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quarta-feira, 27 de maio de 2009

HELP! Tirem-me daqui....

... que estas sanguessugas rosas querem chupar-me até ao tutano!

domingo, 24 de maio de 2009

A PESCA DO BACALHAU

Uma autêntica Odisseia Lusa, na senda de outras que nos levaram Mar fora. Anos sessenta, quando a nossa frota pesqueira se aventurava nas águas frias do Atlântico Norte, em busca do fiel amigo, o tal que ainda Hoje tem lugar de honra à mesa de qualquer português. Honra à memória daqueles pescadores intrépidos, os "lavradores do mar", como alguém se lhes referiu!

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El microondas



Não gostei!
E não foi qualquer febrão nacionalista que me provocou, mais do que a vergonha, nojo do que vi e ouvi. E que fede!.
Até compreendendo que o homem anda em campanha, desde há muito.
Ainda não passou muito tempo que Sócrates, a propósito de estar presente num congresso ou magno encontro do seu partido, não compareceu a uma reunião europeia em que marcaram presença os lideres da União e em que se debatiam estratégias importantes para o combate conjunto à Crise.
O partido foi, então, um valor mais alto que os interesses do País.
Agora, numa fase conturbada, em que se espera empenhamento e disponibilidade absoluta para tratar dos assuntos inadiáveis com que nos debatemos, quando se pede a todos os portugueses que arregacem as mangas, enquanto vão apertando o cinto, eis que o Primeiro Ministro de Portugal, num mano a mano, muleta a ti, muleta a mim, resolve andar por Espanha, discursando em Portunhol, numa faena do Zapatero. Lide que só acaba em Coimbra, numa arena reduzida, suando as estopinhas, com o capote do hermano.
Gotejando suor pelos poros em transe, mais parecendo um frango acabado de sair do micro-ondas, provavelmente, o mesmo micro-ondas onde poderá ter queimado, em definitivo, as ambições políticas que, mais do que os interesses do País, o parecem mover e ser o seu empenhamento primeiro, desde sempre.
Quando os interesses partidários estão acima das preocupações do todo nacional e, sobretudo, quando se procura em Espanha o apoio que vai faltando no país que governa, por mim dir-lhe-ia que Portugal é aqui, ainda se não exilou!
Muito menos, em Espanha!


Sábado, 10 de Novembro de 2007
De Espanha....
Eu sei, pelas décadas já vividas, e muitos anos atentos, que só o simples facto de ilustrar o texto com esta primeira imagem poderá provocar comichosa sarna politica nalguns leitores que por aqui passem o olhar curioso.
O simples evocar dum símbolo pátrio, despoleta essa, nem sempre sentida, raiva em mentes com esquerdistas complexos, em ex-fascistas convertidos, há trinta anos, em revolucionários sanhudos e em ressabiados apátridas.
Surpreendido fiquei ao não ouvir o eco dessas serôdias reacções quando os "Lobos" cantaram com garbo, e de garganta viva, o nosso Hino!
Não invento, ao afirmar que muitos dos intelectualóides que pululam por essa Esquerda rançosa não deixaram de os conotar com exacerbados nacionalistas ou perigosos atletas de Extrema Direita.
Qualquer incauto português que exalte os valores pátrios ou exorte os seus símbolos, sujeita-se a esse vulgar labéu!Aplicada que está a vacina contra esse surto epidémico, mas da moda, passo ao que ora interessa.


Já por aqui fui vertendo a opinião de que o nosso destino europeu é inevitável e não há mesmo como retroceder. Entrámos num barco sem retorno e nem o risco corremos de sermos atirados borda fora.
Estamos de corpo todo na grande sociedade europeia e cumpre-nos acompanhar e participar na marcha do grupo.
Isso implica, como é inexorável e de honra, que, enquanto membro, de plenos direitos e deveres, da União Europeia tenhamos que cumprir as normas decididas e aprovadas pelo conjunto das nações que a integram, nos planos político, económico e social.
Mas, também, sabemos que numa União de Estados, todos estamos subordinados ao "todo" e a nenhum Estado em especial, subalternizado por qualquer dos membros que a integram.
E é neste pormenor, ou nem tanto, que a nossa ancestral subserviência me parece vir aflorando, remetendo-nos ao velhinho trauma de menoridade.
Menoridade ou outros obscuros interesses grupais que, por decisões, ou indecisões, ao mais alto nível dos políticos, vão permitindo que os nossos vizinhos espanhóis se arroguem do, não menos antigo, tique de paternalistas.
E, os que têm estado atentos não deixarão de perceber que os interesses políticos, económicos e, até, territoriais de Espanha, se estão a sobrepor aos desígnios do nosso País.
São as grandes empresas espanholas, com os centros de decisão para lá da fronteira, a controlarem a nossa actividade produtiva, com domínio substancial na área da Indústria, na área do Comércio e, até, na área do fabrico e comércio de explosivos civis. O que, como é óbvio, só será possível com a conivência de grandes "vultos" da nossa Praça!

E, parece já estar em marcha, a fase de apropriação de território, quando nos é dado conhecer que instituições bancárias, de capitais públicos espanhóis, acenam aos "nuestros hermanos" com empréstimos de juros baixos, simbólicos, desde que o capital seja aplicado na compra de herdades no Alentejo ou terrenos da serra algarvia!

A pressão é ora mais avassaladora e não lhes estará a faltar o apoio e incentivo por parte dos nossos timoneiros. Como se o almejado controlo ainda não fosse total, o factor IVA vem-se encarregando do resto: as zonas raianas de Portugal, de há anos a esta parte, estão, economicamente, à mercê de Espanha. É lá que engordam a bolsa dos nossos vizinhos, na aquisição de produtos que, deliberadamente ou não, o nosso IVA encarece!

Diria que esta realidade até nem seria trágica se viesse a ser a saída da míngua a que o Povo Português vai sendo votado, mas sabemos que o não é nem será. Quanto muito, será um chorudo amealhar de capitais para meia dúzia de judas portugueses "espertalhões" que de tudo isto beneficiam com o bolo da traição.

Delirante a perspectiva a que acabei de tentar dar expressão? Será.....mas não mais que a aventada por um dos, no início do texto, aludidos intelectuais, o Nobel Saramago!

Alguma atenção e o futuro próximo se encarregarão de aclarar este meu ponto de vista. E, espero bem, ter lido mal os sinais!...

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Desabafei, mas continuo um cidadão, um tuga, envergonhado!

B.A.

sábado, 23 de maio de 2009

sexta-feira, 22 de maio de 2009

CÓDIGOS DESERTORES


Um matutino deu-nos, hoje, a conhecer que 446 indivíduos indiciados por crimes de violação, sequestro, pedofilia, assaltos a bancos, andam por aí, livres como passarinhos, passeando-se, impávidos e serenos, sabe-se lá se perto das suas vítimas ou praticando os mesmo crimes ou de outra natureza para que se tenham reconvertido a sua tendência delituosa.
Podem andar a fazê-lo, por exemplo, além de outros, 16 dos 19 indiciados assaltantes de bancos, 12 dos 24 indiciados pedófilos e 33 dos indiciados 41 sequestradores!
A propósito, Loureiro dos Santos afirmou que "somos um país de turismo criminal". Ao que ouso acrescentar que, dos Códigos postos pelo Poder Legislativo à disposição da Justiça, desertaram os instrumentos de que esta necessitaria para garantir a liberdade e segurança dos cidadãos e perseguir e punir os que atentem contra aqueles valores indiscutíveis num Estado de Direito.
É que, para mim, não colhe imputar só aos juízes este panorama, triste e perigoso, em que bandidos confessos se passeiam no mesmo ambiente das suas vitimas, só porque os "pinxavelhos" legais os impedem de aplicarem medidas de coação mais graves.
Na senda do que, desde 2007, venho por aqui defendendo , e que, não com o intuito de colher louros das previsões acertadas, mas mais para provar que até um leigo como eu, que não se move nos doutos juízos de quem estuda e do alto opina sobre a matéria, previa de há muito o que está a acontecer, vou transcrever nas partes que interessam:

Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007

Na santa Paz...

... do Sr. Ministro Rui Pereira, sentimo-nos rodeados de pacíficos anjinhos, esvoaçando pelo Porto, por Lisboa, pelas serras e vales deste Éden redescoberto.
Depois de o ouvirmos, ficámos a especular se a criminalidade não será pura invenção mediática e se terão sido os jornais, as televisões ou as rádios a, num assomo de crueldade, crivarem de balas o Gaiato, o Palha, o Ilídio, o Berto.....a assaltarem bancos, ourivesarias, multibancos, farmácias, e -sabe-se lá! -, a deixarem em cuecas o padre de Alijó, depois de lhe aplicarem o terreno castigo duma sova nada espiritual!
Mais, ficámos a pensar se o homem de Santa Comba, naqueles "negros" tempos não estava certo quando vergastava esses bandidos mediáticos com o chicote da Censura, para que Portugal vivesse na Paz dos Anjos e do Cerejeira! Mesmo sabendo que, nesse longo período, se faltava o pão e minguavam os "ladrões", não faltava a segurança na mesa dos portugueses.
E não deixa de ser caricato - ou talvez não -, que o Sr. Ministro, ao imputar aos meios de Informação um aumento da criminalidade, que diz não ser real, quase lhes faça um informal convite para que escamoteiem a informação, a bem dum sentimento de segurança e paz, bem ao estilo da "outra Senhora"!
Do que, convenhamos, poucos frutos colheria. As pessoas andam nas ruas, ouvem, vêem e crêem, vivem as situações dum inseguro quotidiano. São actores, protagonistas e figurantes deste filme! Não precisam de ser convencidas por securitários ou alarmistas.
Certo é que nem aos mais desatentos escapou que algo falhou no Porto na actuação policial e, sendo cometida à PJ a investigação dos crimes que foram abalando a noite da Invicta, não deixamos de estranhar que tivessem permitindo que a bola de sangue fosse aumentando, como se de neve fosse, sem que a derretessem em tempo oportuno.
De há uns anos a esta parte, fomos lendo nos matutinos, nos semanários, vendo e ouvindo nas televisões, acções de investigação por parte da PJ do Porto. Delas ressaltava alguma guerrilha com a PSP da cidade, expressa em investigações a agentes desta força menos escrupulosos ou que se excediam no zelo. Estamos, ainda, a lembrarmo-nos das frequentes notícias que nos davam conta da sua tenaz luta aos explosivos, numa invulgar saga que levou à Justiça homens que labutam extraindo da terra as pedras que lhe possam dar pão. Lia-se, como alarme justificativo, a apreensão de "Goma 2 EC", do mesmo tipo do explosivo utilizado nos atentados em Espanha. Estranha foi essa luta, quando sabemos serem os próprios espanhóis os fabricantes desse produto. Mais estranho é sabermos que, depois de tantas detenções de empresários, empreiteiros e operários, que publicamente se saiba, nem um grama de explosivo foi, ilegalmente ,vendido para aquela país vizinho. E, a crer, nas notícias profusamente difundidas pela Imprensa (de fontes seguras) a PJ do Porto empenhou vasto tempo, meios e dinheiro, num trabalho de investigação cuja prioridade se não entende.
A isto chama-se dispersar esforços, atenção e meios, em questões acessórias e não investir em acções do essencial. E o essencial, antes de tudo, é zelar pela segurança das populações da área de actuação de qualquer força. E as do Porto mereciam-na.

Não nos custa, pois, fazer uma leitura interpretativa do gráfico que encabeça este texto. Também compreendemos a actuação do PGR neste caso.
Sem prejuízo de que, no seu todo, sabermos que a PJ tem tido uma actuação profícua na luta contra o crime e não podermos deixar de reconhecer da competência dos homens que a servem e nos resultados positivos que vêm, globalmente, obtendo.
Urge, sim, livrá-la de alguns espartilhos legais que lhe tolhem a acção. E é nessa área que os senhores ministros e correlegionários parlamentares devem ser mais cuidadosos na feitura das leis processuais. Amarrarem as pernas dos agentes policiais com garrotes legislativos e exigirem que eles corram é que nunca resultará.

VIAGEM PELAS SOMBRAS

Crime Continuado...

Já, muitas vezes, dei por mim a invectivar, intimamente, um ou outro Juiz, por esta ou aquela sentença. Umas vezes, com algum fundamento, outras, acredito, sem fundamento nenhum.

É inexorável: cada um de nós tem dentro de si um julgador, um árbitro sem erros, um magistrado supremo!

Esquecemos, ou nem tanto, nem todos, que não são eles, os juízes, os legisladores, os artífices dos códigos imprescindíveis à vida num Estado de Direito.

Essa função radica noutros órgãos. Cujos membros foram por nós, tantas vezes, cidadãos incautos, livremente eleitos.

Aos juízes cabe, por força do seu mister e estatuto, julgar dentro dos parâmetros das leis instituídas. Concordem ou não com a essência desses diplomas.

E, muitas vezes, não concordarão mesmo, em consciência, no seu cultivado espírito de justiça, com os preceitos que são forçados a aplicar.

É o caso do, já tão badalado, caso do "crime continuado" nas agressões sexuais. Tal como a esmagadora maioria dos comuns cidadãos que se vão pronunciando, também eles, vieram a terreiro zurzir num "pinchavelho" do novo Código que - na prática -, permite que qualquer abusador ou pedófilo empedernido, possa usar e abusar, uma, duas...dezenas, centenas de vezes, duma vítima das suas criminosas taras, sem que lhe seja imputado equivalente número de crimes! Segundo a nova "Tábua das Leis" será punido por um só crime, o tal "continuado".

Tomam-nos por um Povo de papalvos, que o somos muitas vezes, embevecidos por promessas cínicas ou papagaíces espertalhonas, mas não creio que alguém não desconfie da bondade deste preceito. Mais, que não haja entendido o alcance e o alvo!

Pois bem: para que possa ser desarmada essa legítima desconfiança, num Estado em que o Poder se proclama, a cada passo, democrático e transparente, é urgente que a Assembleia Legislativa, dê a conhecer aos cidadãos que elegeram os seus membros, quais os deputados que terão entendido de per si alterar aquele artigo do Código, já depois de haver consenso num texto original!

Urge que quem de direito o faça, para que não continuemos a viajar pelas sombras, pela mão de gente que nos está a desmerecer a confiança.

Como urge louvar a atitude dos Juízes,porque não temos outro caminho fiável que não seja continuar a acreditar na Justiça! Apesar de alguns excessos e não menos brandura e omissões.


Já sabíamos....


.... mas o Procurador Geral Adjunto António Cluny, já o reconhece publicamente:

A Justiça não está preparada para punir os poderosos!

Pois, não! De há muito que somos confrontados com essa triste realidade. Os exemplos são vários e de todos os quadrantes e tipo de crimes.
E vai sendo tempo da Justiça se preparar para não se limitar a punir aqueles que não têm garras nem poder para a iludir. Num Estado que se proclama de Direito, há muito que urge que as leis sejam iguais para todos e que os emaranhados jurídicos tecidos com as últimas alterações ao Código de Processo Penal não sirvam para isso mesmo: dar trunfos a quem tem dinheiro para as delongas, os recursos, os apelos e quejandos, artifícios a que os economicamente menos poderosos não podem recorrer.
O Governo que dê exemplo, meios materiais e humanos para que Justiça que se prepare, sem demora, pois temo que a prolongar-se no tempo a sua incapacidade, esgotada a peculiar paciência do nosso Povo, cairá na rua o exercício do Direito.........e do Poder!


Sábado, 22 de Novembro de 2008

Comissões de Inquérito


Sendo assim, a instituição Assembleia, mais não deve que deixar a instituição Justiça desenvolver, sem empecilhos inúteis ou ingerências embaraçosas, o seu trabalho de investigação e , sempre que for caso disso, de punição dos criminosos comprovados.

Compete à primeira, isso sim, prestigiar a Magistratura e, sobretudo, aprovar leis exequíveis, para que esta possa servir-se das ferramentas adequadas e não de diplomas absurdos e contraditórios que façam da legislação portuguesa uma autêntica floresta de enganos.


Em 18/3/2008:
"mas não deixo de me que questionar a propósito da leviandade com que se decide a produção de leis no nosso País. Num Estado que se pretende de Direito é fulcral que qualquer diploma regulador da vida em sociedade seja, previamente, discutido e ponderado, no sentido de se aquilatar da sua justeza e aplicabilidade.

Para esse desígnio, compete aos legisladores uma audição prévia da sociedade civil, com auscultação dos organismos e entidades abalizadas, que, mais de perto, lidam com as áreas em que se pretende legislar.

Tenho para mim que as Leis da Nação não podem ser, unicamente, imaginadas e produzidas na ignorante solidão de qualquer gabinete ministerial ou na inquietante chinfrineira dos claustros do Parlamento.

Para que possam ser exequíveis, respeitadas e aplicadas, sem tibiezas. E que a sua subjectividade, no conteúdo, mas, também, na forma, não possa ser uma arma apontada aos mais fracos e de cuja trajectória os mais fortes se possam esquivar por força dos descuidados, ou intencionais, articulados que as enformam.

A não ser assim, só nos resta a preocupação com a saúde do corpo do Estado de Direito, debilitado por sucessivos abortos legislativos, como é flagrante e preocupante exemplo o diploma que aprovou as alterações ao Código de Processo Penal.



Em 14/1/2009:
Compete à primeira,(AR) isso sim, prestigiar a Magistratura e, sobretudo, aprovar leis exequíveis, para que esta possa servir-se das ferramentas adequadas e não de diplomas absurdos e contraditórios que façam da legislação portuguesa uma autêntica floresta de enganos.

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Depois de tudo isto, já sei.....sou um "securitário" teimoso! A razão está com os "delicodoces" que defendem os actuais códigos desertores e zelam pelos direitos dos bandidos algozes , enquanto esquecem os das suas vitimas!

Antes "securitário" que calar-me. Eu não consinto!



quarta-feira, 20 de maio de 2009

Recordar Lourenço Marques...

... a actual Maputo.

Lembro-me dela como uma cidade jovem, arejada e florida, de largas avenidas, desenhada a régua e esquadro, debruçada sobre as ondas do mar que a beijava:


domingo, 17 de maio de 2009

Ilha do Sal

Nas ilhas da "sodade" que pontuam no Atlântico imenso....

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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Tenho a humildade de...

... reconhecer que aprendo sempre quando leio textos do António Barreto.
Agrada-me, a forma; enriquece-me, o conteúdo.

Do JACARANDÁ:

Eles não sabem o que fazem

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FALTA UM MÊS para as eleições europeias. Todos os partidos têm os seus candidatos. A campanha começou. As primeiras levas de cartazes foram afixadas. Começaram as eternas discussões sobre os debates na televisão. Já houve o incidente da praxe, o de Vital Moreira, não condenado por todos os partidos, como devia ser, e toscamente aproveitado pelos socialistas, como não devia ter sido. As sondagens multiplicam-se. Nos jornais, o debate é vivo. De que se discute? Da Europa? Do falecido, à espera de ressurreição, Tratado de Lisboa? Nem pensar. Discute-se o governo que sairá das eleições de Outubro. Das coligações possíveis. Do inevitável Bloco Central.
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NADA MAIS revelador. As eleições europeias não interessam à população. Os eleitores pensam noutras coisas. Sabem que o seu voto não tem influência na decisão política. O eleitor de Casal de Loivos sabe que, nas municipais e nas legislativas, o seu voto tem efeitos no Pinhão, em Alijó e em Lisboa. Sabe que, na Junta de Freguesia, na Câmara, no Parlamento e no governo da República, o seu voto conta. Mas que, nas europeias, o seu voto é indiferente. Sabe que, em Bruxelas, as decisões e as maiorias têm outra origem e outra racionalidade. Nada o liga ao eleitor de Upsala, nunca ouviu falar de Riga e pensa que a Suíça faz parte da União Europeia. Sabe, antes das eleições, que o presidente da Comissão já foi designado. Se for votar em Junho, o que é pouco provável, será para dar um sinal com vista às eleições legislativas de Outubro. É natural que assim seja. O cidadão europeu, de que tanto se fala, não existe. A soberania europeia é uma ficção. A democracia nas instituições europeias é um artifício sem consequência. O eleitor de Casal de Loivos tem razão.
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PREOCUPA-O, isso sim, o próximo governo. Parece que não há muitas hipóteses de haver uma maioria absoluta, o que considera negativo. Aprecia os governos que duram quatro anos. Sente que na sua vida, no trabalho, na escola dos filhos, nas obras em curso perto da sua vila, nas garantias da sua poupança e no Centro de Saúde que agora está aberto, as mudanças de ministros e de governos são nefastas. Pode não apreciar o governo de um só partido, se não for o das suas simpatias. Mas sempre detestou mais a instabilidade, que já lhe trouxe prejuízos. Mesmo um governo de vários partidos, desde que tenha a maioria, lhe parece mais sensato. Um governo minoritário perde-se em demagogia, é vítima de chantagem e tem de negociar tudo com todos, a ponto de ser inevitável que haja novas eleições, com as quais se perde tempo e dinheiro.
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UMA COLIGAÇÃO de esquerda? Entre o PS e o PCP? Impossível. Continua a ser um tabu e o PCP não está disposto a correr risco de vida. Entre o PS e o Bloco de Esquerda? Possível, mas desastrosa. O Bloco tem um temível efeito de fragmentação do PS. E a política comum destes dois partidos não deixaria pedra sobre pedra. Uma coligação de direita, entre o PSD e o PP? Já se fez, não deu sempre maus resultados, mas hoje parece uma impossibilidade. O PSD perdeu muito ao centro, o PP perdeu quase tudo. Uma coligação de oportunismo, entre o PS e o PP? Também já houve, foi um desastre, dura meses, não adianta, só adia. Um Bloco central, que toda a gente critica e retira verdade à vida política? Talvez seja necessário. Foi como Presidente Lula disse do FMI: “É como ir dentista: não gosto, mas vou”!
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A PRINCIPAL crítica que se faz ao Bloco central é a de que retira autenticidade ao debate político e elimina a alternativa política. É verdade. Mas um governo minoritário é pior: é um incentivo à negociação oportunista, à demagogia e à perda de responsabilidade. Em tempo de crise e endividamento, nada seria mais perigoso. A segunda crítica diz que esse bloco é fonte de corrupção e de partidarização do Estado. É verdade. Mas o governo minoritário, mais inseguro, é pior. Aliás, com as leis de financiamento dos partidos e dos cargos da alta administração, aprovadas por todos, um bloco central ou uma coligação nada virá a alterar. O que é hoje feito somente em benefício de um partido terá de ser repartido por dois. A corrupção não aumentará, será dividida em dois. O favoritismo, o nepotismo e a partidarização não aumentarão, serão distribuídos por dois.
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SERÁ um mistério de ordem clínica? O que se passa com os deputados e dirigentes dos partidos? Têm perturbação da vista? Do ouvido? De compreensão? A aprovação, por quase unanimidade (um voto contra do deputado socialista António José Seguro e uma abstenção de Matilde Sousa Franco), da lei de financiamento dos partidos só pode ter explicação numa deficiência dessa natureza. Num clima de crise económica e social, recheado de factos que suscitam a desconfiança e mostram a desonestidade de tanta gente, uma lei destas só pode agravar os ânimos. Numa conjuntura em que o Estado, as polícias e os fiscais de toda a espécie pesquisam a vida privada dos cidadãos, abrem as contas bancárias, querem saber o que fazem os contribuintes e se preparam para dispensar os mandatos judiciais, a hedionda lei cria um sistema de alforria para os partidos que, únicos na sociedade, poderão manipular “dinheiro vivo”. Numa altura em que anda meio mundo à procura de comportamentos suspeitos do outro meio, esta lei parece destinada a virar contra os políticos as atenções que vinham sendo dirigidas para os banqueiros. Na ocasião em que a corrupção é um fenómeno que a muitos preocupa, em que se procuram meios para a combater e em que se pretende liquidar ou diminuir o tráfico de dinheiros, luvas e prendas, a disparatada lei estabelece uma via legal para que o circuito venal tenha curso livre. Num momento em que os políticos se queixam, por vezes com razão, da onda de críticas e rumores dirigidos contra a política e os políticos, a famigerada lei dos partidos mais parece um acto suicida de gente desesperada. Quando se fizer a história da terceira República, esta lei terá lugar de destaque.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Na penumbra dos séculos...

...continuam a gladiar-se, a MENTIRA e a VERDADE!



quarta-feira, 13 de maio de 2009

Havana, Cuba...

... cujo núcleo histórico foi, em 1982, considerado pela UNESCO Património Cultural da Humanidade.


Em Tete, Moçambique.


Sendo o destino final uma picante caldeirada, com piri-piri q.b., não estranha que a última vontade do cabrito fosse uma relaxante boleia, de ginga!...

terça-feira, 12 de maio de 2009

A peculiar irreverência coimbrã



A tradicional irreverência estudantil não se perdeu, na cidade do Choupal!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Ao "Deus dará..."


Não sendo, por obra de feliz acaso, muito frequentes, vão-nos chegando noticias de acidentes com explosivos, quase sempre com vítimas e danos materiais em edifícios e outras estruturas nas zonas envolventes aos sinistros.
O último, ocorrido numa estrada da região de Cinfães, deu-nos a conhecer, a serem fidedignos os pormenores relatados, no mínimo, a mais um caso de pura negligência ou falta de profissionalismo do pessoal envolvido no transporte daqueles produtos.
Sem recorrer a linguagem muito técnica, vou deter-me um pouco em factores que levem à compreensão do comportamento desses compostos de uso civil, imprescindíveis para extracção de rochas e trabalhos de obras públicas de diversa natureza.
Estes explosivos, propriamente ditos, os gelatinosos (vulgo "dinamite"), ou pulvurentos (vulgo "Anfos"), só por si, não representam, em termos de transporte, perigo de maior. Isoladamente, a sua detonação inesperada e fortuita dificilmente ocorre, não obstante não se poder, liminarmente, afastar tal hipótese. Sem aconselhar que alguém o faça ou experimente, na sua maioria, e em quantidades reduzidas, nem lançados ao fogo "explodem".
Essa função de estímulo cabe a uns dispositivos, estes sim de elevada sensibilidade (ao choque, à fricção, a descargas eléctricas e à chama), conhecidos por detonadores.
Objectos metálicos, de reduzidas dimensões, têm um invólucro (os mais vulgares, "pirotécnicos") por pequenos tubos cilíndricos de alumínio (para obras de céu aberto) ou de cobre (nas antigas minas de carvão); outros, com uso mais actual, são os detonadores eléctricos, com a mesma função dos mais primitivos.
No interior desses pequenos cilindros existe uma pequena carga - ignidor, iniciadora e de base - em que se realça o fulminato de mercúrio, esta, sim, uma substância altamente sensível e que pode ser activada por um simples choque, chama ou fricção.
São estes detonadores que accionam a onda de choque produzida pelos explosivos (o "dinamite", como é, vulgarmente, conhecido).
Logo, só é aceitável a junção de "detonadores" com "explosivos" no acto de aplicação no local dos trabalhos e nunca na sua armazenagem e transporte.
Para obviar a ocorrência de acidentes, como o mais recente, de Cinfães, a legislação que regula a matéria, como regra geral, não permite o transporte em conjunto de ambos os produtos, só o admitindo desde que a viatura, fechada, disponha de compartimentos estanques e com separação tecnicamente capaz de evitar que a fortuita activação dos detonadores provoque a detonação dos explosivos.
Prevê, ainda, o transporte de pequenas quantidades - normalmente, até 50 Kg -, em paióis móveis, que são caixas de madeira, com compartimentos individuais, construídos de forma resistente, estanque, revestidos por uma liga metálica não geradora de campos eléctricos e com bom isolamento, com a mesma finalidade de segurança das divisórias nas viaturas de transporte.
Em veículos de caixa aberta e sem recurso a estes paióis móveis - com os detonadores e os explosivos no mesmo ambiente -, como parece ter sido o caso reportado, é que nunca!
Estou a lembrar-me dum triste acidente do género, há alguns anos, na região de Alijó, em que dois indivíduos deslocando-se no interior da cabina e que transportavam no veículo de caixa aberta detonadores e explosivos, destinados a surriba de vinhas, perderam a vida numa explosão provocada pela ignição dos detonadores, julga-se, provocada por uma "beata" de cigarro lançada pela janela por um deles.
Assim, a crer nas informações difundidas pelos órgãos de comunicação social, o "acidente de Cinfães" só pode ter ocorrido por manifesta falta dos requisitos de segurança e grosseira negligência, por provável e perigosa rotina de quem transporta e opera com estas matérias perigosas.
E, convenhamos, por mais que provável falta de fiscalização no terreno, por ausência ou falta de meios humanos e materiais, das entidades a quem cabe zelar pela segurança nesta área de actividade, ao que acresce uma legislação pouco esclarecida e mesmo confusa e à diminuta sensibilização e pedagogia junto dos operadores destes produtos.
Confia-se demasiado na sorte, nas boas estrelinhas do "Céu", num país "ao Deus dará...", de tal forma que até o ateu mais empedernido se interrogará se não será aquela divindade suprema quem tem evitado situações mais calamitosas e acidentes deste género mais frequentes.

domingo, 10 de maio de 2009

Geração rebelde, porquê?



Não resisto a transcrever. Pode-se não gostar do estilo, mas o conteúdo tem sumo....de morango!
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"A SIC montou uma gigantesca campanha de promoção para a sua nova série/novela/monte de m.... que dá pelo nome de Rebelde Way.
Depois de anos a apanhar bonés, percebeu que a melhor maneira de combater a morangada da TVI era...imitar. É lógico. Era inevitável.
Depois de 20 minutos a ver a nova série (o que me provocou uma crise de cólicas da qual só um dia depois começo a recuperar) sinto-me preparado para uma análise.
Bora lá. A fórmula é a mesma nos dois canais. Aqui fica a receita:

1 - Pitas boas. Muitas, quanto mais descascadas melhor (as séries de verão são, naturalmente, as melhores, porque eles vão todos juntos para a praia).
2 - Gajos "estilosos". A coisa divide-se em dois: há aqueles que têm quase 30 anos mas fazem de adolescentes, e depois há os que são mesmo adolescentes. Estes últimos são aqueles que se levam a sério enquanto "actores".
O requisito essencial para qualquer gajo que entre nestas séries é ter um penteado ridículo.
3 - O Rebelde Way tem gajas do norte. Fazem de gajas daqui, mas aquele sotaque é f..... de perder. Fica ridículo, mas as gajas são boas.
4 - Nos Morangos, a palavra "pessoal" é dita 53 vezes por minuto, normalmente inserida nas frases "Eh pá, pessoal!", no início de cada conversa, ou então "Bora lá, pessoal", antes do início de qualquer actividade.
Agora vamos à bosta que a SIC acabou de parir, com pompa, circunstância, varejeiras e mau cheiro. Chama-se Rebelde Way. Cool, man!
O slogan dos Morangos era "Geração Rebelde", mas a inspiração deve ter vindo de outro lado, de certeza. O que me irrita na poia da SIC é que os gajos são todos betinhos (até os mânfios são todos giros e cool e com uma caracterização ridícula, como se fossem a um baile de máscaras vestidos de agarrados ou arrumadores de carros). Mas depois são bué rebeldes. São bué mauzões, man! A brincar com os seus iPhone, com as suas roupinhas fashion, grandes vidas, mas muita mauzões.
Se há algo que esta geração de morangada não pode ser, não tem direito a ser, é ser rebelde. Rebelde porquê, contra quê? Nunca houve em Portugal geração mais privilegiada do que a actual, à qual esses putos pertencem. Nunca qualquer puto teve tanta liberdade e tanta guita no bolso como esta malta. Nunca as pitas foram tão boas e tão disponíveis para f.... com a turma inteira como agora. Nunca houve tamanha liberdade de mandar os pais à merda e exigir uma melhor mesada porque é altura dos saldos. Rebelde porquê? Em nome de quê?

É claro que isto são pormenores com os quais as novelas não se deparam, nem têm de o fazer. O objectivo é simples: para uma geração tão privilegiada como aquela que é retratada, há que criar uma rebeldia fictícia, porque não é cool ser dondoca aos 16 anos. Mas é o que todos eles são.

Há uns tempos vi, no Largo do Carmo, um bando de uns 15 putos e pitas, vestidos à "dread" com roupinha acabada de comprar na "Pepe Jeans".
Um dos putos que ia à frente, não devia ter mais de 16 anos, vem a falar à idiota como se fosse dono da rua, saca duma lata de tinta e escrevinha qualquer coisa de merda na parede. Todos se riram, todos adoraram, e ele foi, durante cinco minutos, o maior do bairro. Não fiz nada, mas devia ter-lhe partido a boca toda.
Todas as últimas gerações antes desta (incluindo a minha, a Geração Rasca, que se transformou na Geração Crise - bem nos f...... com esta merda) tiveram de furar, de lutar, de fazer algo. Havia uma alienação mais ou menos real, que depois se podia traduzir nalguma forma de rebeldia. Não era o 25 de Abril como os nossos pais. A nossa revolução é a dos recibos verdes e da consolidação orçamental. Mas esta morangada sente-se, devido à merda que a televisão lhes serve e aos paizinhos idiotas que (não) a educaram, que é dona do mundo. Quando já és dono do mundo, vais revoltar-te contra quem? E por que raio haverias de o fazer?!
E assim vamos nós. Com novelas de putos "rebeldes", feitas por "actores" cujo momento de glória é entrar numa boys band ou aparecer de cú ao léu na capa da FHM, ensinando a todos os outros putos que temos que ter cuidado com as drogas (mas todos os agarrados são limpinhos, assépticos, com os mesmos penteados ridículos), que a gravidez adolescente é má (mas todas as pitas querem f.... à grande, porque são donas da sua própria vida e os pais não sabem nada, etc) e que, sobretudo, este mundo lhes deve alguma coisa.
Os tomates.A mim e aos meus, o mundo deve alguma coisa. Aos que foram atrás da merda do canudo para trabalhar num call center, aos que se matam a trabalhar e são forçados a ser adultos antes do tempo. Não a esta cambada de mentecaptos.
E depois estas séries vão retratando "problemas sociais da juventude", afagando a consciência de quem "escreve" aquela merda, enquanto ao mesmo tempo incentivam esta visão egocêntrica, egoísta e vácua desta geração acabadinha de sair do forno.
Talvez eu esteja a ficar velho e a soar como o meu pai. Lamento se não é cool. Mas esta merda enoja-me.»
Vão ser rebeldes pó caralhete."
Anónimo (senão ainda vou dentro)...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Mais episódios da "Guerra Colonial"...

... da 2ª Série que a RTP vem transmitindo.

A propósito do tema, acaba de ser aprovada na AR uma proposta do CDS/PP que generaliza o apoio do Estado na compra de medicamentos por parte dos deficientes das Forças Armadas.
Mais um pequeno passo, com décadas de atraso, no reconhecimento daqueles que, em nome da Pátria, se viram física e mentalmente diminuídos e a quem, nunca será demais repeti-lo, essa mesma Pátria nunca fez justiça.
Sem pretender fazer a apologia de qualquer partido político, pois, não militando em nenhum deles, sou de todos um confesso desconfiado e descrente militante, é, igualmente, justo dar nota das iniciativas pessoais de Paulo Portas, no sentido do reconhecimento dos sacrifícios vividos por uma geração que foi obrigada a combater em África.



quarta-feira, 6 de maio de 2009

Os JACARANDÁS de António Barreto

Daqui: http://uploadsdenuncia.files.wordpress.com/2007/12/campa-de-salazar.jpg

Para os que, ao que vamos vendo e ouvindo, ainda coçam o rabo de medo do velho de Santa Comba e continuam a afiar a faca para lhe cortar a cabeça e, também, para os que olham os céus em noite de lua cheia e gritam apavorados que viram um chapéu de aba larga, eis a prova de que já despejaram tantas culpas em cima do fantasma das botas que não há visão alguma que sobreviva debaixo de tanto peso e estupidez.


Entretanto, sem recorrer a genéricos baratos, receito-lhes (aos das visões) mais este ansiolítico das melhores marcas laboratoriais e sugiro-lhes que tenham mais atenção com os ditadorzecos que se perfilam, bem reais, no Presente. Que o Passado já lá vai......
Este antidepressivo tem a reconhecida marca e o selo dum laboratório das letras e da sociedade que mais aprecio:

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Do JACARANDÁ:

A tão frágil liberdade...

PRIMEIRO, CONTARAM. Não acreditei. Pensei logo que se tratava de exagero. De mais um rumor urbano contra a política e os políticos. Depois, vi uma fotografia nos jornais. Rendi-me. Era mesmo verdade. O dia 25 de Abril é dia de festa. Dia de liberdade também. Em princípio. A Assembleia da República reuniu para uma gala. Como habitualmente, pela Primavera, realiza-se a cerimónia oficial de comemoração. Tudo parece ter corrido bem. A oposição malhou no governo. O governo elogiou-se. Os partidos da direita disseram que o 25 de Abril não era de ninguém ou que era de todos. Os de esquerda garantiram que era só deles. Os da direita demonstraram que o socialismo estava acabado. Os de esquerda mostraram, argumentando com a crise, que o capitalismo estrebuchava. O governo prometeu ser o herdeiro de Abril. O Presidente da República e o Presidente da Assembleia fizeram os melhores discursos do dia e distanciaram-se da trapalhada. Do Presidente Cavaco Silva esperava-se faca e recado, não veio nada parecido com isso. Tudo correu bem. Os que usam cravo na lapela estimam que essa flor é o uniforme da liberdade. Os que não usam entendem que o adorno é dos revolucionários e candidatos a déspotas. Metade daquela casa considera a outra metade intrusa e ilegítima. Isto não é evidentemente saudável. Mas é uma velha história. Na verdade, esquecendo estes diferendos sempre perigosos, tudo correu bem.
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NO FIM dos discursos, em aperitivo para o beija-mão e os cumprimentos de função, cantou-se o hino nacional. De pé, os nossos representantes tentaram recordar e trautear aquelas heróicas e obsoletas palavras. Sobretudo, esforçaram-se por não desafinar. Pois bem, nesse momento solene, algo de extraordinário aconteceu. Ao mesmo tempo que soavam as últimas estrofes da canção nacional, nos enormes ecrãs de plasma, pendurados nas paredes do hemiciclo, começam a ser projectadas fotografias. Em particular, a que se viu depois reproduzida nos jornais: algures, na sede da PIDE ou da Censura, em Abril de 1974, um soldado retira das paredes uma fotografia de Salazar. Inesquecível! Absurdo!
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PODE pensar-se que o episódio não tem importância. Que foi uma brincadeira. Um devaneio. Que ninguém, além dos deputados e das altas individualidades, vê o que se passa no Parlamento. Qualquer coisa. Mas a verdade é que tem importância. Trinta e cinco anos depois de Abril, a democracia continua a viver à custa de Salazar e da sua queda. Parece que o regime democrático e a liberdade nada têm a oferecer ao povo para além do derrube do ditador. Que, aliás, não foi do próprio mas do sucessor. Aqueles partidos e aquela instituição vivem obcecados. Sentir-se-ão culpados? De quê? De não terem sabido governar o país com mais êxito e menos demagogia? De perceberem que a população está cada vez mais cansada da política e indiferente aos políticos? Preocupante é haver alguém que pense que aquelas imagens produzem algum efeito! A política contemporânea é de tal modo medíocre que o derrube do anterior regime é ainda mais importante do que o novo regime democrático. Essa é a mágoa! Trinta e cinco anos depois, a liberdade e tudo quanto se vive não são já mais importantes do que aquele dia de derrube. Será que os espanhóis fazem o mesmo? Os gregos? Os russos? Os franceses também eram assim em 1980? Que Parlamento no mundo, em dia solene ou simplesmente em dia de trabalho normal, se dispõe a exibir fotografias dos inimigos da democracia? Será assim tão frágil a nossa liberdade que necessitamos de a legitimar sempre com o derrube de um ditador? Por quantos mais anos vamos assistir a isto? Nenhum dos argumentos previsíveis é satisfatório. Dizem que é preciso recordar. Reler a história recente para que a ditadura não volte. Gritar “nunca mais”, para que nunca mais seja. É exactamente o contrário. A falta de capacidade de respirar livremente, sem recordar os fantasmas, é a vontade de viver amarrado ao passado. Este regime é débil, porque não encontra em si próprio, nos seus méritos, razão suficiente para se legitimar e justificar. Para se assumir sem inventar ou ressuscitar inimigos. Esta insegurança revelada pelos dirigentes políticos contrasta com a certeza de muitos cidadãos. Inquéritos recentes mostram os sentimentos dos portugueses. Querem a liberdade. Não necessitam de fantasmas para se sentirem livres. Ponto final.
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ESTA história tem mais que se lhe diga. O Parlamento parece transformado num recreio. As renovações recentes só vieram confirmar essa tendência. Os computadores distribuídos pelos 230 lugares são inexplicáveis. Ou antes: só se compreendem se fizerem parte de um plano de fornecimento aos representantes da população de equipamentos de divertimento e passatempo. Computadores e plasmas para os deputados têm exactamente as mesmas funções que os “Magalhães” para as escolas. Os ecrãs monumentais nas paredes esperam imagens, gráficos, programas de “power point” e “clips” de propaganda. Quem julgue que o Parlamento serve para pensar, ouvir, falar, aprender, argumentar, discutir, esclarecer e fiscalizar está enganado. Ali, passa-se o tempo. E como a ausência ao hemiciclo é constante e elevada, alguém congeminou esta inovação: vamos trazer-lhes divertimentos, vamos atrair os deputados com imagens e filmes. Vamos permitir-lhes que tenham acesso rápido ao “twitter”, ao “messenger”, ao “face book” e ao “you tube”. Vamos dar-lhes imagens, que valem milhares de palavras. Vamos dar-lhes qualquer coisa que lhes interesse, que os seduza. E já agora que os impeça de se interessarem pela política e pelo debate.
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VALHAM-NOS os jacarandás. Apesar da crise e mau grado uma Primavera esquisita, o primeiro, lá para os lados de Belém, floriu esta semana. Timidamente. Ainda sem brilho aparente. Mas já cá está.

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As melhoras!

O LIVE AID tuga!

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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Mais "Frases de Ouro"!

Medina Carreira, com 78 anos de idade, licenciado em Direito e em Ciências Pedagógicas e com frequência do Curso de Economia, foi Secretário de Estado do orçamento e Ministro das Finanças dum governo de chefia socialista, de 1976 a 1978.
Desassombrado, não tendo nem procurando, se considerarmos a sua vetusta idade, qualquer "lugarzinho" neste ou em próximos executivos, habituou-nos a ouvir aquilo que muitos pensarão e que não dizem, ou porque sentem que a sua voz não é politicamente forte ou porque lhes falta a coragem para enfrentar a arrogância e as represálias.
Da sua entrevista recente a um matutino, porque as considero de ouro de vários quilates, exponha-os na vitrina deste Vouguinha preocupado:








domingo, 3 de maio de 2009

Obrigado, MÃE!

Sem "lamechices", mas com muito sentir e saudade, pensando na minha, mas para todas as mães que passeiam pelas margens deste Vouguinha, a minha admiração e homenagem, neste dia em que celebramos quem é fonte de vida e de amor!

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Anedota da semana


No Museu do Louvre

Depois de mais um reunião da CE, alguns Ministros resolvem passar pelo Louvre para "aliviar" o stress e param meditativos perante um excelente quadro de Adão e Eva no Paraíso.

Desabafa Angela Merkel:
- Olhem que perfeição de corpos: ela esbelta e esguia, ele com este corpo atlético, os músculos perfilados... São necessariamente estereotipos alemães.

Imediatamente Sarkosy reagiu:
- Não acredito. É evidente o erotismo que se depreende de ambas as
figuras... ela tão feminina... ele tão masculino... sabem que em breve
chegará a tentação... Só poderiam ser franceses.

Movendo negativamente a cabeça, o Gordon Brown arrisca:
- Of course not! Notem... a serenidade dos seus rostos, a delicadeza da pose, a sobriedade do gesto... Só podem ser Ingleses.

Depois de alguns segundos mais de contemplação, Sócrates exclama:
- NÃO CONCORDO. Reparem bem: não têm roupa, não têm sapatos, não têm casa, só têm uma maçã para comer... não protestam e ainda pensam que estão no Paraíso... Não tenham a menor dúvida, são portugueses!

Uma semana divertida,

B.A.

sábado, 2 de maio de 2009

Maio, maduro Maio!

É evidente, ninguém de bom senso e com um mínimo de civismo deixará de condenar a forma como Vital Moreira, o candidato independente que encabeça a lista do PS às eleições europeias, foi recebido na manifestação da CGTP comemorativa do 1º de Maio.
Mais entendo que, em democracia, são intoleráveis agressões físicas (que, por acaso ainda não consegui visualizar, para além dos impropérios, estes bem audíveis) sejam quais forem as opções políticas de cada cidadão livre.
Quanto a isso, estaremos todos de acordo.
Passando ao campo dos contornos a montante do acontecimento, pressinto que Vital Moreira, condição abrangente à maioria dos políticos de poleiro e de intelectuais e pensadores ensimesmados, planando em nuvens fora da órbita do sentir popular, não conhecem a realidade no terreno, o desespero e a revolta dos que se sentem defraudados e aviltados com promessas não cumpridas, por politicas incompreensíveis e por medidas nem sempre justas e assertivas.
Foi, Mário Soares quem reconheceu o direito à indignação. E quem, no quadro actual, seja qual for o seu pendor partidário, sente, na sua vida e na dos familiares a cargo, as agruras das duas crises (a jovem Externa e a madura Interna), não pode deixar de indignar-se.
Conhecesse o candidato socialista, ou a estrutura do partido que representa, o clima que se vive no país real, por baixo das tais nuvens onde vão congeminando a governação, e limitar-se-ia a acção de campanha eleitoral junto das hostes da UGT, esta mais representativa da rosa de que quer ser pétala!Passe o facto de não serem inéditas agressões entre facções socialistas, se nos lembramos de Francisco Assis em Felgueiras e da campanha de Sousa Franco em Matosinhos....
A não ser que, o que não posso asseverar, procurasse mesmo uma encenada vitimização, um estratagema tão caro aos socialistas, desde que Mário Soares levou uma palmada dum vidreiro da Marinha Grande e daí terá colhido bons frutos na candidatura presidencial.
Certo é que o seu primeiro desabafo foi um verdadeiro autocolante ao incidente em que o fundador do partido se viu envolvido há largos anos...
Vir o porta-voz e outros ilustres socialistas responsabilizarem a CGTP e, com especial ferrete, o PCP, pelos incidentes é que não colhe e, no meu entender, não passa mesmo dum aproveitamento partidário e eleitoralista que só os papalvos -e, infelizmente parece haver muitos -, não entenderão.
Em suma, com a mesma intensidade com que condeno as eventuais e intoleráveis agressões ao candidato às europeias, reprovo o aproveitamento, a estafada vitimização, que, pelo que vamos vendo e ouvindo, vai tomando forma e avolumando........a caminho das Eleições!

Do YouTube, para descontrair:


sexta-feira, 1 de maio de 2009

Exploração infantil?

Nunca fui contra as actividades lúdicas que promovam o desenvolvimento mental e a veia artística das crianças. Já me suscita alguma dúvida a utilização dos mais pequenos em programas com cariz competitivo que lhes promovam expectativas de vida falaciosas e outras artes televisivas de índole formativa muito discutível.
Mas quem sou eu para as pôr em causa se não vejo qualquer dos muitos organismos vocacionados para a protecção de menores, oficiais e da sociedade civil, psicólogos e psiquiatras mediáticos, alertarem publicamente para os aspectos negativos do abundante e frequente aproveitamento da sua juvenil imagem!...
Do que não tenho dúvidas algumas é da insensatez, do abuso e mau exemplo que a força política do poder cometeu ao partidarizar o Magalhães, subsidiado por todos nós, fazendo propaganda gratuita com recurso a imagens dos alunos da Escola de Castelo de Vide.
Mais do que o notório desrespeito pelas crianças e pelos seus pais e encarregados de educação, estamos perante um manifesto aproveitamento de actividades que envolvem recursos do Estado, por parte dum partido político.
E nem o pedido de desculpas personalizado, muito provavelmente, também ele efectivado com recurso a meios estatais, serve de lixívia a tão sujo borrão.
Pior ainda, sabermos que estudantes menores, uns mais imberbes que outros, são sujeitos a interrogatório e investigação por parte de um qualquer inspector governamental, no próprio espaço escolar, ao que consta, para que a tutela educativa possa saber quem foram os "cabecilhas" da gemada ministerial. Sobretudo, quando sabemos que indivíduos criminalmente não imputáveis, em razão da idade, pululam por bairros e zonas escolares, agredindo, roubando, destruindo, sem que sejam sujeitos a medidas tão inquisitórias sem o conhecimento e aquiescência dos pais.
Por este caminho não vamos lá, não se cumprirá a Democracia, partindo da premissa de que de todos os três "D" apenas um foi alcançado, ainda que de forma atabalhoada e lesiva para todos os envolvidos.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Arte nas estações

Bem representativos da principal actividade das suas Gentes, os painéis de azulejos que decoram as paredes da estação de PINHÃO, no Alto Douro, são uma tela viva de todo o labor que precede, em meses, a chegada do denominado Vinho do Porto às pipas de Gaia.
É o grande Porto que armazena, bebe e exporta, mas é nas já distantes margens e arribas do Douro que aquele néctar secular é produzido.
Estive, por várias vezes, em Pinhão e penitencio-me por não ter feito uma visita àqueles quadros pintados com a mestria de quem sabe e conhece os segredos daquela região vinhateira.
Valeu-me uma objectiva amiga para que, para mim, aquela mostra de arte viva não ficasse perdida no Cais dos comboios.
Eis as imagens!

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

A morte dos majores

Com o livro 10 da colecção "Os Anos da Guerra Colonial", hoje posto à venda, de autoria de Matos Gomes e Aniceto Afonso, vem, como já é habitual, mais um pequeno fascículo. Este, intitulado "A morte dos majores", relata-nos as circunstâncias macabras em que perderam a vida três majores, um alferes e três guias, todos desarmados e que haviam combinado um encontro para diálogo com comandantes locais do PAIGC.
Vítimas de balas e de profundos cortes com armas brancas (catanas ou punhais), os corpos foram encontrados, no local da cilada, horrivelmente mutilados, num arrepiante espectáculo que só veio a ter horripilantes semelhanças com o recente assassínio de Nino Vieira, que era, ao tempo da morte dos majores, um dos mais prestigiados comandantes e membros da cúpula daquele movimento.
Curvo-me, quase 40 anos depois, à memória daqueles "soldados" a quem nem tão pouco foi dada a oportunidade de morrerem de armas na mão, pois o seu combate era o da busca da Paz!
Crimes de guerra que são, afinal, manchas colectivas nas consciências das partes em confronto e, sobretudo, nas daqueles que, isoladamente, praticavam actos que iam para além dos seus deveres de combatentes, à revelia dos códigos e da sua condição humana!
Que repousem em Paz, estas e as muitas vítimas daquela guerra e que os lembremos nós, ex-combatentes, já que a Pátria, ao que parece, há muito os esqueceu!

terça-feira, 28 de abril de 2009

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Venha a entrevista...






... e que sejam mitigadas as saudades!

Ilustrada com uma fotomontagem, o CM de hoje dá-nos a notícia que Sócrates estaria disposto a ser entrevistado por Manuel Luís Goucha, de quem se recorda muito, com muita saudade...
Sendo Goucha um popular animador na grelha de entretenimento da TVI, com especial notoriedade, nas últimas semanas, no programa de cantorias infantis daquela estação televisiva, não vislumbro melhor interlocutor para a entrevista ao nosso jovial Primeiro Ministro!

Que nem uma luva...

domingo, 26 de abril de 2009

A questão da semana


"Todo a Gente pensa e fala em deixar um planeta melhor para nossos filhos... Quando é que 'pensarão' em deixar filhos melhores para o nosso planeta?!?!"

sábado, 25 de abril de 2009

O "VELHO"

Numa intervenção televisiva, que não a do vídeo que acompanha este post, alguém comentava num Bar, ao ouvir Medina Carreira: "Este velho parece saber o que diz!".
Na verdade, com ou sem acerto, este homem, que já foi Ministro das Finanças, vem, no mínimo, demonstrando uma inusitada coerência na sua perspectiva político-económica deste País.
Hoje, dia de cravos e festa, em que, se por mais não fosse, rejubilamos com a Liberdade adquirida, mas que é também momento de preocupações e incerteza no futuro,
fico a interrogar-me se não estaremos em breve, chorando baba e ranho, à boa maneira portuguesa, lamuriando e reconhecendo que o "VELHO" TINHA TODA A RAZÃO!
Espero bem que não, mas......

Mais um episódio da Guerra Colonial/Ultramar

O 6º da 2ª Série, que a RTP vem transmitindo.

Boa fatia deste episódio foi dedicado aos FLECHAS, uma tropa irregular, que foi comandada por Óscar Cardoso, em Angola.

Na década de noventa, por imperativos profissionais, tive ocasião de estar com Óscar Cardoso, no seu recanto do Alentejo. Depois de longas conversas, não tive dúvidas que estava perante uma pessoa que, para lá duma educação esmerada e cultura muito acima da média, denotava uma serenidade e maneira de estar na vida muita ponderada e sem complexos do seu passado.
Tivessem sido quais fossem as suas actividades profissionais, decorrentes da carreira que abraçou,e que lhe vieram a custar anos de prisão já na era dos cravos, não lhe percebi qualquer réstia de mágoa ou ressentimento, antes me surpreendeu a sua visão da vida e da sociedade bem mais próxima da verdadeira democracia do que muitos que apregoam e dizem sua, sem que a pratiquem.

E foi ele próprio quem melhor explicitou a estrutura e a missão dos "Flechas" no contexto da Guerra em que estivemos envolvidos nos ex-territórios portugueses de África, no texto autobiográfico, que transcrevo:

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Depoimento de Óscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso

Nasci em 10 de Junho de 1935, em Lisboa.

Pertenci à Mocidade Portuguesa, ingressei nesta organização de juventude quando era aluno do Colégio Moderno. Ingressei na Legião Portuguesa quando frequentava o Instituto de Estudos Ultramarinos. Tive que interromper os estudos para prestar serviço militar na Índia Portuguesa, em 1959/60.
Pertenci depois à GNR, até 1965, altura em que ingressei na PIDE.
Em 1966, fui para Angola. Em Serpa Pinto, criei os Flechas inspirado nas obras de Jean Larteguy; Spencer Chapman, “The jungle is neutral”; Lawrence da Arábia, “The seven pilars of wisdom”; Mao Tse Tung, “A guerra revolucionária”; Sun Tze, “ A arte da guerra”.
Em 1968, foi-me atribuído o Prémio Governador-Geral de Angola.
Estive em Moçambique em 1971 e 1972. Em 1973, em Carmona.
Quando regressei a Lisboa, em fins de 1973, com o posto de inspector-adjunto, fui colocado na Direcção dos Serviços de Informação, coordenando a informação em Angola e Moçambique.

Aquando do 25 de Abril, fui preso e permaneci detido em Caxias, Peniche e Alcoentre durante dois anos.

Após ter sido libertado, fui para a Rodésia onde trabalhei na formação dos Sealous Scouts, uma versão rodesiana dos Flechas e no CIO (Central Inteligence Organisation).
Em 1977, fui para a África do Sul, onde servi nas forças armadas, força aérea, saindo com o posto de coronel.
Também trabalhei nos Serviços de Inteligência Militar do Exército sul-africano.

Desempenhei funções como chefe de segurança VIP.

Em 1991, regressei a Portugal.
Em 1992, foi-me atribuída uma pensão vitalícia por serviços relevantes prestados à Pátria. Essa pensão foi-me suspensa recentemente.

1.
Em Angola, comecei por chefiar os Serviços Reservados, em Luanda. Era um trabalho no âmbito da segurança interna. Eram coisas do género: se um indivíduo pretendia tirar uma licença de uso e porte de arma, procurava saber-se se tinha antecedentes criminais.
Depois, passei para a secção de contra-espionagem, um serviço que designávamos por GAB. Aí tinha contacto com informadores estrangeiros e com informação realmente secreta. Permaneci no GAB alguns meses.
De seguida, andei por diferentes subdelegações de Angola, sobretudo onde havia problemas. Acabei por ficar com um conhecimento global da Província, desde Cabinda às «terras do fim do mundo», o Cuando-Cubango. Viria a ficar sete anos seguidos no Cuando-Cubango, um sítio admirável, de onde tenho recordações maravilhosas. Chefiei a subdelegação de Serpa Pinto.

2.
Um dia, em Luanda, conheci o administrador Manuel Pontes. Estava quase na reforma. Falamos prolongadamente. Falamos sobretudo de uma região que ele conhecia muito bem: as «terras do fim do mundo», cognome dado ao Sudeste de Angola por Henrique Galvão, no livro «Outras Terras Outras Gentes».
Disse-me uma enorme quantidade de coisas sobre uma minoria étnica, a que nós chamávamos os bosquímanos, que habitava no Cuando-Cubando. Como eu havia frequentado o Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, tinha tido algum conhecimento dessa etnia.
Decidi que iria para esses lugares inóspitos e fascinantes.
O director da PIDE em Angola, Aníbal São José Lopes, concordou e disse-me: «Sim, senhor. Você pega no administrador, damos-lhe uma compensação monetária, e você vai para as terras do fim do mundo fazer uma prospecção sobre o que esses bushmen poderão dar, qual será o rendimento que eles poderão ter em operações de guerrilha.»

3.
E lá fui, com a minha mulher e o administrador Manuel Pontes. Atribuiram-me um velho Land-Rover.
Os bushmen eram indivíduos com uma forma de vida ainda primitiva, faziam ainda o fogo por fricção. Eram muito magros e pequenos, excelentes caçadores.
Na região do Cuando-Cubango, este povo era trocado e vendido como se de gado se tratasse. Muitos eram nómadas e outros escravos dos sobas bantos.
Os bushmen tinham um grande respeito pelo administrador Manuel Pontes e tratavam no por Tata K'Hum, que significa «o pai dos K'Hum», que eram eles. K’Hum é o nome com que os bosquímanos se designam a si próprios. Quando o viam, aproximavam-se. Com a ajuda de intérpretes conseguíamos falar com eles. Eram indivíduos esqueléticos e subalimentados.
Pontes dizia-me: «Se os treinarem, se os alimentarem bem, estes indivíduos podem ser de grande utilidade.» Pela minha parte, e por aquilo
que lera, estava plenamente de acordo. Começámos a dar-lhes treino de tiro, em 1967. Mais tarde, tiveram instrução de Karaté, dada por um mulato nosso amigo que era “cinto preto”. Primeiro, eram apenas oito. Depois eram muitos – a minha infantaria ligeira, ligeiríssima.
No Cuando-Cubango, um território duas vezes e meia maior que Portugal, a PIDE tinha diversos postos chefiados por agentes de 1ª classe, agentes de 2ª classe, chefes de brigada.
Também nos apoiavam nas coutadas de caça. Usávamos os bushmen como pisteiros, no que eram excelentes. Decifravam todos os sinais com uma eficácia extraordinária. Nós aproveitámos essa capacidade singular deles.
Começámos a utilizá-los para obter informação. Conseguiam permanecer no terreno por períodos de tempo incríveis e levando muito poucos meios de sobrevivência com eles. Habituados desde crianças a esgravatar, a viver do nada, tinham uma capacidade nata para se alimentarem, para descobrirem água. Ora, num espaço inóspito como aquele, muito pouco habitado, o menos de Angola, estas capacidades eram de uma utilidade extrema.
No princípio, iam apenas armados de arco e flecha, flechas envenenadas, em que eles eram exímios. Também a sua compleição física não era muito adequada a outro tipo de armas mais modernas. O objectivo era apenas recolher informação mas se a coisa desse para o torto... Quasi nunca traziam ninguém vivo, apenas documentos e armas, por vezes.
Os resultados começaram a ser bastante interessantes. Passámos a poder disponibilizar aos militares uma quantidade e qualidade de informações que lhes permitia operar com maior facilidade e eficácia. Aliás, devo dizer que, na Última Guerra de África, a PIDE funcionou como anjo da guarda das Forças Armadas.
A população era uma espécie de bola de pingue-pongue no meio da guerra. A população que dava apoio aos terroristas era forçada. E maior parte do apoio logístico dos terroristas vinha da Zâmbia.
Os acampamentos terroristas ou ficavam no início do rio ou na confluência de dois rios. E isto era assim porque eles não podiam passar sem água, e também por uma questão de facilidade de referenciação entre eles.
Os bushmen iam lá e, por vezes, eram recebidos a tiro. Então e com apoio das Forças Armadas, começámos a treinar esses bushmen no Cuando-Cubango, no campo de trabalho do Missombo, que tinha sido um campo de recuperação de terroristas, e que nada tinha a ver com a PIDE. O treino consistia fundamentalmente no uso de armas modernas. Conhecimento e táctica do terreno não era preciso – já eram exímios nisso.
Assim se deu início e essa força paramilitar conhecida por Flechas.

Começámos a ter problemas de excesso de voluntários porque muitos queriam pertencer. Como eram escravizados pelos sobas, o tornarem-se soldados fascinava-os. E muitas vezes faziam coisas que não deviam: iam às sanzalas e roubavam galinhas. Evidentemente que quando sabíamos, os castigávamos.
Acabámos por fazer o acampamento do Missombo que tinha na entrada uma frase de Mouzinho de Albuquerque: «Essas poucas páginas brilhantes e consoladoras que há na História de Portugal contemporâneo, escrevemo-las nós, os soldados, lá pelos serões de África com as pontas das baionetas e das lanças...» Também tínhamos também uma frase de um escritor militar chinês, onde se inspirou Mao Tsé-Tung, o Sun Tsu: «(..) Sejam mais rápidos do que o vento e tão misteriosos quanto a mata. Sejam destruidores como o fogo e silenciosos como as montanhas. Sejam impenetráveis como a noite e furiosos como o trovão (...)»
Os Flechas iniciaram-se com bushmen, mas depois começámos a tê-los já de outras etnias. Passou, depois, a pouco e pouco, a haver Flechas em toda a Angola. Quase todas as subdelegações da PIDE em zonas onde havia terrorismo passaram a formar os seus próprios Flechas. Os resultados foram sempre bons.
Fiz diversas operações com os Flechas. Algumas eram feitas com europeus, mas havia outrasem que só iam Flechas, bushmen, porque eram operações de longa duração em que se faziam reconhecimentos, nomadizações que os europeus e os pretos não aguentavam.

Quero também dizer desde já que as nossas Forças Armadas venceram a guerra de guerrilha em Angola. Em 1974 a guerra em Angola estava ganha.
O MPLA sabia-se sem qualquer hipótese de vencer, a UNITA era «nossa».
Também a guerra estava a caminho de se vencer na Guiné. Tenho provas disso.

4.
Quero destacar uma operação que foi feita com um indivíduo que mais tarde foi muito conhecido no Cuando-Cubango, o soba Matias – viria a morrer esfolado vivo após a independência por se recusar a arrear a bandeira portuguesa.
Apareceu-me na subdelegação de Serpa Pinto e que me disse: «Olhe, ispector, eu sei onde há, ali a norte do rio Cuvelai, uns acampamentos da UNITA. Os meninos estão fazer muita chatice, muita confusão. O senhor inspector dá-me uma espingarda que eu vai lá com o meu família...» E lá foi com a malta dele. Trouxe uma data de terroristas. Prendêmo-los e interrogámo-los. Muitos eram terroristas porque não poderiam ter sido outra coisa.
Não tinha problemas em pôr guerrilheiros capturados a colaborar connosco. Levavam uns tabefes, um «calorzinho». A PIDE não era propriamente uma organização de beneficência.
Como o resultado foi bom, propus ao Matias para ir ver se encontrava mais. Ele disse sim. Dei-lhe oito espingardas. O resultado foi tal que aquele homem limpou o terrorismo, a infiltração da UNITA. A norte do Cuando-Cubango, deixou de haver terrorismo da UNITA.
O Matias chefiou uma aldeia com mais de cinco mil pessoas. Todos os dias içava, com honras militares, a bandeira nacional e também o seu pendão, a Cruz de Avis.

5.
Estive em Moçambique em 1971 e 1972. O director
Silva Pais convocou-me e fui levado à presença do Ministro do Ultramar, Silva Cunha. Disseram-me para organizar os Flechas em Moçambique.
Talvez tivesse havido precipitação da nossa parte porque em Moçambique já existiam os Grupos Especiais (GE) e os Grupos Especiais Pára-Quedistas (GEP), que eram muito bons.
Verifiquei, nessa Província não ser premente a necessidade de organizar Flechas.
A minha actividade em Moçambique resumiu-se a detectar a penetração de terroristas da Frelimo feita a partir do Malawi, sobre a linha Beira-Tete, onde iam destruir a linha de caminho-de-ferro. Organizei a informação em Caldas Xavier, com incidência no Malawi, e um sistema de informação no Malawi. Sabíamos quase sempre quando eles punham as bombas no caminho-de-ferro.
Em Lourenço Marques e em Luanda, a PIDE tinha uma colaboração estreita com o Bureau of State Security (BOSS), sul-africano, hoje o National Intelligence Service (NIS). Também tínhamos uma boa colaboração com a South Afican Police (SAP). Interessava, porque a policia sul-africana estava dispersa em vários postos ao longo da fronteira para evitar a penetração da SWAPO, movimento que lutava pela independência da actual Namíbia.
Havia também colaboração com serviços equivalentes da Rodésia.
As Forças Armadas sul-africanas forneciam-nos, por vezes, helicópteros e meios aéreos.E estavam interessadas na UNITA, dado que a UNITA e a SWAPO trabalhavam em conjunto. Nós funcionávamos como uma espécie de tampão à SWAPO, que tinha de atravessar o Cuando-Cubango vinda das suas bases na Zâmbia. Por diversas vezes tivemos contactos com os terroristas namibianos. Numa dessas vezes fui ferido com um estilhaço na mão. Foi uma operação que fizemos em colaboração com os sul-africanos.

6.
No Cuando-Cubango, havia postos da PIDE em Serpa Pinto (sede), em Caiundo, Cuangar, Calai, Dirico, Mucusso, Rivungo, Cuito Cuanavale e Mavinga. Tínhamos a colaboração dos caçadores das três coutadas: Kirongozi, Luengue e Mucusso. Obviamente que estávamos em colaboração total com a tropa que tinha em Serpa Pinto um batalhão, uma companhia comandada pelo Vítor Alves, na N’riquinha, perto da fronteira com a Zâmbia, um pelotão reforçado na Luiana e meia dúzia de elementos em Mavinga.
Os comerciantes, os elementos da PSP, também faziam operações conjuntas com os Flechas. E, quando havia operações militares, os Flechas iam, ou um agente da PIDE com um flecha, que às vezes servia de intérprete.

7.
Estive ainda a chefiar a subdelegação de Carmona, após o que vim para Lisboa integrar a Secção Central dirigida por Álvaro Pereira de Carvalho.

8.
O 25 de Abril foi um golpe com a conivência de Marcelo Caetano.

9.
Penso que Portugal vai desaparecer.




Copyright © 1999 Óscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso