, os hipotéticos reflexos de toda aquela charada na ciumenta cabeça do amigo. E se ele os matasse? Sim, ele que até havia comprado uma pistoleta no Martim Moniz, após, seis meses atrás, haver sido assaltado junto à Fonte Luminosa?! E decidiu fazer qualquer coisa, algo que lhe aplacasse a consciência afogueada pela dúvida. - ........... mas vão depressa, que ele está descontrolado e pode fazer alguma! - A Policia acabava de receber mais um telefonema, semelhante às centenas de solicitações, tantas vezes sem nexo, que lhe chegam fios adentro. E, quando o táxi parou na Calçada do Moinho, ali a Campolide, o Fonseca, em correria desenfreada pelos paralelos molhados, bateu à porta de casa. Uma, duas,....quatro vezes seguidas, com pancadas tão fortes que, por entre as craveiras das janelas vizinhas, assomaram curiosos radares de gentes recolhidas, à espreita da "ressaca". Na taberna em frente, com a porta entreaberta, encavalitavam-se, expectantes, o Miguel e toda a turma da sueca e da ginja. Todos ficaram boquiabertos, suspensos, quando viram o Fonseca de pistola em punho, após derrubar a velha porta com um ruidoso pontapé, irromper pela saleta da entrada, gritando: - Rosa, Rosa, onde estás?... A segunda sapatada foi na porta do quarto, do seu quarto, onde parou na ombreira, de punho espetado, ameaçador. A mulher, recolhida por entre as mantas, com as faces lívidas de susto, olhava o marido, o seu Fonseca, espantada e interrogativa. No canto, de pé, estava um jovem estarrecido, ainda mais perplexo quando viu dois policiais manietarem o desorientado homem. Foi então que, de braços abertos, o rapaz correu para a porta e, envolvendo-o num amplexo sem fim, exclamou, emocionado: - Pai! Querido pai!..... - uma lágrima teimosa deslizava pela face bolachuda do jovem -E venho eu de França, depois de tantos anos, para me receber assim?! Há algum problema? - Ó Jorge, Jorge, meu filho! Que maldita trapalhada, mas que confusão! Podia ser uma desgraça..........

Lá fora, quando os policiais se retiravam pela noite escura, acelerando o aliviado passo, continuava a chover, de mansinho, por sobre os telhados baixos da Calçada....ali a Campolide.