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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Moçãmedes

Moçãmedes (Vouzela/Viseu)

Moçamedes (Namibe)

A minha saudosa mãe, que era natural de Angola e donde regressou ainda criança, com a minha avó e irmãos, após o meu avô que era oficial do exército, ali falecer em combate numa denominada "Guerra da da Areia"(?), já me havia aflorado que não era mera coincidência o facto da aldeia de origem dos meus ancestrais (pelo ramo paterno) e uma jovem cidade angolana terem o mesmo topónimo. Já em 1977, o meu pai, que acabara de regressar de Moçambique e abrira um Café/Bar na aldeia, fez-me saber que fora contactado por um grupo de oriundos de Moçãmedes (Angola), que haviam manifestado a intenção de ali se juntarem num convívio/almoço.
Só então. movido pela curiosidade, decidi saber, em pormenor, das relações toponímicas de duas terras tão distantes.
E, ainda em finais dos anos setenta, escrevi o texto que vou reproduzir, apenas nas partes relevantes:


MOÇÃMEDES

Se por mais não fosse, ainda que passível de contestação, bastaria para justificar este "recordar origens", a introdução de Pinho Leal na sua obra "Portugal Antigo e Moderno", ao referir-se às vilas e aldeias deste país, em 1873: "Se estas são notáveis, por serem pátrias de homens célebres, por batalhas e outros factos importantes que neles tiveram lugar, por serem solares de famílias nobres ou por monumentos de qualquer natureza ali existentes".
Não está bem esclarecida a origem do topónimo Moçãmedes, mas estudiosos a quem o assunto mereceu atenção, convergem na sua raiz árabe. Há quem opine que Muçãmedes, como foi inicialmente designada aquela povoação, poderá derivar de "Muça-Medina" (cidade de Muça), facilmente convertível em Muçãmedes. Muçamudes eram, também, os habitantes de Muçaun. Outros defendem que Moçãmedes é o plural de "Masmuda", nome arabizado duma das muitas tribos que por lá passaram e habitaram.
Não raro, quando digo da minha naturalidade, vejo a dúvida estampada nos olhos dos meus interlocutores. Voa-lhes, numa inculpada ignorância, o pensamento para Angola, onde se situa, na costa sul, uma bela cidade do mesmo nome. Também neste caso a "filha cresceu mais do que a mãe"!
Foi um dos nobres senhores de Moçãmedes (14º), o 1º Barão de Moçãmedes, José de Almeida e Vasconcelos, ao tempo Governador de Angola, quem, em 1785, inspirou o padrinho da cidade africana. Padrinho que foi o Tenente-Coronel Pinheiro Furtado, quando, numa das suas explorações pela costa de Angola, fundeou na "Angra dos Negros" em 3 de Agosto daquele ano e que, em homenagem (bajulação?) ao Governador, baptizou o porto de mar onde se abrigara e que veria desabrochar, em 1840, a jovem cidade de Moçãmedes.
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Recuando à doação, o documento que legitimou a concessão de Moçãmedes a D. Fernão Pires, escrito pelo punho do próprio e, ainda, Infante D. Afonso Henriques, encontrava-se, há alguns anos, nos arquivos da Sé de Lamego.
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.... Depois de Gonçalo Pires de Almeida, de quem descenderam os Condes da Lapa, ramo dos "Almeida", família de nobres tradições na região de Viseu, a povoação (villa, como era conhecida naqueles tempos), manteve-se, desde 30 de Janeiro de 1410, na posse dos descendentes dos Almeida, até ao século XX........................................................................................................................
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in WIKIPEDIA:
Barão de Mossâmedes (ou barão de Moçâmedes) foi um título criado por carta de 13 de Agosto de 1779, da rainha D. Maria I, a favor de José de Almeida e Vasconcelos, um militar e governador-geral de Angola. O título deriva do Reguendo de Mossâmedes (na Beira), propriedade concedida aos seus antepassados em 1388. A cidade de Moçâmedes, actual Namibe, foi assim baptizada em homenagem ao 1.º barão, então governador-geral de Angola.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Inquietações


Quem estiver minimamente atento ao ciclo que vivemos, não saberá como contornar as inquietações que nos vão assolando, em catadupa.
Inquieto-me, por exemplo, por saber que num momento de reconhecidas dificuldades económicas e em que nos são exigidos sacrifícios extremos, o Ministério da Justiça, haja entendido por bem não enjeitar exageradas mordomias e reforçar a sua frota automóvel com autênticas "bombas", de custos só acessíveis, neste emagrecido Portugal, a umas dezenas de bafejados pela sorte ou a padrinhos das máfias, já globalizadas.
E mais me inquietou a justificação do ministro da tutela ao "desculpar-se" com o facto de ter o aval do seu confrade das Finanças. Ficámos, assim, a saber que seria este o único obstáculo à aquisição das "bombas"; não a nossa calamitosa situação económica e social! Mais ainda, que, uma vez a concordância deste ministério que não nos perdoa nos impostos, o nosso ministro desertor, até se podia equipar, para seu conforto e dos seus correlegionários, com uma frota de aviões!
E é a problemática em torno do futuro pouso dos aviões outra das minhas inquietações: são, a terem crédito, as noticias de que, a todo o custo, seja qual for o rombo no nosso orçamento, o Governo faz finca pé na opção Ota, para o que já iniciou o processo de descredibilização dos estudos que apontam para Alcochete.
Não que a localização, enquanto tal, me incomode. Ota ou Alcochete, é-me indiferente.
Mas, sendo fiável, como parece ser, a conclusão de que esta última escolha nos pouparia muitos milhões e colheria vantagens de funcionalidade, inquietam-me as razões que estarão a pesar no prato Ota da balança.
Sabendo nós que esta opção havia sido, há vários anos, tomada pelo executivo(que não o actual), ainda que pouco haja extravasado dos corredores da Gomes Teixeira, seria alívio para esta inquietação saber, a bem da transparência e da confiança, quem são os proprietários que, após esse sinal daquele Governo, se apressaram a adquirir terrenos no proposto local da construção (Ota) e zona envolvente! Era um acto de Justiça.
Justiça que, esta sim, me inquieta bem mais, chega mesmo a assustar, pela propalada tentativa de tutela dos juízes e, por consequência, dos Tribunais, por parte do Executivo. Inquieto-me, e assusto-me, porque, após mais este passo, que mais ninguém se ufane de viver em democracia.
Já basta, e até será demasiado poder, a tutela absoluta governamental das policias de investigação criminal!
Sujeitar os juízes (e os Tribunais) a uma dependência governamental, tratando-os como meros funcionários públicos subalternos do Governo, seria decretar a agonia do estado de Direito, asfixiar a Democracia, aquela menina que tantos bajulam, mas que não se preocupam em salvar quando ela já vai esbracejando na tentativa de evitar o afogamento!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Fora de órbita!

Acabei o último apontamento às voltas com Saramago e a "sua" União Ibérica!
Escrevi sobre os símbolos pátrios que, por o serem, merecem atenção e respeito. Sem dispensáveis fanatismos, mas com honra e, sobretudo, sem vergonha ou inculcados temores!
Respeitá-los é respeitarmo-nos enquanto concidadãos.
Reconheci sempre, sem rebuços, o valor dos intelectuais deste País, na seu exercício de vida de sublimação da mente, na inquietação da luta pelo pensar mais além.
O que não impede que questione, muitas vezes, e não concorde outras tantas, com alguns dos seus assomos, tantas vezes, estapafúrdios! Comparo-os, então, com as naves espaciais quando vão além da órbita da Terra: nunca sabemos o que vão encontrar.....o que dali vai sair!
Foi, mais recentemente, o Saramago, já havia sido Alçada Baptista, em 1997.
E o que, no ensejo, escrevi, já lá vão dez anos, tem plena actualidade. Há valores que são imutáveis e não se esboroam com o inexorável passar dos anos:

Ainda se não desvaneceram os ecos do inesperado brado do intelectual Alçada Baptista.
O pouco que ficou foi a estupefacção de muito boa gente, ao ouvir dum homem de reconhecida cultura, uma das estrelas cintilantes do nosso espectro intelectual, numa cerimónia em que era suposto serem exaltados os símbolos e valores da Nação, proposta tão desajustada!
É verdade que as opiniões pessoais só vinculam quem as defenda e salutar é que se respeite esse direito. Mas, perante uma afirmação daquele jaez, proferida em cerimónia oficial, quem pode ficar imune à crítica?
Vou recuar no tempo e passar, directamente, à "questão do Hino", procurar beber um pouco da sua história.
A marcha guerreira que, só após a tomada do Poder pelos republicanos, em 1910, veio a ser adoptada como Hino Nacional, foi composta por Alfredo Keil e Lopes de Mendonça, após o Ultimato Inglês de 1890.
Sabemos do aproveitamento político que os adversários da Monarquia fizeram deste evento: a marcha soava bem, ficava no ouvido, inspirava coragem revolucionária.
Natural foi que o público das revistas (teatro) - então muito em voga - saísse para a rua a cantá-la, após ouvirem os seus acordes no Teatro da Alegria.
Foi tal a colagem desta marcha aos ideais republicanos de então que veio a ser proibida pelo poder monárquico, em 1891.
Vir, agora, um nobel herdeiro dos pais da 1ª República, anti-monárquicos convictos, censurar a marcha que os seus ideólogos predecessores adoptaram como Hino Nacional logo após o triunfo republicano é, no mínimo, desconcertante.
Não creio que um monárquico, por mais fiel que seja à Causa, tivesse a torpe ousadia de o secundar!
Cabe aqui um parênteses: visto, com pragmatismo, mesmo a esta distância histórica, o Ultimato Inglês até nem foi tão nefasto para os nossos interesses coloniais de então, se atendermos ao contexto internacional, com muitos países ciosos das nossas possessões africanas.É que o tratado luso-britânico de 11/6/1891 confirmou a nossa soberania sobre extensos territórios que, reconheçamos, por falta de homens, meios e, talvez, vontade, não dominávamos antes. E esse ultimato acabou por ser a mola que fez despoletar o empenhamento pelo efectivo domínio desses territórios.
E volta a ser curioso como um facto histórico - o ultimato - que acirrou o ódio das massa contra a Monarquia, a quem acusaram de traição à Pátria, e foi o principal estandarte republicano de agitação popular, num pretenso assomo de portuguesismo colonialista, viesse a ser o embrião do Hino Nacional, hoje símbolo de respeito e união, quando sabemos terem sido os lídimos defensores dos homens da Maçonaria e da Carbonária de então, a apressarem-se, já nos nossos tempos, a defenderem com denodo e a provocarem, com pressa e grosseira precipitação, sem honra, sem glória e sem futuro para os Povos colonizados, a entrega desses territórios, os tais que se integravam no tão badalado Mapa-Cor-de-Rosa!

Mais valeria que os primeiros o tivessem feito então e antecipassem, em quase um século, o abraço à Europa que nos estava a ficar tão longe. Além do mais, teriam poupado muito sangue, traumas, suor e lágrimas, a milhares de heróis do mar!...
Com este pressuposto, sim, Lopes de Mendonça teria escrito outra letra para a marcha que Alfredo Keil compôs para fim de acto da revista política "Torpeza", em cena no Teatro da Alegria, já lá vão mais de cem anos.
Mas, é evidente, sem qualquer ironia, nenhuma destas constatações dá legitimidade, de qualquer natureza, a quem quer que seja, para alterar um facto histórico.
Não aceito, ninguém de boa fé o fará, que, ao sabor dos tempos e das marés, se vão substituindo (ou decapitando) estátuas, nomes de ruas, de monumentos, de obras de arte. Os factos históricos, positivos ou negativos, consoante a perspectiva de cada um ou de cada grupo, aconteceram na realidade, são marcas indeléveis no imaginário colectivo de cada nação e deles há ilações a tirar.
E é com factos históricos - positivos ou negativos -, que os membros duma Sociedade melhor se esclarecem para as grandes opções do futuro, enquanto interventores nos processos evolutivos.
Alterar ou suprimir o Hino Nacional só porque ele faz apelo "às armas" em tempo de paz, como pretendia Alçada Baptista, mais do que um acto gratuito, seria uma afronta à História.
Mas, ainda que se aceitassem os argumentos, supostamente, pacifistas do proponente, quem recusará reconhecer que necessitamos de armas, muitas armas, que não as da guerra, mas as económicas, de trabalho, de saber, com perseverança marcharmos contra os "canhões" que são os escolhos, os obstáculos, as lutas económicas, que se nos vão deparando na Europa do nosso destino?! Não é demagogia, é um desafio bem real e actual.
É que Alçada Baptista, de quem não descremos do elevado grau de cultura e iluminismo, não se compadecendo com imagens literárias ou não não reconhecendo que somos um povo de poetas, estava a condenar Camões no próprio dia em que lhe foi cometida a missão de o celebrar: o gigante Adamastor seria mesmo, e só, um monstro horrendo que devorava as nossas caravelas? O Velho do Restelo seria apenas, singularmente, aquele velhote rabugento que se postava no areal a praguejar contra a partida das nossas naus?
Nada disso, como é óbvio. Alçada Baptista deve ser um homem inteligente, que conhece o valor dos símbolos e das imagens. Pretendeu, com a sua proposta, uma centelha de luz dos projectores televisivos que lhe iluminem o crepúsculo de homem público?! Talvez.....
Por mim, mantenho que continuo a sentir-me bem ao ler, ouvir ou cantar toda a letra do nosso Hino e não me envergonho do orgulho que sinto quando onze jovens de equipamento verde-rubro o fazem em uníssono nos campos de futebol, ou quando a pequena Rosa Mota, a nortenha Fernanda Ribeiro, a morena Carla Sacramento, o entoam, com sentidas lágrimas nos olhos, enquanto desfraldam e acenam com a bandeira que sentem sua e de todos nós.
Bandeira que, mais do que o Hino, reúne em si séculos de história, pois se o esperançoso verde e o revolucionário vermelho lhe foram atribuídos pelos republicanos, os brasões, os castelos e a esfera armilar em muito os antecederam.
E, já agora, correndo o risco de a muitos ter de pedir perdão, aventuro afirmar que mais de 90% dos portugueses com menos de trinta anos não faz uma leitura plena dos símbolos da sua e nossa Bandeira.
Não os culpemos. Julguemos antes os complexos que se criaram quanto ao ensino da História nos bancos das nossas escolas. Gerou-se um sentimento de pavor em transmitir os eventos verdadeiros, as fases de glória e crise da Nação, e de tal forma que, tempo houve, em que soava a pecadilho político falar em Pátria!
Como se alguém tivesse medo da verdade histórica!
Certo é que as matérias de várias disciplinas foram bruscamente alteradas, mesmo a nível universal, pelos acontecimentos que foram ocorrendo de forma célere por todo o Mundo, mas não creio que fosse só essa a razão de tanto trabalho dado aos tipógrafos.
É que os "fazedores" de história do nosso país, nos primeiros anos pós-revolucionários, faltaram ao rigor, opinaram de mais e viram-se aflitos quando tiveram de informar e corrigir que, afinal, as maravilhas económicas do Leste, do Sol da Terra, por exemplo, tão profusa e apaixonadamente apregoadas nos compêndios, não passaram duma miragem, dum logro narrativo.
Nesse período, estudou-se mais a história de certos países predilectos, por conveniência revolucionária, que a de Portugal.
E os tristes resultados vêm depois.....alguns anos depois.

É certo, e justo reconhecê-lo, que antes da Revolução de Abril de 1975, mais do que o rigor histórico, o método de os transmitir deixava muito: era o culto da personalidade, em que, passe o exagero, era primordial saber da cor dos olhos duma Infanta ou se este ou aquele rei era bígamo ou beato, do que conhecer o cerne dos acontecimentos e dos ciclos evolutivos. Mas o estudo da História Pátria era exaustivo e, arrisco mesmo, comparativamente, menos tendencioso.

Ter-se medo que o Povo conheça profundamente a sua História, é temer a verdade. Quem teme a Verdade?



sábado, 10 de novembro de 2007

De Espanha....

Eu sei, pelas décadas já vividas, e muitos anos atentos, que só o simples facto de ilustrar o texto com esta primeira imagem poderá provocar comichosa sarna politica nalguns leitores que por aqui passem o olhar curioso.
O simples evocar dum símbolo pátrio, despoleta essa, nem sempre sentida, raiva em mentes com esquerdistas complexos, em ex-fascistas convertidos, há trinta anos, em revolucionários sanhudos e em ressabiados apátridas.
Surpreendido fiquei ao não ouvir o eco dessas serôdias reacções quando os "Lobos" cantaram com garbo, e de garganta viva, o nosso Hino!
Não invento, ao afirmar que muitos dos intelectualóides que pululam por essa Esquerda rançosa não deixaram de os conotar com exacerbados nacionalistas ou perigosos atletas de Extrema Direita.
Qualquer incauto português que exalte os valores pátrios ou exorte os seus símbolos, sujeita-se a esse vulgar labéu!Aplicada que está a vacina contra esse surto epidémico, mas da moda, passo ao que ora interessa.


Já por aqui fui vertendo a opinião de que o nosso destino europeu é inevitável e não há mesmo como retroceder. Entrámos num barco sem retorno e nem o risco corremos de sermos atirados borda fora.
Estamos de corpo todo na grande sociedade europeia e cumpre-nos acompanhar e participar na marcha do grupo.
Isso implica, como é inexorável e de honra, que, enquanto membro, de plenos direitos e deveres, da União Europeia tenhamos que cumprir as normas decididas e aprovadas pelo conjunto das nações que a integram, nos planos político, económico e social.
Mas, também, sabemos que numa União de Estados, todos estamos subordinados ao "todo" e a nenhum Estado em especial, subalternizado por qualquer dos membros que a integram.
E é neste pormenor, ou nem tanto, que a nossa ancestral subserviência me parece vir aflorando, remetendo-nos ao velhinho trauma de menoridade.
Menoridade ou outros obscuros interesses grupais que, por decisões, ou indecisões, ao mais alto nível dos políticos, vão permitindo que os nossos vizinhos espanhóis se arroguem do, não menos antigo, tique de paternalistas.
E, os que têm estado atentos não deixarão de perceber que os interesses políticos, económicos e, até, territoriais de Espanha, se estão a sobrepor aos desígnios do nosso País.
São as grandes empresas espanholas, com os centros de decisão para lá da fronteira, a controlarem a nossa actividade produtiva, com domínio substancial na área da Indústria, na área do Comércio e, até, na área do fabrico e comércio de explosivos civis. O que, como é óbvio, só será possível com a conivência de grandes "vultos" da nossa Praça!

E, parece já estar em marcha, a fase de apropriação de território, quando nos é dado conhecer que instituições bancárias, de capitais públicos espanhóis, acenam aos "nuestros hermanos" com empréstimos de juros baixos, simbólicos, desde que o capital seja aplicado na compra de herdades no Alentejo ou terrenos da serra algarvia!

A pressão é ora mais avassaladora e não lhes estará a faltar o apoio e incentivo por parte dos nossos timoneiros. Como se o almejado controlo ainda não era total, o factor IVA vem-se encarregando do resto: as zonas raianas de Portugal, de há anos a esta parte, estão, economicamente, à mercê de Espanha. É lá que engordam a bolsa dos nossos vizinhos, na aquisição de produtos que, deliberadamente ou não, o nosso IVA encarece!

Diria que esta realidade até nem seria trágica se viesse a ser a saída da míngua a que o Povo Português vai sendo votado, mas sabemos que o não é nem será. Quanto muito, será um chorudo amealhar de capitais para meia dúzia de judas portugueses "espertalhões" que de tudo isto beneficiam com o bolo da traição.

Delirante a perspectiva a que acabei de tentar dar expressão? Será.....mas não mais que a aventada por um dos, no início do texto, aludidos intelectuais, o Nobel Saramago!

Alguma atenção e o futuro próximo se encarregarão de aclarar este meu ponto de vista. E, espero bem, ter lido mal os sinais!...






quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Cumpre-se o fado......


Eu já pressentia que iríamos ter mais do mesmo no debate do Orçamento para 2008.
Aquela "gente" não tem remédio, não sabe arrepiar caminho.
E nem me dou ao trabalho de fazer novo esforço de escrita para expressar a imagem que, em síntese, me ficou de mais uma discussão acerca da forma de se desbaratar o bolo do esforço que nos vai sendo pedido, nos sucessivos assaltos aos bolsos dos portugueses. Limito-me a recordar o que por aqui escrevi, no passado dia 1 deste mês, que deveria ser de Outono, mas teima em continuar de Verão quente:


"Numa retrospectiva breve, é fácil assumirmos que, mais do que governarem bem, as preocupações primeiras dos executivos, dos vários quadrantes, sem excepção, tem sido o, já mórbido, descartar o insucesso dos seus exercícios nos que antes passaram por São Bento.Já provoca náuseas, por tão repetitivo este estratagema! E não devia ser assim! É uma regra miserável que só convence os incautos, os cidadãos menos avisados, que vão sendo administrados por forças partidárias de compadrios e caça-votos, na egoísta procura da satisfação das suas clientelas.Não se pede que os sucessivos governos, os de ontem, de hoje e de amanhã, percam tempo com inócuos elogios aos que os antecederam, ou que se sintam, estrategicamente, obrigados a reconhecer-lhes os méritos como ora fez a Ministra da Educação. Pede-se, sim, é que governem bem e que, no fim de cada legislatura, nos apresentem resultados palpáveis e o rumo certo para um País que tem sido farto pasto da voracidade de grupos e lobbies. E que, sobretudo, não justifiquem os seus continuados falhanços com os hipotéticos erros de executivos passados, não poucas vezes, chegando ao ridículo de se desculparem com o negro fado dos tempos do homem de Santa Comba!"


Servindo-me das próprias palavras dos nossos "ilustres" parlamentares, ESTAMOS CONVERSADOS!

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O confronto

O debate na AR do Orçamento de Estado para 2008 inicia-se hoje.
Para a maioria dos órgãos de comunicação social, nem é tanto a substância em discussão que, parece, importar. É-lhes, na óptica dos seus interesses, mais apetecível o enfoque na confronto Sócrates versus Santana!
Criam, perante os consumidores do mediático, o clima que antecede um clássico futebolístico, tipo Benfica-Sporting.
Quem ganha? Quem perde?
É o grande desafio nacional que jornais, rádios e televisões valorizam, como se as questões que importam ao comum do cidadão fosse saber qual dos garnisés vai ganhar a luta da capoeira!
Depois, como sempre se viu, mais do que nos darem a conhecer daquilo que realmente nos importa da discussão da matéria em debate, iremos ler e ouvir: Ganhou o Sócrates! Ganhou o Santana! Empataram!

E nós, cidadãos pagantes deste e doutros espectáculos, ficamos esclarecidos duma certeza, dum resultado imutável: Vamos continuar a PERDER!

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

DREN desafinada


Ainda não esquecemos o caso do Professor Charrua protagonizado pela responsável da DREN (Direcção Regional de Educação do Norte), Margarida Moreira.
Recordemo-nos que, o tão conhecido "delito de opinião" foi de imediato sancionado por aquela Directora que, brandindo a espada da rosa, castigou, de imediato, o laranja Fernando Charrua com pena de suspensão, sem, no mínimo aguardar pela decisão dos tribunais, a quem fez conhecer do processo, por intermédio do Ministério Público.
Também nos lembramos que, numa reunião com o Presidente da Câmara de Vieira do Minho, o Padre Albino Carneiro, também ele laranja, mais uma vez aquela senhora brandiu a sua espada rosa, aconselhando o autarca a ir "rezar missas".
Fosse pelo reconhecimento dos seus méritos, fosse pela destreza manejar a tal espada rosa, o facto é que esta senhora foi reconduzida no cargo. E lá está, poderosa e soberana!
Chegam-nos, agora, noticias dos abusos de um professor de Música duma das escolas tuteladas pela mesma Directora da DREN, Margarida Moreira. Segundo elas, aquele docente, ia acenando com facilidades nos testes do Dó, Ré, Mi a troco de favores sexuais das suas alunas menores.
Tal como no caso Charrua, o processo corre os seus trâmites nos tribunais.
Mas, e é aqui que radica a minha estupefacção pela flagrante dualidade de critérios, o homem da batuta continua, a dar as suas aulas solfejo a alunos menores, enquanto aguarda pelo julgamento.Escuda-se a mesma Directora da DREN no facto do Juiz de Instrução não haver decidido pela sua suspensão, limitando-se a proibi-lo de contactar as menores objecto dos seus desafinados acordes....
O que não colhe. Ela mesma não esperou por qualquer decisão judicial para suspender o Professor Charrua. E, tenho para mim, que nem há comparação possível entre os delitos de que foram acusados. Se é que o primeiro cometeu algum delito ao manifestar o seu descontentamento pela forma desastrada como este país está a ser governado! Por fazer uso dum direito consagrado em democracia!....
Os casos que venho aflorando e outros que se foram conhecendo e em que aquela senhora deixou bem evidente a partidarização das suas medidas persecutórias, dão-me o direito, e a preocupação, de pensar que estamos a voltar aos tempos das perseguições políticas. Melhor esclarecido ficarei, quando souber da filiação partidária do "sortudo" Professor de Música...
Não que pretenda condenar a Rosa e proteger a Laranja. Não caio nessa esparrela mental: os denunciados de hoje, até poderão vir a ser os acusadores de amanhã.
O que me perturba é esta comichenta sensação de estar, de novo,na eminência de viver tempos de despotismo, arrogância e injustiça e em que se protegem os poderosos e apaniguados, enquanto se perseguem os que o não são.
E, já agora, porque nestas minha divagações os "abusos sexuais" vieram de novo à berlinda, quando poderemos saber dos autores daquela estranha alteração a um preceito do Código Penal que consagrou o "crime continuado", permitindo que esses predadores possam ser punidos por um só crime, mesmo que hajam abusado n vezes da sua vítima?!
Urge essa transparência. Doa a quem doer. Que um Poder de sombras, nunca será farol para um Povo que quer luz!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Crime...digo eu!




Sei que os alarmismos exagerados não são benéficos, nem contribuem para um clima de segurança a que a esmagadora maioria aspira e a que tem direito. Mas assobiar para o lado como nada esteja a acontecer neste país tradicionalmente pacífico, nada resolve ou tranquiliza.
Darem-nos a conhecer estatísticas, tentarem-nos convencer de que os índices da criminalidade estão em rota descendente, mais não podem ser que paliativos reconfortantes, informados que vamos sendo de tudo o que se vai passando por este país fora. Nos grandes centros, mas também, e a um ritmo inusitado, nas cidades, vilas e aldeias do interior.
O que não surpreende. Sabemos, por experiência de vida, que a criminalidade, a violência, aumenta à mesma velocidade em que o custo de vida aumenta e a economia das famílias se degrada.
E este ciclo que atravessamos é, para a grande massa de portugueses, de dificuldades económicas e consequente degradação social, acrescidas!
Sendo certo que não conhecendo daqueles crimes "de colarinho branco", os nebulosos meandros de compadrios e corrupções de grupos e elites instaladas, aconchegados na teia intocável de proteccionismos, sabemos todos dos sucessivos assaltos a multibancos, ourivesarias, viaturas, pessoas, com recurso a violência, alguns com trágicos desfechos e vítimas. Estes, não há como encobri-los do temeroso cidadão: a máquina mediática serve-os às bandejas, todos os santos dias desta terra...
Nada que os responsáveis deste país não saibam e, pressinto, não esperassem, ao enveredarem por esta exacerbada política economicista, sem preocupações sociais.
E se o encerramento de centenas de postos policiais por todo o Portugal e a permissividade de algumas leis recentes (drástica redução das prisões preventivas, seringas nas prisões...) têm essas preocupações economicistas, poderão, por outro lado, ser um sinal claro de que têm o convencimento de que as condições económicas e sociais das pessoas irá em breve melhorar, sei lá se pensando nos dinheiros que estão a chegar e com as grandes obras que estão a programar!...
Continuaremos a esperar.....para ver!
Hoje, há lugares, há bairros estigmatizados por serem os alfobres e abrigo de gangs violentos. É a Cova da Moura, é o Bairro da Bela Vista, é o de Chelas, o do Cerco...e tantos mais. Sem descrer que, pelo que se vai lendo e sabendo, radicarem nos bairros onde o trabalho social do Estado fracassou, não creio que a origem e os focos da criminalidade grupal esteja tão localizada. Por força das condições que dão origem a esses comportamentos desviantes e que já acima apontei. A degradação económica e social reinante está a dispersar-se geograficamente, a mancha alastrou!
Ainda que essas motivações estivessem presentes, bem diferentes seriam as caricaturas, as marcas psicológicas, de muitos dos que, nos idos anos oitenta, se dedicavam ao banditismo armado. Por esses anos, tive essa percepção, era mais a necessidade de fundos para sustentação do vício "maldito", e era mais o ínvio caminho da aventura, tipo desporto radical em gestação, que levava muitos dos jovens a enveredarem pelas perigosas veredas do crime.
É uma imagem de outros tempos que retrato em mais um conto (inspirado em factos reais) que me saiu das teclas há quase duas décadas:
O Toninho da Taiti
Era o Verão de 1967.
Na Avenida de Roma, ao cair quente da tarde, grupos de senhoras, deliciadas nos chilreios pardalescos do parque arborizado, em passada pendular, gastavam os minutos que faltavam para o capricho social do chá-convívio no Salão da zona.
Perto delas, pontapeando vazios cartuchos de pipocas, a criançada acompanhava-as, em jovem alarido.
Não era inédito este quadro no bairro citadino da fadista Lisboa. E até os velhotes, que se espalhavam, sisudos e alquebrados, pelos bancos da avenida, como parte integrante da paisagem, se tinham habituado ao movimento rotineiro daqueles alegres grupos de vizinhos, mais jovens, nas imediações chiques da afamada pastelaria.
Lá ia a D. Cacilda, esposa do terceiro oficial da Conservatória, a D. Jacinta, do Liceu, a D. Amélia, algarvia, e os petizes; toda aquela gente que dava um pouco mais de vida aos olhos já tão vividos dos idosos reformados.
Os maridos, alfacinhas de gema, passariam mais tarde: o Eusébio estava em forma e os Estádios da Luz e Alvalade, ali bem perto, arrebatavam-nos às esposas, naquelas tardes soalheiras.
Entretanto, mais um chá, mais umas torradas - para as senhoras; os filhos, esses preferiam um sorvete fresquinho, enquanto se divertiam, alheios às conversas adultas das mamãs.
- O meu menino....reparem como é vivaço, o meu Toninho! - e a mamã, uma senhora de jeito desinibido, apontava com a última crónica feminina, que apertava entre os dedos bem tratados, um moço dos seus cinco anos, que cabriolava por entre as cadeiras do "TAITI".
- Lá isso é, menina Amélia, o miúdo tem ares de vir a ser um valente rapagão! E a habilidade com que segura a espingarda!...
O Toninho, de pernas arqueadas, em cima da cadeira, por debaixo do televisor, fazia pontaria para os amiguinhos que, colaborantes, simulavam abrigar-se por entre a clientela indiferente.
- Dá-lhe um tiro, mata-o, Toninho! - E o catraio, de peito eriçado na camisa de ganga azul, com os braços espinafrados, à Popeye e fazendo piscas com os olhitos brilhantes junto à coronha plástica da sua última prenda, lá ia disparando rajadas de intenções: tau.....tau.....tau....
D. Amélia, de olhar comovidamente vaidoso, com a mão no braço nu da D. Cacilda, informava a assembleia do chá que era a quarta arma oferecida pelo Alfredo, seu extremoso marido, ao lindo menino.
- Ele agora, vejam lá, não deixa o pai em paz enquanto lhe não comprar uma metralhadora, ou lá o que é, que viu há dias numa montra do Chiado! Não quer outros brinquedos, o diabo do rapaz!....
- Há-de ser um grande homem, menina Amélia!
- Se há-de, menina Jacinta, um grande homem!
- Um grande homem! - exclamou, em uníssono, o embevecido coro.

E os anos foram passando, gastando-se lentamente pelas serras, pelos vales e, também, naquela avenida de betão alfacinha.
Os velhotes do parque eram já outros: em cada Outono que surgia, o vento levava, por entre as folhas secas, mais uma das figuras do grupo crepuscular.
Outras amigas, mais novas, foram engrossando o caudal daquelas damas que desaguava, quase sempre, nas vistosas arcadas do "Taiti".
Mais meninos, outros meninos, continuavam a ser as fiéis sombras das mamãs nos Domingos de chá.
Os de outrora, já com pêlo na venta crescido, haviam-se libertado das asas galináceas das maezinhas.
Os maridos, aqueles, continuavam no cumprimento do seu "sagrado" dever. O Carlos Manuel até estava a fazer umas jogatanas!....
Era o Inverno de 1985. Foi numa fria manhã, mas sem chuva, que as sirenes irritantes de ambulâncias e Policia, agitaram as ruas da cidade. O Saldanha era um mar de gente buliçosa, que se apinhava à porta do Banco.
Pouco antes, um grupo de quatro embuçados, empunhando pistolas metralhadoras dos últimos modelos, haviam feito um "raid" ao Espírito Santo. O assalto, que em parte fora bem sucedido, apesar do roubo se cifrar em poucas centenas de contos, teve o negro saldo de duas vítimas roubadas à vida. Uma foi o caixa, que se recusara a satisfazer as exigências dos assaltantes. A outra foi o marginal que sobre ele disparara, duas vezes, sem piedade. A Policia, que entretanto acorrera, surpreendeu-o a sair do Banco, quando os comparsas se haviam já posto em fuga, recreando-se com mais uns tiros para a montra largo do estabelecimento.
Era um rapaz dos seus vinte e poucos anos, de forte compleição física, botas de tacão alto, com o cabelo negro caído, em desalinho, por sobre o pescoço ensanguentado. Era um desconhecido. Caíra, sob as balas dos agentes da ordem, na borda da sarjeta.
Quem seria?
Horas passadas, os investigadores apenas sabiam que a pesada pulseira de prata que trazia no pulso direito, tinha inscrito o nome "ANTÓNIO". No reverso, lia-se a dedicatória "MÃE AMÉLIA".
O corpo gelado do "pistoleiro" aguardava num dos bocados de frio mármore da Medicina Legal. Quem o iria reconhecer?
Noite alta, depois de várias centenas de pessoas terem desfilado pelo lúgubre corredor, chegou a vez de tão respeitáveis senhoras passarem os olhos curiosos pelos rostos do "ANTÓNIO". E foi reconhecido!
- É o meu Toninho! Que desgraça, meu Deus! Quem matou o meu rico filho?
- Menina Amélia, será possível? O Toninho um assaltante, um assassino? Que desgraça!.... e a trémula Cacilda recolheu nos braços o rosto amargurado da sua amiga.
- Cacilda - sussurrou em voz tíbia aquela sofrida senhora - o meu filho....que eu tão bem eduquei, a quem nunca recusei nada, a quem dava tudo, tudo o que me pedia, o meu filho....que podia ser um Homem!...
- Podia ser um Homem! - murmuravam chorosas as três senhoras, unidas naquela imensa dor.
Podia ser um Homem, o Toninho!



quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Espanto!

A actual Ministra da Educação, em declarações públicas, reconheceu resultados positivos alcançados desde 2004 mercê do aumento de cursos profissionais e da Reforma do Ensino empreendida por David Justino.
O que me espanta nem é tanto a eventual virtualidade das medidas do antigo ministro. Espanta-me, sim, é o facto duma ministra dum governo socialista vir a terreiro tecer loas ao desempenho dum seu antecessor doutro espectro político!
Espanta-me, sobretudo, pelo ineditismo do acto.
Num país em que, após a revolução, vamos assistindo, ciclicamente, os detentores do Poder alijarem a responsabilidade da falácia da sua governação nas medidas tomadas, nos diversos campos, pelos que os antecederam nos centros de decisão, as declarações da senhora ministra só podem mesmo causar espanto.
Numa retrospectiva breve, é fácil assumirmos que, mais do que governarem bem, as preocupações primeiras dos executivos, dos vários quadrantes, sem excepção, tem sido o, já mórbido, descartar o insucesso dos seus exercícios nos que antes passaram por São Bento.
Já provoca náuseas, por tão repetitivo este estratagema! E não devia ser assim! É uma regra miserável que só convence os incautos, os cidadãos menos avisados, que vão sendo administrados por forças partidárias de compadrios e caça-votos, na egoísta procura da satisfação das suas clientelas.
Não se pede que os sucessivos governos, os de ontem, de hoje e de amanhã, percam tempo com inócuos elogios aos que os antecederam, ou que se sintam, estrategicamente, obrigados a reconhecer-lhes os méritos como ora fez a Ministra da Educação. Pede-se, sim, é que governem bem e que, no fim de cada legislatura, nos apresentem resultados palpáveis e o rumo certo para um País que tem sido farto pasto da voracidade de grupos e lobbies. E que, sobretudo, não justifiquem os seus continuados falhanços com os hipotéticos erros de executivos passados, não poucas vezes, chegando ao ridículo de se desculparem com o negro fado dos tempos do homem de Santa Comba!
Só assim a classe política recuperará alguma credibilidade. Só assim um Povo pode confiar e votar, com alguma tranquilidade e sem a desconfiança generalizada, nos timoneiros que se vão perfilando, e falhando, na missão de levarem a bom porto esta velha barca que vai submergindo a custo, de naufrágio em naufrágio!
Mais do que partidos e de políticos comprometidos com clientelas, o que esperamos é gente capaz, competente e honesta, que saiba servir e não servir-se!

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Comedor de sardinhas.


O embaixador de Portugal na Ilha de Sua Majestade, António Santana Carlos, no exercício do seu indiscutível direito de opinião, havia condenado o comportamento dos pais da Maddy ao deixarem sós, no apartamento, os seus três filhos de tenra idade.
Opinião que, aliás, não é só sua: no mesmo sentido, de condenação moral do acto de abandono, se têm manifestado milhares de portugueses e ingleses.
A reacção dos "intocáveis" não se fez esperar.
E chegou com o insulto soez de um colunista do "Mirror"que, encarnando o antigo complexo dos súbditos da Rainha, aconselhou o representante diplomático deste Povinho subserviente, a "manter fechada a sua estúpida boca de comedor de sardinhas".
Sem querer assumir as dores do ofendido, melhor, os odores da sua sardinhada, não deixo de ler mais um sinal da arrogância de quem não se convence que deixou, há muito, enquanto nação, de ser, em muitas vertentes, exemplo para outros povos, passe a tradição dos bons costumes da mais velha democracia do Mundo.
Até porque a pequena Maddy é inglesa, os pais também, só o território da "malvadez" foi o nosso. E ainda nos resta saber da nacionalidade do/s malvado/s..............que até poderão ser vizinhos do colunista inglês, o Lord cozinheiro desta peixeirada!

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Nacala

NACALA é mais uma das acolhedoras portas do Índico, na costa Norte de Moçambique.
É mais uma das muitas histórias de amor de quem nasceu ou viveu em África.

domingo, 28 de outubro de 2007

FLAGRANTES DA VIDA REAL II

Tejo ciumento

Outono de 1980.

A coçada gabardina do Fonseca da Lisnave sacudia pingos de chuva, na paragem do 33. Junto aos carris molhados, era o turbilhão de sempre, ao cair da tarde: gente que passa, chega, vai, sobe e desce, em mais uma hora de ponta do tombar do dia. O turno de serviço do fiel de armazém na Doca da outra margem, chamava-o, naquela Segunda-Feira de Outubro, para mais uma noite de vigília por entre carcaças de barcos envelhecidos. Pelas oito da noite, segurava-se na borda do cacilheiro que, apinhado, rasgava as águas sujas do Tejo, na rotineira procura da outra banda. Era um homem quarentão, o Fonseca, de nariz bexigoso espetado em farto bigode que cofiava, pensativo. No outro lado, esperava-o o Ernesto, companheiro de quinze anos de trabalho nos estaleiros. Considerava-o um bom amigo. Ambos moravam para os lados de Campolide e, pelas tardes de Domingo, beberricavam uns copos no carvoeiro da sua sombria calçada. Com este se abria, como um livro, em confidências íntimas, vendendo ao desbarato parte das suas preocupações. O Ernesto apercebera-se, havia já uns tempos, que o Fonseca não estava muito seguro da fidelidade da sua Rosa, com quem "juntara os trapos", já lá iam uns vinte anos, numa capelinha lá para as frescas verduras do Minho e que lhe dera um bonito pimpolho, hoje um rapagão emigrado. Lia-lhe desconfiança nos olhos sempre que dela falava e intrigava-o o ar taciturno que lhe revestia as feições sempre que alguém aflorava a notória diferença de idades entre ambos. - Cá estou, pá! Pega no saco e dá o fora que o barco pira-se, não tarda muito. - Mas o Ernesto, coçando as madeixas desgrenhadas, com uma ruga crescendo-lhe na fronte larga, media o amigo, sem qualquer pressa em abalar. - Então?! Vais ou não vais? Tens algum problema? - Interrogava o Fonseca, estranhando a demora do amigo. - Olha, Fonseca, é uma gaita...tem calma...o Miguel da taberna telefonou há pouco para te avisar que, lá por volta das nove, apareceu um chavalo à tua porta e entrou abraçado à tua Rosa. - Que merda de gozo é lá esse? Levas é com a brilhantina que vais é brincar com o tio do Camões! - E, com os olhos desorbitados, fulminava o acabrunhado companheiro de trabalho. - É verdade, Fonseca! Pergunta à telefonista, lá em cima...foi ela quem me chamou. Vai lá a casa ver o que se passa que eu faço-te o turno...e tem calma! Mas, também te digo, se aquele Miguel tasqueiro mentiu, mando-o contar ciprestes para o Alto de São João!... E, pouco depois, já o Fonseca rumava para a outra margem, fitando, com raiva muda, as amareladas luzes do Cais Sodré. De cabelo revolto, ele que sempre fora de olhares anatómicos nem sequer dissecava os borrachos que, em pavoneio, se bambaleavam barco fora, com pressa das nocturnas delícias que iam procurar, noite alta, na capital. Toldava-se-lhe a vista e as unhas crispavam-se nas asas da negra sacola pousada entre os joelhos irrequietos. - Eu mato-os... eu esfolo-os, eu.....eu.... - murmurava, aturdido, para a imagem que o vidro húmido lhe devolvia. Ainda o transtejo não havia despejado o Fonseca na doca pombalina e já o Ernesto mergulhava em cogitações de toda a ordem, pesando, agora mais friamente, os hipotéticos reflexos de toda aquela charada na ciumenta cabeça do amigo. E se ele os matasse? Sim, ele que até havia comprado uma pistoleta no Martim Moniz, após, seis meses atrás, haver sido assaltado junto à Fonte Luminosa?! E decidiu fazer qualquer coisa, algo que lhe aplacasse a consciência afogueada pela dúvida. - ........... mas vão depressa, que ele está descontrolado e pode fazer alguma! - A Policia acabava de receber mais um telefonema, semelhante às centenas de solicitações, tantas vezes sem nexo, que lhe chegam fios adentro. E, quando o táxi parou na Calçada do Moinho, ali a Campolide, o Fonseca, em correria desenfreada pelos paralelos molhados, bateu à porta de casa. Uma, duas,....quatro vezes seguidas, com pancadas tão fortes que, por entre as craveiras das janelas vizinhas, assomaram curiosos radares de gentes recolhidas, à espreita da "ressaca". Na taberna em frente, com a porta entreaberta, encavalitavam-se, expectantes, o Miguel e toda a turma da sueca e da ginja. Todos ficaram boquiabertos, suspensos, quando viram o Fonseca de pistola em punho, após derrubar a velha porta com um ruidoso pontapé, irromper pela saleta da entrada, gritando: - Rosa, Rosa, onde estás?... A segunda sapatada foi na porta do quarto, do seu quarto, onde parou na ombreira, de punho espetado, ameaçador. A mulher, recolhida por entre as mantas, com as faces lívidas de susto, olhava o marido, o seu Fonseca, espantada e interrogativa. No canto, de pé, estava um jovem estarrecido, ainda mais perplexo quando viu dois policiais manietarem o desorientado homem. Foi então que, de braços abertos, o rapaz correu para a porta e, envolvendo-o num amplexo sem fim, exclamou, emocionado: - Pai! Querido pai!..... - uma lágrima teimosa deslizava pela face bolachuda do jovem -E venho eu de França, depois de tantos anos, para me receber assim?! Há algum problema? - Ó Jorge, Jorge, meu filho! Que maldita trapalhada, mas que confusão! Podia ser uma desgraça..........

Lá fora, quando os policiais se retiravam pela noite escura, acelerando o aliviado passo, continuava a chover, de mansinho, por sobre os telhados baixos da Calçada....ali a Campolide.

sábado, 27 de outubro de 2007

ÁFRICA, ÁFRICA!

África, sedutora, bela, sonhadora.....África!

VIAGEM PELAS SOMBRAS

Crime Continuado...

Já, muitas vezes, dei por mim a invectivar, intimamente, um ou outro Juiz, por esta ou aquela sentença. Umas vezes, com algum fundamento, outras, acredito, sem fundamento nenhum.
É inexorável: cada um de nós tem dentro de si um julgador, um árbitro sem erros, um magistrado supremo!
Esquecemos, ou nem tanto, nem todos, que não são eles, os juízes, os legisladores, os artífices dos códigos imprescindíveis à vida num Estado de Direito.
Essa função radica noutros órgãos. Cujos membros foram por nós, tantas vezes, cidadãos incautos, livremente eleitos.
Aos juízes cabe, por força do seu mister e estatuto, julgar dentro dos parâmetros das leis instituídas. Concordem ou não com a essência desses diplomas.
E, muitas vezes, não concordarão mesmo, em consciência, no seu cultivado espírito de justiça, com os preceitos que são forçados a aplicar.
É o caso do, já tão badalado, caso do "crime continuado" nas agressões sexuais. Tal como a esmagadora maioria dos comuns cidadãos que se vão pronunciando, também eles, vieram a terreiro zurzir num "pinchavelho" do novo Código que - na prática -, permite que qualquer abusador ou pedófilo empedernido, possa usar e abusar, uma, duas...dezenas, centenas de vezes, duma vítima das suas criminosas taras, sem que lhe seja imputado equivalente número de crimes! Segundo a nova "Tábua das Leis" será punido por um só crime, o tal "continuado".
Tomam-nos por um Povo de papalvos, que o somos muitas vezes, embevecidos por promessas cínicas ou papagaíces espertalhonas, mas não creio que alguém não desconfie da bondade deste preceito. Mais, que não haja entendido o alcance e o alvo!
Pois bem: para que possa ser desarmada essa legítima desconfiança, num Estado em que o Poder se proclama, a cada passo, democrático e transparente, é urgente que a Assembleia Legislativa, dê a conhecer aos cidadãos que elegeram os seus membros, quais os deputados que terão entendido de per si alterar aquele artigo do Código, já depois de haver consenso num texto original!
Urge que quem de direito o faça, para que não continuemos a viajar pelas sombras, pela mão de gente que nos está a desmerecer a confiança.
Como urge louvar a atitude dos Juízes,porque não temos outro caminho fiável que não seja continuar a acreditar na Justiça! Apesar de alguns excessos e não menos brandura e omissões.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

FLAGRANTES DA VIDA REAL

Há pequenos episódios da vida que nos vão deixando pequenas marcas, curtas lições que nos tocam, enquanto sujeitos de emoções, de afectos e sentimentos gregários.
Factos simples, vividos por gente simples. E que, por o serem, numa sociedade que, ao tempo do conto, marchava, em ritmo acelerado, para o individualismo, o solitário andar por entre as Gentes, me impulsionavam a registá-los pela escrita. Duma forma modesta, para gozo do próprio sentir, mas sem olhar para o umbigo.
Reporta aos anos oitenta, a escrita e o tempo da estória, tendo por lugar um dos anéis metropolitanos, nas imediações do betão e do egoísmo galopante.

É, como já confessei, um conto simples de e para gente simples, que não têm o pé além do chinelo:

TOC' Ó BURRO



- Isso é fome ou sono?!... - , interrogou, com gozado sorriso, o meu companheiro de viagem, sem despregar os olhos da estrada de Mafra, com algum trânsito naquela hora.
- O que há-de ser - retorqui-lhe - se já passa da uma da tarde e anda para aqui um bichinho a roer! Ainda falta muito para a Malveira?
- Ainda agora saímos de Torres! .... O melhor é pararmos no primeiro restaurante que aparecer na estrada...
O nome não era muito sugestivo, mas adequava-se àquelas paragens saloias:
"TOC'Ó BURRO". Uma seca imagem de palha de centeio, para um almoço que se desejava farto e suculento...
A sala de jantar era na cave, decorada com o jeito típico daquelas gentes, bem no coração da zona saloia. E, desde a ferrugenta roda de carroça à albarda suja dos burricos, havia de tudo um pouco na decoração das paredes daquela casa, para turista comer.

- Eu quero chispe. Mas com bastante hortaliça, se faz favor!
O homem olhou-me, de semblante pensativo, e foi rabiscando a encomenda num pequeno bloco de notas.
A sala estava pouco concorrida. Três sujeitos, numa mesa central, atiravam-se, com voracidade, a uma farta dose de bacalhau com grão. Num canto, um jovem casal, com ares de estranja, bebericava, palrador, umas coca-colas, não dispensando o baldinho de gelo.
- Cá está! Olhe, vai-me desculpar, o chispe costuma ser servido com feijanito, mas teve que ser com grão, pois a cozinheira não o encontrou...e se eu tenho para aí tanto e do bom! - e continuou, em tom humilde: - sabe, a minha mulher, a alma desta Casa, foi ontem para o Hospital.....é uma chatice!...
E virou as costas, acabrunhado, com o rosto crispado de preocupação.
Na verdade, não obstante a qualidade das instalações e o gosto na típica decoração do "TOC'Ó BURRO", notava-se no ambiente a falta duma mãozinha providencial.
Ocupava-me, com gula mal disfarçada, dum chispe bem guarnecido, quando o nosso hospedeiro se abeirou da mesa, com expressa intenção de auscultar a disposição dos clientes. Antes que dirigisse qualquer pergunta, lancei-lhe uma observação reconfortante, que, valha a verdade, mais não foi que uma "mentirinha" piedosa:
- Afinal, isto está bom! O grão até lhe dá mais paladar!....
- Ah, sabe, eu só lhe disse que e hábito servir o chispe com feijão por o senhor poder voltar e estranhar a diferença. De resto, o grão também é bom....pois!
Mas ninguém precisaria dum canudo em Psicologia para lhe notar o preocupado nervosismo, a agitação interior que o electrizava, mesmo quando, junto à porta que separa a sala de jantar da cozinha, repreendeu, com drásticos modos, os dois miúdos, talvez, seu filhos, que brincavam num pequeno triciclo.
E já passava das duas da tarde quando, no primeiro piso, onde funcionava o Café-Bar do estabelecimento, nos prestámos a pagar os almoços.
- .....olhe, e as melhoras da sua senhora! - Foi o que me ocorreu oferecer ao atarantado hospedeiro, em jeito de lenitiva gorjeta.
Dois meses eram passados. Continuava no bulício da capital, onde tanta gente é sempre tão pouca, onde cada um vive em si e para si, entrincheirado na fortaleza da indiferença e do individualismo.
Aquele, pensava eu, banal episódio, ficara arquivado na pasta do subconsciente, junto aos demais. O "mexe-mexe" do dia a dia - do presente - não permite espaço para outro lugar ou para meditações nas pequenas coisas do ontem...
Descia a Morais Soares, ali ao Chile, procurando furtar-me às cotoveladas impiedosas e apressadas dos passantes que, em formigueiro buliçoso, se atropelavam passeio abaixo, no final de mais um dia de trabalho.
- Amigo, amigo! -, e senti o braço apertado, enquanto travava a marcha. -Não se lembra de mim? Do TOC'Ó BURRO?!
E lembrei-me. Reconheci o nosso casual estalajadeiro, agora sorridente. Ocorreu-me, também, que os miúdos, ao lado, seriam os putos do triciclo, só não me recordava da senhora que o acompanhava.
- Apresento-lhe a minha esposa. Fui buscá-la, hoje, ao Hospital! Felizmente, já está totalmente recuperada! - E os olhos brilhavam-lhe, de satisfação.
Não deixei de mostrar alguma surpresa com a situação. Afinal, não havia passado de mais um entre tantas centenas, milhares, de clientes que frequentavam aquele restaurante! E, até, só lá entrara daquela vez.....
- Olhe, amigo, quero convidá-lo para ir almoçar um dia destes ao TOC'Ó BURRO. Desta vez quem paga sou eu, a cozinheira vai ser a minha mulher e vai comer chispe com feijão!...
- Mas...o senhor ainda está preocupado com isso?! Se até lhe disse que o almoço estava bom!...
- Não está a compreender, meu caro! É que eu sou saloio, mas não sou parvo, nem mal agradecido. O amigo foi a única pessoa, nestes dois tristes e longos meses, e tive milhares de clientes, que se lembrou de desejar as melhoras da minha senhora. E ela aqui está, já restabelecida, como vê!
Fiquei siderado, agradavelmente surpreendido. Não tive oportunidade, até hoje, de voltar a passar por aqueles lados, mas não resisti a narrar este flagrante da vida real.
E ficar a reflectir como, por vezes, uma frase, aparentemente, tão banal, pode despertar humanismos e sentimentos solidários, mesmo que as pessoas sejam "saloias".......

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

2º bloco de imagens do convívio do Parapato

O segundo bloco de imagens do Convívio das Gentes do Parapato (António Enes/Angoche), evento que teve lugar em Mira, nos passados dias 13 e 14 de Outubro.

sábado, 20 de outubro de 2007

Gentes de Moçambique

Não sei se algum dia os sociólogos darão uma cabal explicação para o fenómeno. Mas o facto, bem constatado, é que as gentes que, por alguma forma, estiveram em comunhão com terras moçambicanas, continuam, pelas sete partidas do Mundo, a manterem vivos traços muito próprios da sua vivência . Após a diáspora a que foram sujeitos, deixando, de alma ferida, os lugares onde nasceram e cresceram ou, simplesmente, aprenderam a amar, não cortaram as amarras do Índico e, sobretudo, mantém perenes valores que sempre os distinguiram: a amizade, a solidariedade e o espírito franco e aberto. Ultrapassada que foi a, nem sempre fácil, fase de adaptação a novas terras, novas gentes, num recomeçar de vida nem sempre conseguido e que reporta ao final dos anos setenta e a década de oitenta, aí está o pessoal a conviver de novo. Recordando as origens comuns e a marca indelével dum sentir a vida muito peculiar.

No sucedâneo de encontros, reuniões e convívios que se vão organizando um pouco por todo o Portugal, foi a vez das Gentes do Parapato, pessoal com ramos de vida na região macua de António Enes, hoje Angoche. São delas as imagens que passei para este "clip". E, ao olhá-las, chega-nos, pelo olhar, a certeza de que a alegria se mantém para lá das muitas recordações e alguma justificada saudade!

Parabéns, Parapatenses!

Porreiro, pá!



Depois da secular ligação a África e ao Oriente, não nos restava outra alternativa. A Europa a que, de há muito, passe a nossa saga de emigração, havíamos voltado as costas, era o nosso natural destino político-económico. A nossa adesão à actual União Europeia foi, por isso mesmo, pacífica e quase consensual no nosso espectro político-partidário. Sem jamais nos esquecermos que essa integração plena não passa só por colher dividendos e eternos apoios, cumpre-se o nosso Futuro enquanto nação antiga deste velho continente. Por tudo, também eu, não sinto qualquer pejo em elogiar e reconhecer o trabalho empenhado de Sócrates e da sua equipa (sem esquecer o dinâmico, quiçá primordial, contributo de Durão Barroso)! Foi um bom trabalho, de sapador diplomático em busca dos necessários e imprescindíveis consensos, para a unânime aprovação do Tratado. Só mesmo com essa Carta de compromissos, vinculativa a todos os membros, a União terá mesmo pernas para andar.

É hora, agora, de olhar para dentro e, com o mesmo ânimo, compreender o Povo de que é Governo, com a mesma humildade com que soube relacionar com os seus parceiros europeus, enfrentar os problemas internos, inverter rumos, rectificar injustiças e assumir que, antes de tudo, estão as pessoas, as suas carências e necessidades básicas, estão os legítimos anseios e, sobretudo, a dignidade dos cidadãos deste País, contribuintes líquidos dum Orçamento com poucas preocupações sociais.

É esse o Povo que, sabendo reconhecer-lhe o mérito da vitória europeia, espera não continuar a ser, por incúria e alguma arrogância, sistematicamente, maltratado.

Se assim for, e só assim, lhe diremos um dia:

PORREIRO, PÁ!...

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

GUERRAS....Malditas guerras.....

A Guerra do Ultramar, A Guerra Colonial, A Guerra de Libertação.................Cá fica o vídeo do 1º Episódio, sob o tema debatido no Prós e Contras. Mas, já agora, porque, como era inevitável, o programas, e a sua essência, já está a provocar as naturais e legítimas reacções, vou adiantar algo mais.
No site da Guerra do Ultramar, Colonial ou de Libertação, como lhe queiramos chamar, que eu considero ser o mais completo e abrangente da net, no seu âmbito,(
http://ultramar.terraweb.biz), os diferentes pontos de vista dos ex-combatentes já começaram a evidenciar-se. O que é perfeitamente natural e respeitável.
Só me exasperou a posição de um ou dois dos "comentadores" que, numa visão superficial e redutora, entendeu desancar nos "cantineiros do mato", como se fossem eles os mentores do colonialismo, o odioso de toda aquela guerra!
Eu conheci centenas de cantineiros espalhados pelos lugares mais recônditos do mato de Cabo Delgado. Conheço a vida que levavam, perdendos os anos na solidão da selva (provavelmente, em iguais condições de vida dos militares que por lá passaram dois anos, sem dar um tiro). Sei que, no seu seio, como em tudo, havia gente honesta e desonesta. E sei, também, do quanto, muitos deles, foram mais do que "pais" para os militares que por lá andavam e passavam.
(Seria o mesmo eu, agora, desancar no Jerónimo Martins, Belmiro de Azevedo e quejandos, pelos lucros que auferem nos seus supers e minimercados, culpando-os da crise económica e do aumento do custo de vida que o país atravessa!....)
Como se os verdadeiros "exploradores" e os que mais lucravam com o propalado colonialismo fosse aquela gente, a fazer pela vida, grande parte sem dela usufruirem qualquer qualidade. E sei como, muitos deles, pagaram com a vida e com os seus bens o arrojo de viverem no mato, isolados, longe de tudo e de todos!

Foi motivo bastante para que o meu comentário àquele programa da RTP1 (Prós e Contras) se desviasse do cerne da questão. E saíu-me este, que transcrevo:

Face às avalizadas opiniões já aqui expressas, pouco mais teria a acrescentar, a propósito deste tema. Revejo-me nas perspectivas da maioria dos que me antecederam nos comentários, mormente as opiniões esclarecidas dos primeiro e último intervenientes: o Vitor Baião e o António Cadete. Não deixei foi de, pela leitura que fiz de algumas intervenções aqui postadas, de reforçar a convicção que já ia tendo, passe a assunção de que são respeitáveis todos os pontos de vista pessoais, do divisionismo que grassa no seio dos ex-combatentes, com reflexos, dificilmente sanáveis, nas suas organizações representativas. Esquecemos o essencial, as dificuldades por que, na maioria, passámos e da nossa dádiva à Pátria, quando deviam ficar para outros patamares de discussão a justeza ou injustiça daquela Guerra. Quando, até, se lê por aqui terem sido os "cantineiros" o odioso daquele conflito armado, podemos bem aquilatar do disparate que grassa nas mentes de alguns ex-combatentes. Como se alguém, minimamente informado, pudesse "descobrir" nos cantineiros espalhados pelo mato moçambicano, os verdadeiros colonialistas!... É uma visão redutora, injusta, verter nessa gente o ferrete duma guerra. Como seria, alguém alijar esse labéu naqueles desonestos militares que, sem escrúpulos, vendiam, em proveito próprio, a esses mesmos "cantineiros do mato", o azeite, as batatas, o bacalhau, o gasóleo...destinado à logística das suas unidades! Perdemo-nos com o acessório. O essencial radica, como sempre defendi, que a descolonização era inevitável. Falhou foi, duma forma trágica e lesiva da consciência colectiva, no tempo e no modo, porque, essa inevitabilidade que já todos, ao tempo, reconheceríamos, não pressupunha nem apontava para a forma atabalhoada, sem honra e sem vergonha, como lhe demos desfecho, à revelia do sentir das populações. Sem qualquer pressuposto democrático, num país que, desde o 25A vem enchendo a boca de Democracia. Pior, bem mais humilhante, será a forma aviltante como o Poder instituído, o mesmo que legisla e decide em nome da Pátria, tem tratado os ex-combatentes, os tais que lutaram em nome dessa mesma Pátria (os Poderes mudam, mas a Pátria é a mesma!...), os portugueses de sempre e os que o eram nos territórios hoje independentes e que terceram armas, sofreram e tombaram bem ao nosso lado, fosse qual fosse a pigmentação da sua pele. E, com os divisionismos já atrás aflorados, errando os alvos, estamos claudicando perante aqueles que não sabem, ou não querem, reconhecer a dívida que o Estado tem para com os seus servidores que sofreram, na carne e na alma, no cumprimento de uma missão que a Pátria lhes impôs!

Saudações, combatentes.....todos!

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

CONTO ARQUIVADO

CONCLUSÃO

Já eram quatro da tarde daquele agitado domingo quando o cadáver, após ter sido arrastado até à aldeia, foi carregado por uma dezena de braços fortes na caixa do jipão.
Era o regresso. Antes, porém, ainda no povoado, fora o almoço: frango "à cafreal" com xima de milho e sumo de caju.
Para o Carlos, apesar dos seus insistentes protestos, ia uma cangarra de malákus e um cacho de bananas. Eram pessoas generosas e gratas, os macuas.
- Senhor, eu pode ir? - perguntou o Régulo Matico, rodeado pelo seu povo. - Vai dar-me xicuembo?
Referia-se à gordura que reveste os intestinos do leão. Entre os macuas e, até, parte da colónia de indianos e europeus, havia a convicção ser aquela gordura um excelente remédio para o reumatismo e até doenças do foro íntimo, para além de potente afrodisíaco.
- Mas o leão é vosso, podem fazer dele o que quiserem!...
- Não, senhor é dono. Quem mata é dono, mais ninguém. - atalhou o Sanica, dando a conhecer mais um dos ancestrais costumes dos nativos.
Já o motor do jeep roncava alegre pela picada.
Desta feita, com mais cuidado, não fosse mais uma vez a ponte tecê-las...
Chegaram tarde ao Largo do Posto. Já os miúdos da Missão, de visita à sede administrativa, brincavam, chilreantes, após a cerimónia do arrear da Bandeira.
O Administrador, sentado com a esposa e filhos à sombra duma frondosa buganvília, dirigiu-se-lhes apressado e interrogativo:
- Então, Carlos, que tal a caçada? Já estava preocupado com tanta demora! Oh...mas que grande bicho!... - largou, estupefacto, ao debruçar-se na borda da viatura. - É um grande animal!
Surgem as explicações de toda a ordem, o onde, o quando e como, dão os parabéns, vai chegando mais gente, curiosa. A notícia corre célere e aparecem, também, os europeus da terra: o Fonseca da cantina e a mulher, o Carvalho do algodão e as filhas e pessoal do destacamento militar que ali se encontrava aquartelado por questões de quadrícula, já que não havia, ao tempo, qualquer conflito latente naquela zona.
Todos se encontravam ali mais empenhados em registar na película a sua momentânea comunhão com o senhor da selva. Os de camuflado não perderiam o ensejo para enviarem uma foto de ocasião às suas madrinhas de guerra, saudosas, em Portugal.
Durou horas aquela peregrinação fotográfica, a quebrar a monotonia sertaneja dos pacatos dias de Balama, enquanto o Administrador Barbosa ia passando o tempo a lamentar o exagerado esburacar da pele, que a deixava pouco prestável para a sua desmesurada colecção de curtumes, na tal salgadeira do armazém.
Quanto ao Carlos, esse tivera direito a algumas duras unhas de leão. Se para mais não servissem, ajudá-lo-iam a esgadanhar nos escolhos que se lhe foram deparando na encruzilhada da vida...
Por longos anos se foi falando no Norte de Moçambique do tristemente célebre "Leão dos 16". Triste sorte, negro o fado daqueles macuas, pois antes, então e depois, foram sempre vítimas de leões despudorados, mais carniceiros que aqueles, com jubas de todas as matizes.
E dessas feras, nem Carlos, nem Sanicas, nem Sacuras, os conseguiram livrar...

Quanto ao autor, tendo passado ao papel este seu conto já lá vão muitos anos, só agora ganhou coragem para o compartilhar, menos por preguiça, mais por temor àqueles cartazes que se vão vendo em alguns estabelecimentos de venda de armas e associações de caçadores: "AQUI SE JUNTAM CAÇADORES, PESCADORES, ADVOGADOS....E OUTROS ALDRABÕES...".
Mas vale a pena correr o risco, suplantado pelo testemunho do maravilhoso fascínio das terras moçambicanas, na sua original e genuína natureza!


FIM