




E os anos foram passando, gastando-se lentamente pelas serras, pelos vales e, também, naquela avenida de betão alfacinha.
A actual Ministra da Educação, em declarações públicas, reconheceu resultados positivos alcançados desde 2004 mercê do aumento de cursos profissionais e da Reforma do Ensino empreendida por David Justino.
O embaixador de Portugal na Ilha de Sua Majestade, António Santana Carlos, no exercício do seu indiscutível direito de opinião, havia condenado o comportamento dos pais da Maddy ao deixarem sós, no apartamento, os seus três filhos de tenra idade.Outono de 1980.
A coçada gabardina do Fonseca da Lisnave sacudia pingos de chuva, na paragem do 33. Junto aos carris molhados, era o turbilhão de sempre, ao cair da tarde: gente que passa, chega, vai, sobe e desce, em mais uma hora de ponta do tombar do dia. O turno de serviço do fiel de armazém na Doca da outra margem, chamava-o, naquela Segunda-Feira de Outubro, para mais uma noite de vigília por entre carcaças de barcos envelhecidos. Pelas oito da noite, segurava-se na borda do cacilheiro
que, apinhado, rasgava as águas sujas do Tejo, na rotineira procura da outra banda. Era um homem quarentão, o Fonseca, de nariz bexigoso espetado em farto bigode que cofiava, pensativo. No outro lado, esperava-o o Ernesto, companheiro de quinze anos de trabalho nos estaleiros. Considerava-o um bom amigo. Ambos moravam para os lados de Campolide e, pelas tardes de Domingo, beberricavam uns copos no carvoeiro da sua sombria calçada. Com este se abria, como um livro, em confidências íntimas, vendendo ao desbarato parte das suas preocupações. O Ernesto apercebera-se, havia já uns tempos, que o Fonseca não estava muito seguro da fidelidade da sua Rosa, com quem "juntara os trapos", já lá iam uns vinte anos, numa capelinha lá para as frescas verduras do Minho e que lhe dera um bonito pimpolho, hoje um rapagão emigrado. Lia-lhe desconfiança nos olhos sempre que dela falava e intrigava-o o ar taciturno que lhe revestia as feições sempre que alguém aflorava a notória diferença de idades entre ambos. - Cá estou, pá! Pega no saco e dá o fora que o barco pira-se, não tarda muito. - Mas o Ernesto, coçando as madeixas desgrenhadas, com uma ruga crescendo-lhe na fronte larga, media o amigo, sem qualquer pressa em abalar. - Então?! Vais ou não vais? Tens algum problema? - Interrogava o Fonseca, estranhando a demora do amigo. - Olha, Fonseca, é uma gaita...tem calma...o Miguel da taberna telefonou há pouco para te avisar que, lá por volta das nove, apareceu um chavalo à tua porta e entrou abraçado à tua Rosa. - Que merda de gozo é lá esse? Levas é com a brilhantina que vais é brincar com o tio do Camões! - E, com os olhos desorbitados, fulminava o acabrunhado companheiro de trabalho. - É verdade, Fonseca! Pergunta à telefonista, lá em cima...foi ela quem me chamou. Vai lá a casa ver o que se passa que eu faço-te o turno...e tem calma! Mas, também te digo, se aquele Miguel tasqueiro mentiu, mando-o contar ciprestes para o Alto de São João!... E, pouco depois, já o Fonseca rumava para a outra margem, fitando, com raiva muda, as amareladas luzes do Cais Sodré. De cabelo revolto, ele que sempre fora de olhares anatómicos nem sequer dissecava os borrachos que, em pavoneio, se bambaleavam barco fora, com pressa das nocturnas delícias que iam procurar, noite alta, na capital. Toldava-se-lhe a vista e as unhas crispavam-se nas asas da negra sacola pousada entre os joelhos irrequietos. - Eu mato-os... eu esfolo-os, eu.....eu.... - murmurava, aturdido, para a imagem que o vidro húmido lhe devolvia. Ainda o transtejo não havia despejado o Fonseca na doca pombalina e já o Ernesto mergulhava em cogitações de toda a ordem, pesando, agora mais friamente, os hipotéticos reflexos de toda aquela charada na ciumenta cabeça do amigo. E se ele os matasse? Sim, ele que até havia comprado uma pistoleta no Martim Moniz, após, seis meses atrás, haver sido assaltado junto à Fonte Luminosa?! E decidiu fazer qualquer coisa, algo que lhe aplacasse a consciência afogueada pela dúvida. - ........... mas vão depressa, que ele está descontrolado e pode fazer alguma! - A Policia acabava de receber mais um telefonema, semelhante às centenas de solicitações, tantas vezes sem nexo, que lhe chegam fios adentro. E, quando o táxi parou na Calçada do Moinho, ali a Campolide, o Fonseca, em correria desenfreada pelos paralelos molhados, bateu à porta de casa. Uma, duas,....quatro vezes seguidas, com pancadas tão fortes que, por entre as craveiras das janelas vizinhas, assomaram curiosos radares de gentes recolhidas, à espreita da "ressaca". Na taberna em frente, com a porta entreaberta, encavalitavam-se, expectantes, o Miguel e toda a turma da sueca e da ginja. Todos ficaram boquiabertos, suspensos, quando viram o Fonseca de pistola em punho, após derrubar a velha porta com um ruidoso pontapé, irromper pela saleta da entrada, gritando: - Rosa, Rosa, onde estás?... A segunda sapatada foi na porta do quarto, do seu quarto, onde parou na ombreira, de punho espetado, ameaçador. A mulher, recolhida por entre as mantas, com as faces lívidas de susto, olhava o marido, o seu Fonseca, espantada e interrogativa. No canto, de pé, estava um jovem estarrecido, ainda mais perplexo quando viu dois policiais manietarem o desorientado homem. Foi então que, de braços abertos, o rapaz correu para a porta e, envolvendo-o num amplexo sem fim, exclamou, emocionado: - Pai! Querido pai!..... - uma lágrima teimosa deslizava pela face bolachuda do jovem -E venho eu de França, depois de tantos anos, para me receber assim?! Há algum problema? - Ó Jorge, Jorge, meu filho! Que maldita trapalhada, mas que confusão! Podia ser uma desgraça..........
Lá fora, quando os policiais se retiravam pela noite escura, acelerando o aliviado passo, continuava a chover, de mansinho, por sobre os telhados baixos da Calçada....ali a Campolide.

Não sei se algum dia os sociólogos darão uma cabal explicação para o fenómeno. Mas o facto, bem constatado, é que as gentes que, por alguma forma, estiveram em comunhão com terras moçambicanas, continuam, pelas sete partidas do Mundo, a manterem vivos traços muito próprios da sua vivência . Após a diáspora a que foram sujeitos, deixando, de alma ferida, os lugares onde nasceram e cresceram ou, simplesmente, aprenderam a amar, não cortaram as amarras do Índico e, sobretudo, mantém perenes valores que sempre os distinguiram: a amizade, a solidariedade e o espírito franco e aberto. Ultrapassada que foi a, nem sempre fácil, fase de adaptação a novas terras, novas gentes, num recomeçar de vida nem sempre conseguido e que reporta ao final dos anos setenta e a década de oitenta, aí está o pessoal a conviver de novo. Recordando as origens comuns e a marca indelével dum sentir a vida muito peculiar.
No sucedâneo de encontros, reuniões e convívios que se vão organizando um pouco por todo o Portugal, foi a vez das Gentes do Parapato, pessoal com ramos de vida na região macua de António Enes, hoje Angoche. São delas as imagens que passei para este "clip". E, ao olhá-las, chega-nos, pelo olhar, a certeza de que a alegria se mantém para lá das muitas recordações e alguma justificada saudade!
Parabéns, Parapatenses!

Depois da secular ligação a África e ao Oriente, não nos restava outra alternativa. A Europa a que, de há muito, passe a nossa saga de emigração, havíamos voltado as costas, era o nosso natural destino político-económico. A nossa adesão à actual União Europeia foi, por isso mesmo, pacífica e quase consensual no nosso espectro político-partidário. Sem jamais nos esquecermos que essa integração plena não passa só por colher dividendos e eternos apoios, cumpre-se o nosso Futuro enquanto nação antiga deste velho continente. Por tudo, também eu, não sinto qualquer pejo em elogiar e reconhecer o trabalho empenhado de Sócrates e da sua equipa (sem esquecer o dinâmico, quiçá primordial, contributo de Durão Barroso)! Foi um bom trabalho, de sapador diplomático em busca dos necessários e imprescindíveis consensos, para a unânime aprovação do Tratado. Só mesmo com essa Carta de compromissos, vinculativa a todos os membros, a União terá mesmo pernas para andar.
É hora, agora, de olhar para dentro e, com o mesmo ânimo, compreender o Povo de que é Governo, com a mesma humildade com que soube relacionar com os seus parceiros europeus, enfrentar os problemas internos, inverter rumos, rectificar injustiças e assumir que, antes de tudo, estão as pessoas, as suas carências e necessidades básicas, estão os legítimos anseios e, sobretudo, a dignidade dos cidadãos deste País, contribuintes líquidos dum Orçamento com poucas preocupações sociais.
É esse o Povo que, sabendo reconhecer-lhe o mérito da vitória europeia, espera não continuar a ser, por incúria e alguma arrogância, sistematicamente, maltratado.
Se assim for, e só assim, lhe diremos um dia:
PORREIRO, PÁ!...
A Guerra do Ultramar, A Guerra Colonial, A Guerra de Libertação.................Cá fica o vídeo do 1º Episódio, sob o tema debatido no Prós e Contras. Mas, já agora, porque, como era inevitável, o programas, e a sua essência, já está a provocar as naturais e legítimas reacções, vou adiantar algo mais.
No site da Guerra do Ultramar, Colonial ou de Libertação, como lhe queiramos chamar, que eu considero ser o mais completo e abrangente da net, no seu âmbito,(http://ultramar.terraweb.biz), os diferentes pontos de vista dos ex-combatentes já começaram a evidenciar-se. O que é perfeitamente natural e respeitável.
Só me exasperou a posição de um ou dois dos "comentadores" que, numa visão superficial e redutora, entendeu desancar nos "cantineiros do mato", como se fossem eles os mentores do colonialismo, o odioso de toda aquela guerra!
Eu conheci centenas de cantineiros espalhados pelos lugares mais recônditos do mato de Cabo Delgado. Conheço a vida que levavam, perdendos os anos na solidão da selva (provavelmente, em iguais condições de vida dos militares que por lá passaram dois anos, sem dar um tiro). Sei que, no seu seio, como em tudo, havia gente honesta e desonesta. E sei, também, do quanto, muitos deles, foram mais do que "pais" para os militares que por lá andavam e passavam.
(Seria o mesmo eu, agora, desancar no Jerónimo Martins, Belmiro de Azevedo e quejandos, pelos lucros que auferem nos seus supers e minimercados, culpando-os da crise económica e do aumento do custo de vida que o país atravessa!....)
Como se os verdadeiros "exploradores" e os que mais lucravam com o propalado colonialismo fosse aquela gente, a fazer pela vida, grande parte sem dela usufruirem qualquer qualidade. E sei como, muitos deles, pagaram com a vida e com os seus bens o arrojo de viverem no mato, isolados, longe de tudo e de todos!
Foi motivo bastante para que o meu comentário àquele programa da RTP1 (Prós e Contras) se desviasse do cerne da questão. E saíu-me este, que transcrevo:
Face às avalizadas opiniões já aqui expressas, pouco mais teria a acrescentar, a propósito deste tema. Revejo-me nas perspectivas da maioria dos que me antecederam nos comentários, mormente as opiniões esclarecidas dos primeiro e último intervenientes: o Vitor Baião e o António Cadete. Não deixei foi de, pela leitura que fiz de algumas intervenções aqui postadas, de reforçar a convicção que já ia tendo, passe a assunção de que são respeitáveis todos os pontos de vista pessoais, do divisionismo que grassa no seio dos ex-combatentes, com reflexos, dificilmente sanáveis, nas suas organizações representativas. Esquecemos o essencial, as dificuldades por que, na maioria, passámos e da nossa dádiva à Pátria, quando deviam ficar para outros patamares de discussão a justeza ou injustiça daquela Guerra. Quando, até, se lê por aqui terem sido os "cantineiros" o odioso daquele conflito armado, podemos bem aquilatar do disparate que grassa nas mentes de alguns ex-combatentes. Como se alguém, minimamente informado, pudesse "descobrir" nos cantineiros espalhados pelo mato moçambicano, os verdadeiros colonialistas!... É uma visão redutora, injusta, verter nessa gente o ferrete duma guerra. Como seria, alguém alijar esse labéu naqueles desonestos militares que, sem escrúpulos, vendiam, em proveito próprio, a esses mesmos "cantineiros do mato", o azeite, as batatas, o bacalhau, o gasóleo...destinado à logística das suas unidades! Perdemo-nos com o acessório. O essencial radica, como sempre defendi, que a descolonização era inevitável. Falhou foi, duma forma trágica e lesiva da consciência colectiva, no tempo e no modo, porque, essa inevitabilidade que já todos, ao tempo, reconheceríamos, não pressupunha nem apontava para a forma atabalhoada, sem honra e sem vergonha, como lhe demos desfecho, à revelia do sentir das populações. Sem qualquer pressuposto democrático, num país que, desde o 25A vem enchendo a boca de Democracia. Pior, bem mais humilhante, será a forma aviltante como o Poder instituído, o mesmo que legisla e decide em nome da Pátria, tem tratado os ex-combatentes, os tais que lutaram em nome dessa mesma Pátria (os Poderes mudam, mas a Pátria é a mesma!...), os portugueses de sempre e os que o eram nos territórios hoje independentes e que terceram armas, sofreram e tombaram bem ao nosso lado, fosse qual fosse a pigmentação da sua pele. E, com os divisionismos já atrás aflorados, errando os alvos, estamos claudicando perante aqueles que não sabem, ou não querem, reconhecer a dívida que o Estado tem para com os seus servidores que sofreram, na carne e na alma, no cumprimento de uma missão que a Pátria lhes impôs!
Saudações, combatentes.....todos!
Já eram quatro da tarde daquele agitado domingo quando o cadáver, após ter sido arrastado até à aldeia, foi carregado por uma dezena de braços fortes na caixa do jipão.

Mas já um verdadeiro festim começara: uns cantavam, outros dançavam, fez-se batuque com o rufar dos tambores, vieram mamanas, vieram catraios, um mar de gente fez circulo em volta do odioso assassino.
O Régulo Matico adiantou-se ao grupo, juntando-se aos ora chegados, acompanhado de mais três ou quatro elementos, seus conselheiros tribais, e um outro negro, ainda novo, armado de espingarda e era caçador de um europeu de Namuno, e que, casualmente, ali havia acampado e se dispusera a ajudar na caça ao leão.
todo?! -e o Sanica ia apontando, com as duas mãos espetadas na janela do carro. - Come a machamba toda!
Finalmente, haviam atingido o Lurio. Era um rio pouco caudaloso, mas um viajante longínquo, nascido lá para os contrafortes do Niassa e que deixava, ao passar, uma vegetação luxuriante a embelezar as margens sonhadoras.

