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quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Cumpre-se o fado......


Eu já pressentia que iríamos ter mais do mesmo no debate do Orçamento para 2008.
Aquela "gente" não tem remédio, não sabe arrepiar caminho.
E nem me dou ao trabalho de fazer novo esforço de escrita para expressar a imagem que, em síntese, me ficou de mais uma discussão acerca da forma de se desbaratar o bolo do esforço que nos vai sendo pedido, nos sucessivos assaltos aos bolsos dos portugueses. Limito-me a recordar o que por aqui escrevi, no passado dia 1 deste mês, que deveria ser de Outono, mas teima em continuar de Verão quente:


"Numa retrospectiva breve, é fácil assumirmos que, mais do que governarem bem, as preocupações primeiras dos executivos, dos vários quadrantes, sem excepção, tem sido o, já mórbido, descartar o insucesso dos seus exercícios nos que antes passaram por São Bento.Já provoca náuseas, por tão repetitivo este estratagema! E não devia ser assim! É uma regra miserável que só convence os incautos, os cidadãos menos avisados, que vão sendo administrados por forças partidárias de compadrios e caça-votos, na egoísta procura da satisfação das suas clientelas.Não se pede que os sucessivos governos, os de ontem, de hoje e de amanhã, percam tempo com inócuos elogios aos que os antecederam, ou que se sintam, estrategicamente, obrigados a reconhecer-lhes os méritos como ora fez a Ministra da Educação. Pede-se, sim, é que governem bem e que, no fim de cada legislatura, nos apresentem resultados palpáveis e o rumo certo para um País que tem sido farto pasto da voracidade de grupos e lobbies. E que, sobretudo, não justifiquem os seus continuados falhanços com os hipotéticos erros de executivos passados, não poucas vezes, chegando ao ridículo de se desculparem com o negro fado dos tempos do homem de Santa Comba!"


Servindo-me das próprias palavras dos nossos "ilustres" parlamentares, ESTAMOS CONVERSADOS!

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O confronto

O debate na AR do Orçamento de Estado para 2008 inicia-se hoje.
Para a maioria dos órgãos de comunicação social, nem é tanto a substância em discussão que, parece, importar. É-lhes, na óptica dos seus interesses, mais apetecível o enfoque na confronto Sócrates versus Santana!
Criam, perante os consumidores do mediático, o clima que antecede um clássico futebolístico, tipo Benfica-Sporting.
Quem ganha? Quem perde?
É o grande desafio nacional que jornais, rádios e televisões valorizam, como se as questões que importam ao comum do cidadão fosse saber qual dos garnisés vai ganhar a luta da capoeira!
Depois, como sempre se viu, mais do que nos darem a conhecer daquilo que realmente nos importa da discussão da matéria em debate, iremos ler e ouvir: Ganhou o Sócrates! Ganhou o Santana! Empataram!

E nós, cidadãos pagantes deste e doutros espectáculos, ficamos esclarecidos duma certeza, dum resultado imutável: Vamos continuar a PERDER!

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

DREN desafinada


Ainda não esquecemos o caso do Professor Charrua protagonizado pela responsável da DREN (Direcção Regional de Educação do Norte), Margarida Moreira.
Recordemo-nos que, o tão conhecido "delito de opinião" foi de imediato sancionado por aquela Directora que, brandindo a espada da rosa, castigou, de imediato, o laranja Fernando Charrua com pena de suspensão, sem, no mínimo aguardar pela decisão dos tribunais, a quem fez conhecer do processo, por intermédio do Ministério Público.
Também nos lembramos que, numa reunião com o Presidente da Câmara de Vieira do Minho, o Padre Albino Carneiro, também ele laranja, mais uma vez aquela senhora brandiu a sua espada rosa, aconselhando o autarca a ir "rezar missas".
Fosse pelo reconhecimento dos seus méritos, fosse pela destreza manejar a tal espada rosa, o facto é que esta senhora foi reconduzida no cargo. E lá está, poderosa e soberana!
Chegam-nos, agora, noticias dos abusos de um professor de Música duma das escolas tuteladas pela mesma Directora da DREN, Margarida Moreira. Segundo elas, aquele docente, ia acenando com facilidades nos testes do Dó, Ré, Mi a troco de favores sexuais das suas alunas menores.
Tal como no caso Charrua, o processo corre os seus trâmites nos tribunais.
Mas, e é aqui que radica a minha estupefacção pela flagrante dualidade de critérios, o homem da batuta continua, a dar as suas aulas solfejo a alunos menores, enquanto aguarda pelo julgamento.Escuda-se a mesma Directora da DREN no facto do Juiz de Instrução não haver decidido pela sua suspensão, limitando-se a proibi-lo de contactar as menores objecto dos seus desafinados acordes....
O que não colhe. Ela mesma não esperou por qualquer decisão judicial para suspender o Professor Charrua. E, tenho para mim, que nem há comparação possível entre os delitos de que foram acusados. Se é que o primeiro cometeu algum delito ao manifestar o seu descontentamento pela forma desastrada como este país está a ser governado! Por fazer uso dum direito consagrado em democracia!....
Os casos que venho aflorando e outros que se foram conhecendo e em que aquela senhora deixou bem evidente a partidarização das suas medidas persecutórias, dão-me o direito, e a preocupação, de pensar que estamos a voltar aos tempos das perseguições políticas. Melhor esclarecido ficarei, quando souber da filiação partidária do "sortudo" Professor de Música...
Não que pretenda condenar a Rosa e proteger a Laranja. Não caio nessa esparrela mental: os denunciados de hoje, até poderão vir a ser os acusadores de amanhã.
O que me perturba é esta comichenta sensação de estar, de novo,na eminência de viver tempos de despotismo, arrogância e injustiça e em que se protegem os poderosos e apaniguados, enquanto se perseguem os que o não são.
E, já agora, porque nestas minha divagações os "abusos sexuais" vieram de novo à berlinda, quando poderemos saber dos autores daquela estranha alteração a um preceito do Código Penal que consagrou o "crime continuado", permitindo que esses predadores possam ser punidos por um só crime, mesmo que hajam abusado n vezes da sua vítima?!
Urge essa transparência. Doa a quem doer. Que um Poder de sombras, nunca será farol para um Povo que quer luz!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Crime...digo eu!




Sei que os alarmismos exagerados não são benéficos, nem contribuem para um clima de segurança a que a esmagadora maioria aspira e a que tem direito. Mas assobiar para o lado como nada esteja a acontecer neste país tradicionalmente pacífico, nada resolve ou tranquiliza.
Darem-nos a conhecer estatísticas, tentarem-nos convencer de que os índices da criminalidade estão em rota descendente, mais não podem ser que paliativos reconfortantes, informados que vamos sendo de tudo o que se vai passando por este país fora. Nos grandes centros, mas também, e a um ritmo inusitado, nas cidades, vilas e aldeias do interior.
O que não surpreende. Sabemos, por experiência de vida, que a criminalidade, a violência, aumenta à mesma velocidade em que o custo de vida aumenta e a economia das famílias se degrada.
E este ciclo que atravessamos é, para a grande massa de portugueses, de dificuldades económicas e consequente degradação social, acrescidas!
Sendo certo que não conhecendo daqueles crimes "de colarinho branco", os nebulosos meandros de compadrios e corrupções de grupos e elites instaladas, aconchegados na teia intocável de proteccionismos, sabemos todos dos sucessivos assaltos a multibancos, ourivesarias, viaturas, pessoas, com recurso a violência, alguns com trágicos desfechos e vítimas. Estes, não há como encobri-los do temeroso cidadão: a máquina mediática serve-os às bandejas, todos os santos dias desta terra...
Nada que os responsáveis deste país não saibam e, pressinto, não esperassem, ao enveredarem por esta exacerbada política economicista, sem preocupações sociais.
E se o encerramento de centenas de postos policiais por todo o Portugal e a permissividade de algumas leis recentes (drástica redução das prisões preventivas, seringas nas prisões...) têm essas preocupações economicistas, poderão, por outro lado, ser um sinal claro de que têm o convencimento de que as condições económicas e sociais das pessoas irá em breve melhorar, sei lá se pensando nos dinheiros que estão a chegar e com as grandes obras que estão a programar!...
Continuaremos a esperar.....para ver!
Hoje, há lugares, há bairros estigmatizados por serem os alfobres e abrigo de gangs violentos. É a Cova da Moura, é o Bairro da Bela Vista, é o de Chelas, o do Cerco...e tantos mais. Sem descrer que, pelo que se vai lendo e sabendo, radicarem nos bairros onde o trabalho social do Estado fracassou, não creio que a origem e os focos da criminalidade grupal esteja tão localizada. Por força das condições que dão origem a esses comportamentos desviantes e que já acima apontei. A degradação económica e social reinante está a dispersar-se geograficamente, a mancha alastrou!
Ainda que essas motivações estivessem presentes, bem diferentes seriam as caricaturas, as marcas psicológicas, de muitos dos que, nos idos anos oitenta, se dedicavam ao banditismo armado. Por esses anos, tive essa percepção, era mais a necessidade de fundos para sustentação do vício "maldito", e era mais o ínvio caminho da aventura, tipo desporto radical em gestação, que levava muitos dos jovens a enveredarem pelas perigosas veredas do crime.
É uma imagem de outros tempos que retrato em mais um conto (inspirado em factos reais) que me saiu das teclas há quase duas décadas:
O Toninho da Taiti
Era o Verão de 1967.
Na Avenida de Roma, ao cair quente da tarde, grupos de senhoras, deliciadas nos chilreios pardalescos do parque arborizado, em passada pendular, gastavam os minutos que faltavam para o capricho social do chá-convívio no Salão da zona.
Perto delas, pontapeando vazios cartuchos de pipocas, a criançada acompanhava-as, em jovem alarido.
Não era inédito este quadro no bairro citadino da fadista Lisboa. E até os velhotes, que se espalhavam, sisudos e alquebrados, pelos bancos da avenida, como parte integrante da paisagem, se tinham habituado ao movimento rotineiro daqueles alegres grupos de vizinhos, mais jovens, nas imediações chiques da afamada pastelaria.
Lá ia a D. Cacilda, esposa do terceiro oficial da Conservatória, a D. Jacinta, do Liceu, a D. Amélia, algarvia, e os petizes; toda aquela gente que dava um pouco mais de vida aos olhos já tão vividos dos idosos reformados.
Os maridos, alfacinhas de gema, passariam mais tarde: o Eusébio estava em forma e os Estádios da Luz e Alvalade, ali bem perto, arrebatavam-nos às esposas, naquelas tardes soalheiras.
Entretanto, mais um chá, mais umas torradas - para as senhoras; os filhos, esses preferiam um sorvete fresquinho, enquanto se divertiam, alheios às conversas adultas das mamãs.
- O meu menino....reparem como é vivaço, o meu Toninho! - e a mamã, uma senhora de jeito desinibido, apontava com a última crónica feminina, que apertava entre os dedos bem tratados, um moço dos seus cinco anos, que cabriolava por entre as cadeiras do "TAITI".
- Lá isso é, menina Amélia, o miúdo tem ares de vir a ser um valente rapagão! E a habilidade com que segura a espingarda!...
O Toninho, de pernas arqueadas, em cima da cadeira, por debaixo do televisor, fazia pontaria para os amiguinhos que, colaborantes, simulavam abrigar-se por entre a clientela indiferente.
- Dá-lhe um tiro, mata-o, Toninho! - E o catraio, de peito eriçado na camisa de ganga azul, com os braços espinafrados, à Popeye e fazendo piscas com os olhitos brilhantes junto à coronha plástica da sua última prenda, lá ia disparando rajadas de intenções: tau.....tau.....tau....
D. Amélia, de olhar comovidamente vaidoso, com a mão no braço nu da D. Cacilda, informava a assembleia do chá que era a quarta arma oferecida pelo Alfredo, seu extremoso marido, ao lindo menino.
- Ele agora, vejam lá, não deixa o pai em paz enquanto lhe não comprar uma metralhadora, ou lá o que é, que viu há dias numa montra do Chiado! Não quer outros brinquedos, o diabo do rapaz!....
- Há-de ser um grande homem, menina Amélia!
- Se há-de, menina Jacinta, um grande homem!
- Um grande homem! - exclamou, em uníssono, o embevecido coro.

E os anos foram passando, gastando-se lentamente pelas serras, pelos vales e, também, naquela avenida de betão alfacinha.
Os velhotes do parque eram já outros: em cada Outono que surgia, o vento levava, por entre as folhas secas, mais uma das figuras do grupo crepuscular.
Outras amigas, mais novas, foram engrossando o caudal daquelas damas que desaguava, quase sempre, nas vistosas arcadas do "Taiti".
Mais meninos, outros meninos, continuavam a ser as fiéis sombras das mamãs nos Domingos de chá.
Os de outrora, já com pêlo na venta crescido, haviam-se libertado das asas galináceas das maezinhas.
Os maridos, aqueles, continuavam no cumprimento do seu "sagrado" dever. O Carlos Manuel até estava a fazer umas jogatanas!....
Era o Inverno de 1985. Foi numa fria manhã, mas sem chuva, que as sirenes irritantes de ambulâncias e Policia, agitaram as ruas da cidade. O Saldanha era um mar de gente buliçosa, que se apinhava à porta do Banco.
Pouco antes, um grupo de quatro embuçados, empunhando pistolas metralhadoras dos últimos modelos, haviam feito um "raid" ao Espírito Santo. O assalto, que em parte fora bem sucedido, apesar do roubo se cifrar em poucas centenas de contos, teve o negro saldo de duas vítimas roubadas à vida. Uma foi o caixa, que se recusara a satisfazer as exigências dos assaltantes. A outra foi o marginal que sobre ele disparara, duas vezes, sem piedade. A Policia, que entretanto acorrera, surpreendeu-o a sair do Banco, quando os comparsas se haviam já posto em fuga, recreando-se com mais uns tiros para a montra largo do estabelecimento.
Era um rapaz dos seus vinte e poucos anos, de forte compleição física, botas de tacão alto, com o cabelo negro caído, em desalinho, por sobre o pescoço ensanguentado. Era um desconhecido. Caíra, sob as balas dos agentes da ordem, na borda da sarjeta.
Quem seria?
Horas passadas, os investigadores apenas sabiam que a pesada pulseira de prata que trazia no pulso direito, tinha inscrito o nome "ANTÓNIO". No reverso, lia-se a dedicatória "MÃE AMÉLIA".
O corpo gelado do "pistoleiro" aguardava num dos bocados de frio mármore da Medicina Legal. Quem o iria reconhecer?
Noite alta, depois de várias centenas de pessoas terem desfilado pelo lúgubre corredor, chegou a vez de tão respeitáveis senhoras passarem os olhos curiosos pelos rostos do "ANTÓNIO". E foi reconhecido!
- É o meu Toninho! Que desgraça, meu Deus! Quem matou o meu rico filho?
- Menina Amélia, será possível? O Toninho um assaltante, um assassino? Que desgraça!.... e a trémula Cacilda recolheu nos braços o rosto amargurado da sua amiga.
- Cacilda - sussurrou em voz tíbia aquela sofrida senhora - o meu filho....que eu tão bem eduquei, a quem nunca recusei nada, a quem dava tudo, tudo o que me pedia, o meu filho....que podia ser um Homem!...
- Podia ser um Homem! - murmuravam chorosas as três senhoras, unidas naquela imensa dor.
Podia ser um Homem, o Toninho!



quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Espanto!

A actual Ministra da Educação, em declarações públicas, reconheceu resultados positivos alcançados desde 2004 mercê do aumento de cursos profissionais e da Reforma do Ensino empreendida por David Justino.
O que me espanta nem é tanto a eventual virtualidade das medidas do antigo ministro. Espanta-me, sim, é o facto duma ministra dum governo socialista vir a terreiro tecer loas ao desempenho dum seu antecessor doutro espectro político!
Espanta-me, sobretudo, pelo ineditismo do acto.
Num país em que, após a revolução, vamos assistindo, ciclicamente, os detentores do Poder alijarem a responsabilidade da falácia da sua governação nas medidas tomadas, nos diversos campos, pelos que os antecederam nos centros de decisão, as declarações da senhora ministra só podem mesmo causar espanto.
Numa retrospectiva breve, é fácil assumirmos que, mais do que governarem bem, as preocupações primeiras dos executivos, dos vários quadrantes, sem excepção, tem sido o, já mórbido, descartar o insucesso dos seus exercícios nos que antes passaram por São Bento.
Já provoca náuseas, por tão repetitivo este estratagema! E não devia ser assim! É uma regra miserável que só convence os incautos, os cidadãos menos avisados, que vão sendo administrados por forças partidárias de compadrios e caça-votos, na egoísta procura da satisfação das suas clientelas.
Não se pede que os sucessivos governos, os de ontem, de hoje e de amanhã, percam tempo com inócuos elogios aos que os antecederam, ou que se sintam, estrategicamente, obrigados a reconhecer-lhes os méritos como ora fez a Ministra da Educação. Pede-se, sim, é que governem bem e que, no fim de cada legislatura, nos apresentem resultados palpáveis e o rumo certo para um País que tem sido farto pasto da voracidade de grupos e lobbies. E que, sobretudo, não justifiquem os seus continuados falhanços com os hipotéticos erros de executivos passados, não poucas vezes, chegando ao ridículo de se desculparem com o negro fado dos tempos do homem de Santa Comba!
Só assim a classe política recuperará alguma credibilidade. Só assim um Povo pode confiar e votar, com alguma tranquilidade e sem a desconfiança generalizada, nos timoneiros que se vão perfilando, e falhando, na missão de levarem a bom porto esta velha barca que vai submergindo a custo, de naufrágio em naufrágio!
Mais do que partidos e de políticos comprometidos com clientelas, o que esperamos é gente capaz, competente e honesta, que saiba servir e não servir-se!

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Comedor de sardinhas.


O embaixador de Portugal na Ilha de Sua Majestade, António Santana Carlos, no exercício do seu indiscutível direito de opinião, havia condenado o comportamento dos pais da Maddy ao deixarem sós, no apartamento, os seus três filhos de tenra idade.
Opinião que, aliás, não é só sua: no mesmo sentido, de condenação moral do acto de abandono, se têm manifestado milhares de portugueses e ingleses.
A reacção dos "intocáveis" não se fez esperar.
E chegou com o insulto soez de um colunista do "Mirror"que, encarnando o antigo complexo dos súbditos da Rainha, aconselhou o representante diplomático deste Povinho subserviente, a "manter fechada a sua estúpida boca de comedor de sardinhas".
Sem querer assumir as dores do ofendido, melhor, os odores da sua sardinhada, não deixo de ler mais um sinal da arrogância de quem não se convence que deixou, há muito, enquanto nação, de ser, em muitas vertentes, exemplo para outros povos, passe a tradição dos bons costumes da mais velha democracia do Mundo.
Até porque a pequena Maddy é inglesa, os pais também, só o território da "malvadez" foi o nosso. E ainda nos resta saber da nacionalidade do/s malvado/s..............que até poderão ser vizinhos do colunista inglês, o Lord cozinheiro desta peixeirada!

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Nacala

NACALA é mais uma das acolhedoras portas do Índico, na costa Norte de Moçambique.
É mais uma das muitas histórias de amor de quem nasceu ou viveu em África.

domingo, 28 de outubro de 2007

FLAGRANTES DA VIDA REAL II

Tejo ciumento

Outono de 1980.

A coçada gabardina do Fonseca da Lisnave sacudia pingos de chuva, na paragem do 33. Junto aos carris molhados, era o turbilhão de sempre, ao cair da tarde: gente que passa, chega, vai, sobe e desce, em mais uma hora de ponta do tombar do dia. O turno de serviço do fiel de armazém na Doca da outra margem, chamava-o, naquela Segunda-Feira de Outubro, para mais uma noite de vigília por entre carcaças de barcos envelhecidos. Pelas oito da noite, segurava-se na borda do cacilheiro que, apinhado, rasgava as águas sujas do Tejo, na rotineira procura da outra banda. Era um homem quarentão, o Fonseca, de nariz bexigoso espetado em farto bigode que cofiava, pensativo. No outro lado, esperava-o o Ernesto, companheiro de quinze anos de trabalho nos estaleiros. Considerava-o um bom amigo. Ambos moravam para os lados de Campolide e, pelas tardes de Domingo, beberricavam uns copos no carvoeiro da sua sombria calçada. Com este se abria, como um livro, em confidências íntimas, vendendo ao desbarato parte das suas preocupações. O Ernesto apercebera-se, havia já uns tempos, que o Fonseca não estava muito seguro da fidelidade da sua Rosa, com quem "juntara os trapos", já lá iam uns vinte anos, numa capelinha lá para as frescas verduras do Minho e que lhe dera um bonito pimpolho, hoje um rapagão emigrado. Lia-lhe desconfiança nos olhos sempre que dela falava e intrigava-o o ar taciturno que lhe revestia as feições sempre que alguém aflorava a notória diferença de idades entre ambos. - Cá estou, pá! Pega no saco e dá o fora que o barco pira-se, não tarda muito. - Mas o Ernesto, coçando as madeixas desgrenhadas, com uma ruga crescendo-lhe na fronte larga, media o amigo, sem qualquer pressa em abalar. - Então?! Vais ou não vais? Tens algum problema? - Interrogava o Fonseca, estranhando a demora do amigo. - Olha, Fonseca, é uma gaita...tem calma...o Miguel da taberna telefonou há pouco para te avisar que, lá por volta das nove, apareceu um chavalo à tua porta e entrou abraçado à tua Rosa. - Que merda de gozo é lá esse? Levas é com a brilhantina que vais é brincar com o tio do Camões! - E, com os olhos desorbitados, fulminava o acabrunhado companheiro de trabalho. - É verdade, Fonseca! Pergunta à telefonista, lá em cima...foi ela quem me chamou. Vai lá a casa ver o que se passa que eu faço-te o turno...e tem calma! Mas, também te digo, se aquele Miguel tasqueiro mentiu, mando-o contar ciprestes para o Alto de São João!... E, pouco depois, já o Fonseca rumava para a outra margem, fitando, com raiva muda, as amareladas luzes do Cais Sodré. De cabelo revolto, ele que sempre fora de olhares anatómicos nem sequer dissecava os borrachos que, em pavoneio, se bambaleavam barco fora, com pressa das nocturnas delícias que iam procurar, noite alta, na capital. Toldava-se-lhe a vista e as unhas crispavam-se nas asas da negra sacola pousada entre os joelhos irrequietos. - Eu mato-os... eu esfolo-os, eu.....eu.... - murmurava, aturdido, para a imagem que o vidro húmido lhe devolvia. Ainda o transtejo não havia despejado o Fonseca na doca pombalina e já o Ernesto mergulhava em cogitações de toda a ordem, pesando, agora mais friamente, os hipotéticos reflexos de toda aquela charada na ciumenta cabeça do amigo. E se ele os matasse? Sim, ele que até havia comprado uma pistoleta no Martim Moniz, após, seis meses atrás, haver sido assaltado junto à Fonte Luminosa?! E decidiu fazer qualquer coisa, algo que lhe aplacasse a consciência afogueada pela dúvida. - ........... mas vão depressa, que ele está descontrolado e pode fazer alguma! - A Policia acabava de receber mais um telefonema, semelhante às centenas de solicitações, tantas vezes sem nexo, que lhe chegam fios adentro. E, quando o táxi parou na Calçada do Moinho, ali a Campolide, o Fonseca, em correria desenfreada pelos paralelos molhados, bateu à porta de casa. Uma, duas,....quatro vezes seguidas, com pancadas tão fortes que, por entre as craveiras das janelas vizinhas, assomaram curiosos radares de gentes recolhidas, à espreita da "ressaca". Na taberna em frente, com a porta entreaberta, encavalitavam-se, expectantes, o Miguel e toda a turma da sueca e da ginja. Todos ficaram boquiabertos, suspensos, quando viram o Fonseca de pistola em punho, após derrubar a velha porta com um ruidoso pontapé, irromper pela saleta da entrada, gritando: - Rosa, Rosa, onde estás?... A segunda sapatada foi na porta do quarto, do seu quarto, onde parou na ombreira, de punho espetado, ameaçador. A mulher, recolhida por entre as mantas, com as faces lívidas de susto, olhava o marido, o seu Fonseca, espantada e interrogativa. No canto, de pé, estava um jovem estarrecido, ainda mais perplexo quando viu dois policiais manietarem o desorientado homem. Foi então que, de braços abertos, o rapaz correu para a porta e, envolvendo-o num amplexo sem fim, exclamou, emocionado: - Pai! Querido pai!..... - uma lágrima teimosa deslizava pela face bolachuda do jovem -E venho eu de França, depois de tantos anos, para me receber assim?! Há algum problema? - Ó Jorge, Jorge, meu filho! Que maldita trapalhada, mas que confusão! Podia ser uma desgraça..........

Lá fora, quando os policiais se retiravam pela noite escura, acelerando o aliviado passo, continuava a chover, de mansinho, por sobre os telhados baixos da Calçada....ali a Campolide.

sábado, 27 de outubro de 2007

ÁFRICA, ÁFRICA!

África, sedutora, bela, sonhadora.....África!

VIAGEM PELAS SOMBRAS

Crime Continuado...

Já, muitas vezes, dei por mim a invectivar, intimamente, um ou outro Juiz, por esta ou aquela sentença. Umas vezes, com algum fundamento, outras, acredito, sem fundamento nenhum.
É inexorável: cada um de nós tem dentro de si um julgador, um árbitro sem erros, um magistrado supremo!
Esquecemos, ou nem tanto, nem todos, que não são eles, os juízes, os legisladores, os artífices dos códigos imprescindíveis à vida num Estado de Direito.
Essa função radica noutros órgãos. Cujos membros foram por nós, tantas vezes, cidadãos incautos, livremente eleitos.
Aos juízes cabe, por força do seu mister e estatuto, julgar dentro dos parâmetros das leis instituídas. Concordem ou não com a essência desses diplomas.
E, muitas vezes, não concordarão mesmo, em consciência, no seu cultivado espírito de justiça, com os preceitos que são forçados a aplicar.
É o caso do, já tão badalado, caso do "crime continuado" nas agressões sexuais. Tal como a esmagadora maioria dos comuns cidadãos que se vão pronunciando, também eles, vieram a terreiro zurzir num "pinchavelho" do novo Código que - na prática -, permite que qualquer abusador ou pedófilo empedernido, possa usar e abusar, uma, duas...dezenas, centenas de vezes, duma vítima das suas criminosas taras, sem que lhe seja imputado equivalente número de crimes! Segundo a nova "Tábua das Leis" será punido por um só crime, o tal "continuado".
Tomam-nos por um Povo de papalvos, que o somos muitas vezes, embevecidos por promessas cínicas ou papagaíces espertalhonas, mas não creio que alguém não desconfie da bondade deste preceito. Mais, que não haja entendido o alcance e o alvo!
Pois bem: para que possa ser desarmada essa legítima desconfiança, num Estado em que o Poder se proclama, a cada passo, democrático e transparente, é urgente que a Assembleia Legislativa, dê a conhecer aos cidadãos que elegeram os seus membros, quais os deputados que terão entendido de per si alterar aquele artigo do Código, já depois de haver consenso num texto original!
Urge que quem de direito o faça, para que não continuemos a viajar pelas sombras, pela mão de gente que nos está a desmerecer a confiança.
Como urge louvar a atitude dos Juízes,porque não temos outro caminho fiável que não seja continuar a acreditar na Justiça! Apesar de alguns excessos e não menos brandura e omissões.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

FLAGRANTES DA VIDA REAL

Há pequenos episódios da vida que nos vão deixando pequenas marcas, curtas lições que nos tocam, enquanto sujeitos de emoções, de afectos e sentimentos gregários.
Factos simples, vividos por gente simples. E que, por o serem, numa sociedade que, ao tempo do conto, marchava, em ritmo acelerado, para o individualismo, o solitário andar por entre as Gentes, me impulsionavam a registá-los pela escrita. Duma forma modesta, para gozo do próprio sentir, mas sem olhar para o umbigo.
Reporta aos anos oitenta, a escrita e o tempo da estória, tendo por lugar um dos anéis metropolitanos, nas imediações do betão e do egoísmo galopante.

É, como já confessei, um conto simples de e para gente simples, que não têm o pé além do chinelo:

TOC' Ó BURRO



- Isso é fome ou sono?!... - , interrogou, com gozado sorriso, o meu companheiro de viagem, sem despregar os olhos da estrada de Mafra, com algum trânsito naquela hora.
- O que há-de ser - retorqui-lhe - se já passa da uma da tarde e anda para aqui um bichinho a roer! Ainda falta muito para a Malveira?
- Ainda agora saímos de Torres! .... O melhor é pararmos no primeiro restaurante que aparecer na estrada...
O nome não era muito sugestivo, mas adequava-se àquelas paragens saloias:
"TOC'Ó BURRO". Uma seca imagem de palha de centeio, para um almoço que se desejava farto e suculento...
A sala de jantar era na cave, decorada com o jeito típico daquelas gentes, bem no coração da zona saloia. E, desde a ferrugenta roda de carroça à albarda suja dos burricos, havia de tudo um pouco na decoração das paredes daquela casa, para turista comer.

- Eu quero chispe. Mas com bastante hortaliça, se faz favor!
O homem olhou-me, de semblante pensativo, e foi rabiscando a encomenda num pequeno bloco de notas.
A sala estava pouco concorrida. Três sujeitos, numa mesa central, atiravam-se, com voracidade, a uma farta dose de bacalhau com grão. Num canto, um jovem casal, com ares de estranja, bebericava, palrador, umas coca-colas, não dispensando o baldinho de gelo.
- Cá está! Olhe, vai-me desculpar, o chispe costuma ser servido com feijanito, mas teve que ser com grão, pois a cozinheira não o encontrou...e se eu tenho para aí tanto e do bom! - e continuou, em tom humilde: - sabe, a minha mulher, a alma desta Casa, foi ontem para o Hospital.....é uma chatice!...
E virou as costas, acabrunhado, com o rosto crispado de preocupação.
Na verdade, não obstante a qualidade das instalações e o gosto na típica decoração do "TOC'Ó BURRO", notava-se no ambiente a falta duma mãozinha providencial.
Ocupava-me, com gula mal disfarçada, dum chispe bem guarnecido, quando o nosso hospedeiro se abeirou da mesa, com expressa intenção de auscultar a disposição dos clientes. Antes que dirigisse qualquer pergunta, lancei-lhe uma observação reconfortante, que, valha a verdade, mais não foi que uma "mentirinha" piedosa:
- Afinal, isto está bom! O grão até lhe dá mais paladar!....
- Ah, sabe, eu só lhe disse que e hábito servir o chispe com feijão por o senhor poder voltar e estranhar a diferença. De resto, o grão também é bom....pois!
Mas ninguém precisaria dum canudo em Psicologia para lhe notar o preocupado nervosismo, a agitação interior que o electrizava, mesmo quando, junto à porta que separa a sala de jantar da cozinha, repreendeu, com drásticos modos, os dois miúdos, talvez, seu filhos, que brincavam num pequeno triciclo.
E já passava das duas da tarde quando, no primeiro piso, onde funcionava o Café-Bar do estabelecimento, nos prestámos a pagar os almoços.
- .....olhe, e as melhoras da sua senhora! - Foi o que me ocorreu oferecer ao atarantado hospedeiro, em jeito de lenitiva gorjeta.
Dois meses eram passados. Continuava no bulício da capital, onde tanta gente é sempre tão pouca, onde cada um vive em si e para si, entrincheirado na fortaleza da indiferença e do individualismo.
Aquele, pensava eu, banal episódio, ficara arquivado na pasta do subconsciente, junto aos demais. O "mexe-mexe" do dia a dia - do presente - não permite espaço para outro lugar ou para meditações nas pequenas coisas do ontem...
Descia a Morais Soares, ali ao Chile, procurando furtar-me às cotoveladas impiedosas e apressadas dos passantes que, em formigueiro buliçoso, se atropelavam passeio abaixo, no final de mais um dia de trabalho.
- Amigo, amigo! -, e senti o braço apertado, enquanto travava a marcha. -Não se lembra de mim? Do TOC'Ó BURRO?!
E lembrei-me. Reconheci o nosso casual estalajadeiro, agora sorridente. Ocorreu-me, também, que os miúdos, ao lado, seriam os putos do triciclo, só não me recordava da senhora que o acompanhava.
- Apresento-lhe a minha esposa. Fui buscá-la, hoje, ao Hospital! Felizmente, já está totalmente recuperada! - E os olhos brilhavam-lhe, de satisfação.
Não deixei de mostrar alguma surpresa com a situação. Afinal, não havia passado de mais um entre tantas centenas, milhares, de clientes que frequentavam aquele restaurante! E, até, só lá entrara daquela vez.....
- Olhe, amigo, quero convidá-lo para ir almoçar um dia destes ao TOC'Ó BURRO. Desta vez quem paga sou eu, a cozinheira vai ser a minha mulher e vai comer chispe com feijão!...
- Mas...o senhor ainda está preocupado com isso?! Se até lhe disse que o almoço estava bom!...
- Não está a compreender, meu caro! É que eu sou saloio, mas não sou parvo, nem mal agradecido. O amigo foi a única pessoa, nestes dois tristes e longos meses, e tive milhares de clientes, que se lembrou de desejar as melhoras da minha senhora. E ela aqui está, já restabelecida, como vê!
Fiquei siderado, agradavelmente surpreendido. Não tive oportunidade, até hoje, de voltar a passar por aqueles lados, mas não resisti a narrar este flagrante da vida real.
E ficar a reflectir como, por vezes, uma frase, aparentemente, tão banal, pode despertar humanismos e sentimentos solidários, mesmo que as pessoas sejam "saloias".......

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

2º bloco de imagens do convívio do Parapato

O segundo bloco de imagens do Convívio das Gentes do Parapato (António Enes/Angoche), evento que teve lugar em Mira, nos passados dias 13 e 14 de Outubro.

sábado, 20 de outubro de 2007

Gentes de Moçambique

Não sei se algum dia os sociólogos darão uma cabal explicação para o fenómeno. Mas o facto, bem constatado, é que as gentes que, por alguma forma, estiveram em comunhão com terras moçambicanas, continuam, pelas sete partidas do Mundo, a manterem vivos traços muito próprios da sua vivência . Após a diáspora a que foram sujeitos, deixando, de alma ferida, os lugares onde nasceram e cresceram ou, simplesmente, aprenderam a amar, não cortaram as amarras do Índico e, sobretudo, mantém perenes valores que sempre os distinguiram: a amizade, a solidariedade e o espírito franco e aberto. Ultrapassada que foi a, nem sempre fácil, fase de adaptação a novas terras, novas gentes, num recomeçar de vida nem sempre conseguido e que reporta ao final dos anos setenta e a década de oitenta, aí está o pessoal a conviver de novo. Recordando as origens comuns e a marca indelével dum sentir a vida muito peculiar.

No sucedâneo de encontros, reuniões e convívios que se vão organizando um pouco por todo o Portugal, foi a vez das Gentes do Parapato, pessoal com ramos de vida na região macua de António Enes, hoje Angoche. São delas as imagens que passei para este "clip". E, ao olhá-las, chega-nos, pelo olhar, a certeza de que a alegria se mantém para lá das muitas recordações e alguma justificada saudade!

Parabéns, Parapatenses!

Porreiro, pá!



Depois da secular ligação a África e ao Oriente, não nos restava outra alternativa. A Europa a que, de há muito, passe a nossa saga de emigração, havíamos voltado as costas, era o nosso natural destino político-económico. A nossa adesão à actual União Europeia foi, por isso mesmo, pacífica e quase consensual no nosso espectro político-partidário. Sem jamais nos esquecermos que essa integração plena não passa só por colher dividendos e eternos apoios, cumpre-se o nosso Futuro enquanto nação antiga deste velho continente. Por tudo, também eu, não sinto qualquer pejo em elogiar e reconhecer o trabalho empenhado de Sócrates e da sua equipa (sem esquecer o dinâmico, quiçá primordial, contributo de Durão Barroso)! Foi um bom trabalho, de sapador diplomático em busca dos necessários e imprescindíveis consensos, para a unânime aprovação do Tratado. Só mesmo com essa Carta de compromissos, vinculativa a todos os membros, a União terá mesmo pernas para andar.

É hora, agora, de olhar para dentro e, com o mesmo ânimo, compreender o Povo de que é Governo, com a mesma humildade com que soube relacionar com os seus parceiros europeus, enfrentar os problemas internos, inverter rumos, rectificar injustiças e assumir que, antes de tudo, estão as pessoas, as suas carências e necessidades básicas, estão os legítimos anseios e, sobretudo, a dignidade dos cidadãos deste País, contribuintes líquidos dum Orçamento com poucas preocupações sociais.

É esse o Povo que, sabendo reconhecer-lhe o mérito da vitória europeia, espera não continuar a ser, por incúria e alguma arrogância, sistematicamente, maltratado.

Se assim for, e só assim, lhe diremos um dia:

PORREIRO, PÁ!...

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

GUERRAS....Malditas guerras.....

A Guerra do Ultramar, A Guerra Colonial, A Guerra de Libertação.................Cá fica o vídeo do 1º Episódio, sob o tema debatido no Prós e Contras. Mas, já agora, porque, como era inevitável, o programas, e a sua essência, já está a provocar as naturais e legítimas reacções, vou adiantar algo mais.
No site da Guerra do Ultramar, Colonial ou de Libertação, como lhe queiramos chamar, que eu considero ser o mais completo e abrangente da net, no seu âmbito,(
http://ultramar.terraweb.biz), os diferentes pontos de vista dos ex-combatentes já começaram a evidenciar-se. O que é perfeitamente natural e respeitável.
Só me exasperou a posição de um ou dois dos "comentadores" que, numa visão superficial e redutora, entendeu desancar nos "cantineiros do mato", como se fossem eles os mentores do colonialismo, o odioso de toda aquela guerra!
Eu conheci centenas de cantineiros espalhados pelos lugares mais recônditos do mato de Cabo Delgado. Conheço a vida que levavam, perdendos os anos na solidão da selva (provavelmente, em iguais condições de vida dos militares que por lá passaram dois anos, sem dar um tiro). Sei que, no seu seio, como em tudo, havia gente honesta e desonesta. E sei, também, do quanto, muitos deles, foram mais do que "pais" para os militares que por lá andavam e passavam.
(Seria o mesmo eu, agora, desancar no Jerónimo Martins, Belmiro de Azevedo e quejandos, pelos lucros que auferem nos seus supers e minimercados, culpando-os da crise económica e do aumento do custo de vida que o país atravessa!....)
Como se os verdadeiros "exploradores" e os que mais lucravam com o propalado colonialismo fosse aquela gente, a fazer pela vida, grande parte sem dela usufruirem qualquer qualidade. E sei como, muitos deles, pagaram com a vida e com os seus bens o arrojo de viverem no mato, isolados, longe de tudo e de todos!

Foi motivo bastante para que o meu comentário àquele programa da RTP1 (Prós e Contras) se desviasse do cerne da questão. E saíu-me este, que transcrevo:

Face às avalizadas opiniões já aqui expressas, pouco mais teria a acrescentar, a propósito deste tema. Revejo-me nas perspectivas da maioria dos que me antecederam nos comentários, mormente as opiniões esclarecidas dos primeiro e último intervenientes: o Vitor Baião e o António Cadete. Não deixei foi de, pela leitura que fiz de algumas intervenções aqui postadas, de reforçar a convicção que já ia tendo, passe a assunção de que são respeitáveis todos os pontos de vista pessoais, do divisionismo que grassa no seio dos ex-combatentes, com reflexos, dificilmente sanáveis, nas suas organizações representativas. Esquecemos o essencial, as dificuldades por que, na maioria, passámos e da nossa dádiva à Pátria, quando deviam ficar para outros patamares de discussão a justeza ou injustiça daquela Guerra. Quando, até, se lê por aqui terem sido os "cantineiros" o odioso daquele conflito armado, podemos bem aquilatar do disparate que grassa nas mentes de alguns ex-combatentes. Como se alguém, minimamente informado, pudesse "descobrir" nos cantineiros espalhados pelo mato moçambicano, os verdadeiros colonialistas!... É uma visão redutora, injusta, verter nessa gente o ferrete duma guerra. Como seria, alguém alijar esse labéu naqueles desonestos militares que, sem escrúpulos, vendiam, em proveito próprio, a esses mesmos "cantineiros do mato", o azeite, as batatas, o bacalhau, o gasóleo...destinado à logística das suas unidades! Perdemo-nos com o acessório. O essencial radica, como sempre defendi, que a descolonização era inevitável. Falhou foi, duma forma trágica e lesiva da consciência colectiva, no tempo e no modo, porque, essa inevitabilidade que já todos, ao tempo, reconheceríamos, não pressupunha nem apontava para a forma atabalhoada, sem honra e sem vergonha, como lhe demos desfecho, à revelia do sentir das populações. Sem qualquer pressuposto democrático, num país que, desde o 25A vem enchendo a boca de Democracia. Pior, bem mais humilhante, será a forma aviltante como o Poder instituído, o mesmo que legisla e decide em nome da Pátria, tem tratado os ex-combatentes, os tais que lutaram em nome dessa mesma Pátria (os Poderes mudam, mas a Pátria é a mesma!...), os portugueses de sempre e os que o eram nos territórios hoje independentes e que terceram armas, sofreram e tombaram bem ao nosso lado, fosse qual fosse a pigmentação da sua pele. E, com os divisionismos já atrás aflorados, errando os alvos, estamos claudicando perante aqueles que não sabem, ou não querem, reconhecer a dívida que o Estado tem para com os seus servidores que sofreram, na carne e na alma, no cumprimento de uma missão que a Pátria lhes impôs!

Saudações, combatentes.....todos!

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

CONTO ARQUIVADO

CONCLUSÃO

Já eram quatro da tarde daquele agitado domingo quando o cadáver, após ter sido arrastado até à aldeia, foi carregado por uma dezena de braços fortes na caixa do jipão.
Era o regresso. Antes, porém, ainda no povoado, fora o almoço: frango "à cafreal" com xima de milho e sumo de caju.
Para o Carlos, apesar dos seus insistentes protestos, ia uma cangarra de malákus e um cacho de bananas. Eram pessoas generosas e gratas, os macuas.
- Senhor, eu pode ir? - perguntou o Régulo Matico, rodeado pelo seu povo. - Vai dar-me xicuembo?
Referia-se à gordura que reveste os intestinos do leão. Entre os macuas e, até, parte da colónia de indianos e europeus, havia a convicção ser aquela gordura um excelente remédio para o reumatismo e até doenças do foro íntimo, para além de potente afrodisíaco.
- Mas o leão é vosso, podem fazer dele o que quiserem!...
- Não, senhor é dono. Quem mata é dono, mais ninguém. - atalhou o Sanica, dando a conhecer mais um dos ancestrais costumes dos nativos.
Já o motor do jeep roncava alegre pela picada.
Desta feita, com mais cuidado, não fosse mais uma vez a ponte tecê-las...
Chegaram tarde ao Largo do Posto. Já os miúdos da Missão, de visita à sede administrativa, brincavam, chilreantes, após a cerimónia do arrear da Bandeira.
O Administrador, sentado com a esposa e filhos à sombra duma frondosa buganvília, dirigiu-se-lhes apressado e interrogativo:
- Então, Carlos, que tal a caçada? Já estava preocupado com tanta demora! Oh...mas que grande bicho!... - largou, estupefacto, ao debruçar-se na borda da viatura. - É um grande animal!
Surgem as explicações de toda a ordem, o onde, o quando e como, dão os parabéns, vai chegando mais gente, curiosa. A notícia corre célere e aparecem, também, os europeus da terra: o Fonseca da cantina e a mulher, o Carvalho do algodão e as filhas e pessoal do destacamento militar que ali se encontrava aquartelado por questões de quadrícula, já que não havia, ao tempo, qualquer conflito latente naquela zona.
Todos se encontravam ali mais empenhados em registar na película a sua momentânea comunhão com o senhor da selva. Os de camuflado não perderiam o ensejo para enviarem uma foto de ocasião às suas madrinhas de guerra, saudosas, em Portugal.
Durou horas aquela peregrinação fotográfica, a quebrar a monotonia sertaneja dos pacatos dias de Balama, enquanto o Administrador Barbosa ia passando o tempo a lamentar o exagerado esburacar da pele, que a deixava pouco prestável para a sua desmesurada colecção de curtumes, na tal salgadeira do armazém.
Quanto ao Carlos, esse tivera direito a algumas duras unhas de leão. Se para mais não servissem, ajudá-lo-iam a esgadanhar nos escolhos que se lhe foram deparando na encruzilhada da vida...
Por longos anos se foi falando no Norte de Moçambique do tristemente célebre "Leão dos 16". Triste sorte, negro o fado daqueles macuas, pois antes, então e depois, foram sempre vítimas de leões despudorados, mais carniceiros que aqueles, com jubas de todas as matizes.
E dessas feras, nem Carlos, nem Sanicas, nem Sacuras, os conseguiram livrar...

Quanto ao autor, tendo passado ao papel este seu conto já lá vão muitos anos, só agora ganhou coragem para o compartilhar, menos por preguiça, mais por temor àqueles cartazes que se vão vendo em alguns estabelecimentos de venda de armas e associações de caçadores: "AQUI SE JUNTAM CAÇADORES, PESCADORES, ADVOGADOS....E OUTROS ALDRABÕES...".
Mas vale a pena correr o risco, suplantado pelo testemunho do maravilhoso fascínio das terras moçambicanas, na sua original e genuína natureza!


FIM

terça-feira, 16 de outubro de 2007


CONTO ARQUIVADO
Continuação...
Aproximavam-se já do monte, em cujas fraldas, de vegetação cerrada, estaria o refúgio do leão devorador. Mas nem o Matico, nem alguém da aldeia, sabia indicar ao certo o local, tal a vastidão da área.
- Vamos fazer a batida por bocados, Sanica?
A ideia era dividir toda a zona arborizada, entre a clareira e o monte, por faixas a bater.
Dividiu-se o pessoal: o da batida (a barulhaça) para um lado, os armados para o outro.
Ia começar a festa!
- Nós é melhor ficar ali! - apontava o Sanica para um morro de mochem, abrigo natural para a espera.
Os dois cipaios e o caçador foram-se, também, dispondo na zona.
Já o Carlos sentia um leve tremor no corpo, uns arrepios gélidos num sol escaldante(!), mas que se iam diluindo na azáfama. Tinha a impressão, sentia-o ao fitar os rostos excitados dos outros, que com feras daquela estirpe não se brinca.
Fosse pelos nervos, fosse pela fome, estava em jejum, o cara pálida sentia um palpitar doloroso no estômago, quando se acocorou numa pequena saliência do morro baixo.
Era quase meio dia. Um silêncio sepulcral dominava o ambiente. Nem um leve esvoaçar da passarada, nem o cair duma folha seca, o rastejar furtivo de uma cobra ou a corrida elegante e vaidosa de uma gazela!....
De repente, como o trepidar de fúria louca de uma manada de elefantes rasgando a selva, como o alarido raivoso de mabecos em luta pela posse de um javali, a serra ecoa, o ar sacode-se.
Todos aqueles tambores rufando, latas chocalhando e os sonoros berros das gargantas fortes dos nativos da batida, na outra orla da mata, impressionavam mais que o sapatear raivoso do nosso Parlamento em dias de polémica orçamental ou periodos eleitorais...
A selva tremia, o barulho aumentava, na justa medida em que os batedores iam cruzando a mata em direcção aos emboscados.
Só que já estavam bem perto e não havia sinal do rei da selva. Nenhum disparo soara, até ao momento...
- Ei, Sanica, o gajo não está cá! - diz o Carlos, quebrando a concentrada atenção do cabo, a focar a mata, rígido que nem uma marmota congelada.
- Parece não está, senhor. - sem, contudo, desviar os olhos desorbitados do arvoredo.
E não estava, de facto, naquela faixa. Deu-se o encontro dos dois grupos e leão....nem vê-lo!
Curiosamente, nem um coelho, uma gazela, um javali, nenhum animal passara em frente dos emboscados. A esta contestação do adjunto, observou o caçador, com segura convicção:
- Pois não tem outro bicho, porque leão está perto. Nosso vai encontrar, já viu pegada fresca....
O Carlos, sempre aprendendo, ficou a saber que numa área considerável em redor do palácio do rei leão, não havia lugar para outros animais menores. Os súbditos, amedrontados, fugiam perante a presença ameaçadora do seu despótico amo.
A ser assim, nada estava perdido, tanto mais que havia fortes indícios da presença próxima do devorador.
Ia tentar-se a faixa seguinte. A operação repete-se no terreno.
Desta feita, à falta de outro abrigo, o Sanica sugeriu ao Carlos uma árvore velha de melala bifurcada. Era este o poleiro de espera para o mocunha, com a pele ardendo sob a inclemência do sol do fim da manhã. Por baixo, brilhavam as micas soltas duma ribeira, seca naquela época do ano.
Enquanto esperava, de novo, ia pensando na sua caricata posição, qual ave no choco e deu consigo a conspirar, surdamente, contra o Sanica por lhe ter alvitrado aquele refúgio de abutre medroso. O sacana do cabo pensaria que ele tinha medo?! Mas, intimamente, até se sentia bem posicionado. Do pouco que sabia, os leões não voavam e ali não haveria perigo. Mas não se desvaneceu, de todo, aquele tremor de dedos.
A algazarra recomeçara, ao longe. De novo os tambores, as latas, os apitos, os berros musicais do outro grupo, que se ia aproximando.
De repente, bem ao lado, soa um tiro.
O Carlos, estendido num ramo, redobra de atenção, com a pistola metralhadora pronta a disparar...; tac....tac....tac.... o coração batia-lhe forte, como cavalo em solto galope na pradaria. O suor aumentava-lhe no rosto, o ar rarefazia-se nos pulmões, quando, mesmo por baixo, a uns escassos três, quatro metros, na vertical, o nosso leão, com as patas enterradas na areia, olhava pesadamente para um e outro lado da ribeira, desconfiado. Ouvia-se, nitidamente, a densa respiração da fera, uma bizarma medonha, grande, nutrida.
E agiu, então, como um autómato; a adrenalina tinha-o quase em bloqueio na presença de tão leonina figura! Ensaiou uma duvidosa pontaria na direcção do monstro e disparou uma rajada breve, sem se preocupar com a escolha dos pontos mais vulneráveis. Bastou-lhe divisar a massa enorme do bicho na mira e carregar o gatilho. Era difícil, quase impossível, não acertar, de cima para baixo, àquela distância!
Mas, ao contrário do que pressupunha, aquele não tombou: soltou um urro arrepiante e empreendeu um salto descomunal, embrenhando-se pelo capim alto.
E o nosso jovem manteve-se quieto, mudo e surdo, por uns instantes.
Veio-lhe, depois, um pensamento derrotista: falhara! E saltou da árvore.
Na areia seca, nem um pingo de sangue e ia cogitando como era difícil não lhe ter acertado!...
Procurou o Sanica com os olhos, mas o cabo não estava à vista e continuou a remoer no sucedido, quando troaram mais dois tiros de caçadeira.
- Senhor, já está! O gajo já morreu, tem ali....o caçador Sacura encontrou caído lá..- , gritava o Sanica, entusiasmado.
- Encontrou caído?! Mas não foi ele quem o matou com aqueles dois tiros? - interrogou o Carlos, já bem mais animado.
- Não, senhor - voltou o cabo - o gajo já estava sofrer p'ra morrer, com tiros de senhor adjunto. Sacura deu tiros para segurar ele, que leão ferido fica perigoso mesmo!....
Começou a desvanecer-se aquela sensação amarga de fracasso, Afinal, acertara-lhe!
Quando chegou, com o cabo, junto do animal moribundo, o Sacura fez questão de lhe mostrar os três pequenos furos com que o Carlos o havia atingido na espádua. Só que, como aquele continuava a explicar, aquela zona do corpo é dura, não dá para matar logo, com balas de 9 mm. Ele, sim, atirara como um bom caçador, bem na cabeça do gigante...e os zagalotes desfizeram-lhe o focinho...
Mas já um verdadeiro festim começara: uns cantavam, outros dançavam, fez-se batuque com o rufar dos tambores, vieram mamanas, vieram catraios, um mar de gente fez circulo em volta do odioso assassino.
O novato Carlos sentia-se com tanta e espontânea lisonja, tanto kuerine, tantos beijos de ousada gratidão que as moçoilas lhe iam depositando na face!
Bem real era para aquela gente o fim de um pesadelo e, também, o vingar dos seus mortos: o castigo do criminoso ditado por um código penal escrito pelo sentir do povo e que de pimentel nada tinha.
E a festa continuou ali mesmo, agora com um estranho ritual, que nunca vira: toda aquela gente alinhou em fila e, um por um, ao som de afinado cântico, foram espetando uma lança, passada de mão em mão, na cabeça do bicho.

continua......

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

CONTO ARQUIVADO
(continuação)




- Senhor, tem bom?! - interrogam os olhos arregalados do Sanica, fitando o Carlos como se ele acabasse de fugir das amarras do purgatório.
- Não é nada! -, olhando para trás.
à frente, só via aquela chapa cinzenta, barreira que lhe havia ocultado uns bons dez metros de ponte, estreita, como já vimos.
E o jovem Carlos, com nervosismo comprometido, acabou por se rir, quando perspectivou a frio a ridícula cena que durou segundos e podia ter absorvido anos de vida...
Lá para trás, bem no meio da ponte, os dois cipaios estavam ainda sentados, boca entreaberta, olhando, mudos, as águas impávidas e serenas correndo lá no fundo, a mais de trinta metros! As suas armas estavam tombadas, em desalinho, na caixa da viatura.
E pensou, refeito do susto, como teria sido possível atravessar toda a ponte daquela forma.
- Tens de perguntar ao Mussa como é que ele traz o capô solto! Aquilo não se solta de qualquer maneira! - como se quisesse transferir para o pobre mecânico/desenrasca lá do Posto, a sua aselhice e inexperiência, ali tão evidente.
O Sanica não respondeu e, quando ambos saíram do jeep, olharam ao mesmo tempo para os duendes perdidos na floresta, interrogando-se qual deles plantara aquele providencial jambire no azimute desvairado do carro!...Se não fosse aquela amorosa árvore, esperava-os o abismo profundo, na margem do rio...
Os dois cipaios cuspidos, ainda meio atarantados, atravessavam já o resto da ponte, aconchegando nas cabedulas assustadas as camisas desfraldadas pela queda livre a que viram sujeitos.
- Vamos chovar o carro para trás...
Estavam, então, a uns escassos duzentos metros do povoado, onde acabariam por chegar, aliviados.
Depressa o Carlos esqueceu o acidente, retomando o entusiasmo pela caça que, afinal, ali o levara. Tanto mais que aquela multidão, como há muito não vira, armada de zagaias, pontas de lança, arcos, flechas, catanas, machados, tambores, latas e apitos e todo um sortilégio de instrumentos, lhe lembrava, com certa ironia, as hordas de Viriatos nas serranias da Estrela.
Mas, para além do costumeiro cumprimento, uma vénia mal dobrada, aquela mole humana mantinha-se silenciosa, num descampado dominado por quatro mangueiras ramalhudas onde pontuavam já frutos madurados.
O Régulo Matico adiantou-se ao grupo, juntando-se aos ora chegados, acompanhado de mais três ou quatro elementos, seus conselheiros tribais, e um outro negro, ainda novo, armado de espingarda e era caçador de um europeu de Namuno, e que, casualmente, ali havia acampado e se dispusera a ajudar na caça ao leão.
Formou.se ali mesmo um "conselho da revolução" da caça, em que o Carlos desempenhava a cómoda função de moderador. Reconhecia, intimamente, ser o menos credenciado para ditar estratégias. Mas mostrou-se interessado e participativo e, sobretudo, prestava especial atenção aos experientes alvitres que iam surgindo.
O plano para caçar o leão não era assim tão complicado! Consistia, tão só, em formar uma linha de nativos com os instrumentos sonoros e armas rudimentares, de um lado do hipotético esconderijo da fera, enquanto os elementos com armas de fogo se emboscavam nos previsíveis pontos de fuga. É que o Rei da Selva incomodava-se perante um ajuntamento grande e barulhento, habituado que estava à sua vida de anacoreta da mata silenciosa. E era com passada pachorrenta, com manifesto desprezo, que se virava, abanando a cauda, à arruaça que, do género, se lhe deparasse.
- Está tudo bem, mas onde encontrar agora o bicharoco? - e o Carlos olhava, interrogativo, para os seus pares.
- Nosso sabe, senhor. Garramo tem além! O Matico apontava para a encosta arborizada do planalto, ao fundo, e rematava, decidido: - Tem junto do monte. Nossa gente leva lá.....
- Vamos, então!...
E o pequeno exército pôs-se em marcha pelos carreiros das machambas de mapira alta, de campos de milho com massarocas dourando ao sol brilhante.
Aqui e ali iam ficando faixas rasteiras de amendoim e, mais adiante, fartos cachos de bananas marruce, dependuradas de troncos com larga folhagem.
Representava tudo o que ia vendo a base de subsistência, da vida daquela gente, numa economia mista recolectora/produtora. Não era aquela, ainda, um a sociedade consumista. Era a vitalidade de terra forte, que ofertava os frutos na medida do trabalho de cada um: quase sempre suficientes, sem excedentes, mas sem graves faltas.

(continua em próximo post...)




domingo, 14 de outubro de 2007

CONTO ARQUIVADO
Continuação

- , mocunha, já viu aquele macaco todo?! -e o Sanica ia apontando, com as duas mãos espetadas na janela do carro. - Come a machamba toda!
A uma centena de metros, os mais brincalhões habitantes da floresta, almoçavam lauto banquete: uma refeição gratuita, servida pelo suor dos nativos que, e não só por isso, detestavam a macacada.
O Carlos afrouxou e parou o carro, ensaiando fortes aceleradelas, no intuito de os amedrontar. Os bichos olharam curiosos e, depois de estudarem a situação, continuaram a ladroagem, arrancando á terra, com primata avidez, enormes tarolos de mandioca que devoravam sem cerimónia. Os mais velhos carregavam às costas pequenos filhotes de pêlo azulado, tupilis reguilas, imaturos nos trabalhos de pilhagem.
- Sanica, corre-os a tiro!
O cabo esfregou as mãos contentes, saiu da cabina e....pum!...o macaco mais corpulento tombou, de ventre para o ar, lançando gemidos que confundiram o Carlos. Aquele choro aflitivo tinha qualquer coisa de humano, de súplica desesperada. Com a cabeça entre as patas, como que a rogar clemência, o bicho foi-se virando, lentamente, até que sucumbiu encostado a um ramo de mandioca. Os outros nem vê-los! Haviam fugido para as árvores mais altas e frondosas, onde aguardariam, nervosamente, que os primos, mais inteligentes, mas bem mais maldosos, abalassem.
- Hoje já tens almoço, Sanica!
Este, com um trejeito comprometido, olhou de novo para trás, para a caixa do jeep, onde imaginava já uma negra caçarola bem cheia de saboroso caril de macaco, cozinhado com bastante piri-piri...
- Vou também dar um bocado ao Issufo e ao Jamú! -enquanto acenava com a cabeça na direcção dos dois cipaios que viajavam de pé, na retaguarda, como que prestando honras fúnebres à vitima ensanguentada do seu cabo.
Nem todos os nativos de Moçambique comiam carne de macaco. Faziam-no os macuas, mas, mesmo no seio dessa etnia, só certos nihimos a incluíam no menu.
Porque, até na alimentação, eram diversos os costumes dos numerosos grupos étnicos daquele país. Como o são, adiante-se, as suas crenças, dialectos, personalidade e anseios. Nestes aspectos, Moçambique é uma autêntica manta de retalhos, em que só o espírito de nação, que começa a despontar, e a língua portuguesa são factores de união.
- Ainda falta muito?
- Não, senhor. Depois do rio, além, é mais pouco-pouco. - E o Sanica acompanhava a explicação com um abanar calculista da mão direita, enquanto o sol quente, trémulo de fogo, trepava, apressado e irreverente, pelas vastas escadas do horizonte.
Finalmente, haviam atingido o Lurio. Era um rio pouco caudaloso, mas um viajante longínquo, nascido lá para os contrafortes do Niassa e que deixava, ao passar, uma vegetação luxuriante a embelezar as margens sonhadoras.
Para o atravessar, o Régulo Matico e a sua gente haviam, anos antes, lançado mãos da sua empírica engenharia artesanal: compridos troncos de árvores, dispostos de um lado ao outro do rio, revestidos por esteira, pacientemente urdida por habilidosas mãos, de bambus entrelaçados.
Mas era precisa muita atenção ao efectuar a travessia auto daquela ponte, pois fora idealizada e projectada bem à maneira daquela gente: à exacta medida do carro do administrador e nem mais uns centímetros!...
Ao Carlos, novato naquelas travessias, habituado que estava a outras travessuras, não ocorreu que urgia reduzir a velocidade, para galgar sem problemas os primeiros troncos e...zás, o carro salta, estrebucha, o capô abre-se, corta literalmente a visão....o jeep segue, bate.....e pára!


(Continua em próximo post...)