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quinta-feira, 11 de outubro de 2007

CONTO ARQUIVADO

Quinta-Feira! Em passada larga a caminho de mais um fim de semana, vou aproveitar estes dias para um regresso ao passado. É o que procuro fazer, por breves espaços, sempre que o irritante matraquear deste desconsolado presente, me consome a paciência depauperada.
Dou folga às espadeiradas das "Quadraturas do Círculo", esqueço-me do, já enferrujado, bisturi do Tio Marcelo, fecho os olhos ao sorriso alvar das legiões de assessores ministeriais e afasto-me do precipício das minhas miragens do futuro, enquanto este País se vai queimando, em lume brando, no panelão de S. Bento.
Escrevi este "Conto Arquivado" nos anos oitenta, num quadro de memória de factos ocorridos em 1967, naquelas terras africanas, cujo fascínio me viu dar o salto da adolescência descuidada para a preocupada fase adulta. E, enquanto o reescrevo, dou-me conta de como o tempo, voraz e implacável, muda as coisas bem terrenas, sem interferir em sentimentos como a saudade e o prazer:



CONTO ARQUIVADO

Amanheceu depressa aquele Domingo de Outubro, 1967. No Largo do Posto, mal o sol espreitou, bochechudo, por entre os cajueiros da mata, sentavam-se velhos negros, encolhidos nas capulanas de caqui barato. Esperavam, em triste paciência, carpindo para os cipaios madrugadores todas as desventuras da sua noite mal dormida.
- Senhor, tem ali gente com milando grande! - anunciava, solene, no seu jeito sério, o Cabo Sanica, chefe incontestado dos cipaios administrativos da região.
O Carlos, ensonado e digerindo uma agitada sessão de King que se prolongara noite dentro, levantou a esteira da janela baixa e lançou um "já vou" em contrariado bocejo. O Sanica, depois de uns desajeitados e dispensáveis salameleques, foi regressando para junto do grupo.
Carlos era um jovem de 19 anos. Viera, dois anos antes, das serranias beirãs para aquele sertão africano, fascinante e medonho, belo e arrepiante, caixa grande de mistérios que, sonhador, se propusera desvendar. Os negros da área achavam graça àquele "menino branco" idealista, ao seu espírito aventureiro e despreocupado, com quem os mais novos jogavam à bola, qual fruto verde em chão maduro... Mas, talvez por isso, representava, a seus olhos, a rampa de lançamento, através da qual faziam chegar até ao Administrador de Balama a sua nave recheada de lamentações, pedidos e, mal disfarçadas, exigências. Este era já pessoa idosa, vestuta, que eles não ousavam incomodar, quiçá por respeito àquelas barbas majestosas implantadas em sisuda carranca. Era um cabo verdiano letrado, da Ilha de S. Vicente, branco ou crioulo oxigenado, e chefe duma interessante família, pessoas de esmerada educação. Quando o Carlos, ainda esfregando os olhos, foi ao encontro do ajuntamento, por entre um interminável coro de salamas, viu naqueles rostos de ébano um problema maior, bem diferente das choramingas questões a que já o haviam habituado.
- Então o que se passa? O içar da bandeira é só às oito e vocês vieram para aqui tão cedo?! - perguntou, em tom de graça para desenferrujar a língua muda do Régulo Matico, um bondoso preto de carapinha grisalha, figura influente, guia espiritual duma população numerosa e senhor num território tão vasto como o Alentejo. Era admirado pela sua sabedoria e pela verdade com que manifestava os anseios do seu povo, de que era mandatário de linhagem. - Tem garramo muito mau, senhor adjunto, está comer nosso povo! Nosso pede ajuda, está sofrer muito!.... e continuava a explicar-se, o melhor que sabia, no seu português estudado na universidade das suas rugas. Depois, todos foram dando achegas, em alvoroço: que era velho o leão solitário; entrara, noite dentro, numa aldeia do Lúrio e levara a mamana do Jamisse; mas que andava, havia muito tempo, naquela região, pois já havia saciado a sua fome carniceira em dezasseis vítimas...homens, mulheres e crianças....
- Então e só agora vem dizer-nos?!
- Ah, senhor, nosso andava a preparar armadilha, mas aquele garramo não tem bom, não. Ginga, ginga...e não deixa apanhar! - e continuaram todos a descrever as animalescas façanhas da fera.
Pelo que os desventurados negros narravam, não era nada comum o comportamento do bicho. Aqueles métodos manhosos assentavam melhor no leopardo, não no leão, um animal feroz, mas leal na sua agressividade.
Por tradição nativa, antes da imposição dos aldeamentos estratégicos, uma família agrupava-se dispondo em círculo as suas palhotas maticadas, cobertas de capim seco e porta de bambu. Surgiam assim, pela floresta, núcleos habitacionais de quatro, cinco, seis casas, em cujos intervalos brincavam os putos do clã.
Continua em próximo post...