domingo, 16 de dezembro de 2007

Com a União Europeia

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É minha intenção reflectir por aqui a propósito da nossa integração na União Europeia. Irei fazê-lo em breve. Entretanto, porque a consolidação do processo europeu tem sido um processo evolutivo, mas lento, como convém a uma boa sedimentação com futuro, lembrei-me de alguns "escritos" que, ao longo dos anos, fui produzindo a propósito deste nosso inexorável destino. E que reproduzo, nas partes que interessam:

16/10/1989 - Viagem pelas sombras

"O consumidor nacional prefere a fruta estrangeira, ainda que mais cara, pelo seu melhor aspecto: é normalizada".

É uma das barbudas declarações do porta-voz dos fruticultores do Oeste (entenda-se Óbidos e região circundante).

Fastidioso seria descrever aqui todos os incidentes provocados pelo homem da fruta daquela produtiva zona por terem sido, fartamente, propalados pelos média do nosso Pomar.

Também não nos cabe entrar na liça por dá cá aquela maçã. Até porque, humildemente o confessamos, somos leigos na matéria. Só que há factos pontuais despoletadores da nossa curiosa atenção. Ninguém põe em causa o desagrado dos produtores, mormente o manifesto insuficiente apoio, a nível das estruturas estatais. Mas ocorre-nos interrogar: não tem o português o vitamínico direito de ferrar o dente numa maçã brilhante e suculenta, só porque ela é da estranja e custa mais uns patacos? Será obrigado, por ferrenho caseirismo ou ultrapassado chauvinismo, engolir uns ranhosentos peros colhidos, embalados e lançados no mercado sem qualquer selecção ou preocupação com a qualidade?

Nós, que não somos agricultores, passe a admiração que nutrimos por quem o é, já há muito vimos ouvindo e vendo os apelativos conselhos que lhes vêm sendo ministrados no sentido duma preocupação crescente com a qualidade dos nossos produtos, nomeadamente com a denominada normalização da fruta.

Logo: algo está a falhar! E onde falha? Poderá ser, em muitos aspectos, em muitos canais, nos do governo e nos dos empresários agrícolas, mas também será na procura do lucro fácil, rápido e volumoso, no maximizar da quantidade em prejuízo da qualidade, tão peculiar, aliás, nas nossas gentes.

E tudo isto quando ainda estamos na ombreira da porta do Mercado Livre, de plena concorrência, sem proteccionismos! É perigosamente sintomático o que está a acontecer. Muito nos machucaria, daqui a uns poucos três, quatro anos, vermos os portugueses comerem maçãs francesas e os porquinhos "Large & White", e toda a sua javarda família, engordarem à custa de toneladas de fruta lusitana!...

Se já agora, por tão pequena beliscadura no porta-moedas, se bloqueiam vias férreas, se barram estradas e se ameaça com marchas (à marselhesa) para derrubar governos, quando o confronto concorrencial for bem a sério (e sê-lo-á em breve), se não atentarmos nas medidas que urge tomar e até vêm sendo publicitadas, teremos qualquer coisa parecida com um ataque nuclear de ameixas a Bruxelas e a Estrasburgo.

Deixemos o Oeste e, porque a época é convidativa, vamos até ao Algarve, também na agenda pelas queixas dos hoteleiros da ausência de ingleses. Para os empresários de Restauração dos Algarves, é pressuposto que os bretões deviam ser sempre como as andorinhas: voltarem sempre, na Primavera, aos mesmos beirais e chaminés algarvias.

Também aqui, reconheçamo-lo sem tibiezas, de há muito que vem pesando a procura do lucro fácil, farto e imediato, a curto prazo, onde a quantidade, descoordenada, está a suplantar a qualidade.

E veja-se, só agora, num frenesim inusitado, os empresários hoteleiros do Algarve acenarem ao turismo interno: venham patrícios! Venham do Norte, venham do Centro, mas venham! E, talvez num sigiloso clamor: já que não há libras, qualquer escudo serve...

E porque os sirocos marroquinos são muito agrestes e estamos com pressa de passar pela Madeira, onde há sempre um jardim à nossa espera, iremos terminar esta viagem aos Algarves, com um episódio passado com o Alfredo rodando em Albufeira num mês de Inverno - época baixa -, já lá vão uns bons anos. Nos tempos de "outro" Algarve...

Já havia corrido a vila de lés-a-lés na procura dum restaurante que oferecesse preços compatíveis com a sua magra bolsa. -lo em vão e optou por procurar fora dela, numa estrada de acesso. Parou junto a uma denominada "Churrasqueira", de aspecto simplório, talvez à medida de si próprio e dos seus cabedais.

Era um salão amplo, bem decorado e limpinho, é justo reconhece-lo. Parou em frente do menu gigante, colado numa das colunas interiores. Só serviam grelhados; acompanhamento: saladas.

Estava-se a ver em palpos de aranhiço para escamar aquela Lista escrita em Inglês, quando o empregado, adivinhando-lhe a lusa origem, se aproximou e atirou, secamente: Tem ali uma Lista em Português! - e apontou, displicente, para uma outra coluna da sala.

E lá estava: os mesmos peixes, as mesmas saladas e, também: um sargo grelhado - 2.500$00.!

Foi então que rodopiou nos calcanhares e virando-se para o empregado, que o seguira expectante e lamentou, na Língua de Camões: - Ora Malvinas! A Lista está em Português, mas os preços continuam em Inglês!....e saiu, com apressado desalento, pela porta fora, com mais ligeireza de que entrara. Iria continuar na procura do impossível...

Finalmente, já chegámos à Madeira! Aqui corre uma brisa mais macia, refrescada pelas águas onduladas, dum azul muito vivo.

E, fatalismo ibérico, voltámos à fruta. Desta feita, são as bananas. Dizem-nos por aqui que há crise de fartura. Paradoxo dos nossos tempos: a banana é de mais e fala-se em crise!

- E não é só cá, não senhor! Então não é que um diário da capital o reza assim!

E rezava mesmo: "A banana da Madeira está a atravessar uma das usas maiores crises de sempre. Pode mesmo dizer-se que a pequena ilha se afoga numa excessiva produção que não consegue escoar".

Atente-se no dramatismo desta notícia e, sem entrarmos mais uma vez a jogar em terreno que não é o nosso, pergunte-se por este Portugal, de Norte a Sul, se a fartura é tanta assim. Mas pergunte-se, sobretudo, se os preços desta fruta nobre já baixaram a barreira dos 200$00/Kg!

- Ah....isso é que eles não querem. Antes deitá-la ao mar! - o que, se bem me lembro, já não seria inédito.

Já que andamos pelas Ilhas, vamos acabar esta viagem nas exóticas paragens açorianas.

Na Sexta-Feira, 11 de Agosto (de 1989), a RTP lançou para o ar mais uma jornada dos bem imaginados e divertidos Jogos sem Fronteiras. Não podemos, em abono da verdade, descrer do mérito que toda aquela nossa Juventude vem demonstrando, especialmente quando é preciso pôr o físico em evidência. Até ganhámos alguns jogos, como veio a acontecer em Tomar.

Só que perdemos um jogo que tínhamos obrigação de ganhar, porque falhámos onde não devíamos ter falhado e, pior, ficámos em último lugar. E não foi por culpa dos marinheiros, que estes mais pareciam símios adestrados, saltitando de mastro em mastro, lá pelos Céus do Convento de Cristo! Foi, como vimos e, pasme-se, como aquela rapariguinha, com os ores nas mãos, abanando o ignorante rabinho e agitando os braços trapalhões, frente àquele mapa gigante, do tamanho do Estádio do Sacavenense, não soube localizar o Arquipélago!

Quanto a nós, espantados, defronte do "ecran" pequenino, trememos de triste aflição e vergonha quando a concorrente colocou o cartão das ilhas açorianas na África do Sul!.... E escondemos a cara, não fosse estar por ali um açoriano a espreitar pelo buraco da fechadura....

Navegámos, depois, de regresso ao Continente, onde aportámos no Cais de Xabregas. Lá andava, por entre as gaivotas, o pensativo Diamantino, o homem que grita há uns bons quatro anos estar vivinho da Silva, enquanto os organismos oficiais afiançam a sua morte.

E vivinhos continuamos nós, mesmo depois desta atribulada viagem, com força bastante, mas com não menos receio, pelo que fomos vendo nesta viagem, da grande Volta europeia, neste Mercado Comum. O tema já está estafado, mas teremos nós o "engenho e arte" para sabermos tirar proveito dessa senhora Europa que nos espera?

Deixámos o Cais a pensar, agora, se o sonho germano de outrora não estará, em grande parte, a ser concretizado, ou melhor: não estarão, Hoje, os alemães a conseguir, com armas económicas, aquilo que sob a bandeira do "nacional-socialismo", o seu odioso cabo de guerra não obteve nos anos quarenta, com recurso a tanques e canhões e a toda a sua conhecida crueldade?

Mas a Europa está mesmo aí, passo a passo, a caminho da união plena! Destino de que, pensamos nós, não nos poderemos alhear, para não perdermos, mais uma vez o comboio, ultrapassadas que foram algumas alucinações terceiro mundistas...