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quarta-feira, 17 de outubro de 2007

CONTO ARQUIVADO

CONCLUSÃO

Já eram quatro da tarde daquele agitado domingo quando o cadáver, após ter sido arrastado até à aldeia, foi carregado por uma dezena de braços fortes na caixa do jipão.
Era o regresso. Antes, porém, ainda no povoado, fora o almoço: frango "à cafreal" com xima de milho e sumo de caju.
Para o Carlos, apesar dos seus insistentes protestos, ia uma cangarra de malákus e um cacho de bananas. Eram pessoas generosas e gratas, os macuas.
- Senhor, eu pode ir? - perguntou o Régulo Matico, rodeado pelo seu povo. - Vai dar-me xicuembo?
Referia-se à gordura que reveste os intestinos do leão. Entre os macuas e, até, parte da colónia de indianos e europeus, havia a convicção ser aquela gordura um excelente remédio para o reumatismo e até doenças do foro íntimo, para além de potente afrodisíaco.
- Mas o leão é vosso, podem fazer dele o que quiserem!...
- Não, senhor é dono. Quem mata é dono, mais ninguém. - atalhou o Sanica, dando a conhecer mais um dos ancestrais costumes dos nativos.
Já o motor do jeep roncava alegre pela picada.
Desta feita, com mais cuidado, não fosse mais uma vez a ponte tecê-las...
Chegaram tarde ao Largo do Posto. Já os miúdos da Missão, de visita à sede administrativa, brincavam, chilreantes, após a cerimónia do arrear da Bandeira.
O Administrador, sentado com a esposa e filhos à sombra duma frondosa buganvília, dirigiu-se-lhes apressado e interrogativo:
- Então, Carlos, que tal a caçada? Já estava preocupado com tanta demora! Oh...mas que grande bicho!... - largou, estupefacto, ao debruçar-se na borda da viatura. - É um grande animal!
Surgem as explicações de toda a ordem, o onde, o quando e como, dão os parabéns, vai chegando mais gente, curiosa. A notícia corre célere e aparecem, também, os europeus da terra: o Fonseca da cantina e a mulher, o Carvalho do algodão e as filhas e pessoal do destacamento militar que ali se encontrava aquartelado por questões de quadrícula, já que não havia, ao tempo, qualquer conflito latente naquela zona.
Todos se encontravam ali mais empenhados em registar na película a sua momentânea comunhão com o senhor da selva. Os de camuflado não perderiam o ensejo para enviarem uma foto de ocasião às suas madrinhas de guerra, saudosas, em Portugal.
Durou horas aquela peregrinação fotográfica, a quebrar a monotonia sertaneja dos pacatos dias de Balama, enquanto o Administrador Barbosa ia passando o tempo a lamentar o exagerado esburacar da pele, que a deixava pouco prestável para a sua desmesurada colecção de curtumes, na tal salgadeira do armazém.
Quanto ao Carlos, esse tivera direito a algumas duras unhas de leão. Se para mais não servissem, ajudá-lo-iam a esgadanhar nos escolhos que se lhe foram deparando na encruzilhada da vida...
Por longos anos se foi falando no Norte de Moçambique do tristemente célebre "Leão dos 16". Triste sorte, negro o fado daqueles macuas, pois antes, então e depois, foram sempre vítimas de leões despudorados, mais carniceiros que aqueles, com jubas de todas as matizes.
E dessas feras, nem Carlos, nem Sanicas, nem Sacuras, os conseguiram livrar...

Quanto ao autor, tendo passado ao papel este seu conto já lá vão muitos anos, só agora ganhou coragem para o compartilhar, menos por preguiça, mais por temor àqueles cartazes que se vão vendo em alguns estabelecimentos de venda de armas e associações de caçadores: "AQUI SE JUNTAM CAÇADORES, PESCADORES, ADVOGADOS....E OUTROS ALDRABÕES...".
Mas vale a pena correr o risco, suplantado pelo testemunho do maravilhoso fascínio das terras moçambicanas, na sua original e genuína natureza!


FIM

terça-feira, 16 de outubro de 2007


CONTO ARQUIVADO
Continuação...
Aproximavam-se já do monte, em cujas fraldas, de vegetação cerrada, estaria o refúgio do leão devorador. Mas nem o Matico, nem alguém da aldeia, sabia indicar ao certo o local, tal a vastidão da área.
- Vamos fazer a batida por bocados, Sanica?
A ideia era dividir toda a zona arborizada, entre a clareira e o monte, por faixas a bater.
Dividiu-se o pessoal: o da batida (a barulhaça) para um lado, os armados para o outro.
Ia começar a festa!
- Nós é melhor ficar ali! - apontava o Sanica para um morro de mochem, abrigo natural para a espera.
Os dois cipaios e o caçador foram-se, também, dispondo na zona.
Já o Carlos sentia um leve tremor no corpo, uns arrepios gélidos num sol escaldante(!), mas que se iam diluindo na azáfama. Tinha a impressão, sentia-o ao fitar os rostos excitados dos outros, que com feras daquela estirpe não se brinca.
Fosse pelos nervos, fosse pela fome, estava em jejum, o cara pálida sentia um palpitar doloroso no estômago, quando se acocorou numa pequena saliência do morro baixo.
Era quase meio dia. Um silêncio sepulcral dominava o ambiente. Nem um leve esvoaçar da passarada, nem o cair duma folha seca, o rastejar furtivo de uma cobra ou a corrida elegante e vaidosa de uma gazela!....
De repente, como o trepidar de fúria louca de uma manada de elefantes rasgando a selva, como o alarido raivoso de mabecos em luta pela posse de um javali, a serra ecoa, o ar sacode-se.
Todos aqueles tambores rufando, latas chocalhando e os sonoros berros das gargantas fortes dos nativos da batida, na outra orla da mata, impressionavam mais que o sapatear raivoso do nosso Parlamento em dias de polémica orçamental ou periodos eleitorais...
A selva tremia, o barulho aumentava, na justa medida em que os batedores iam cruzando a mata em direcção aos emboscados.
Só que já estavam bem perto e não havia sinal do rei da selva. Nenhum disparo soara, até ao momento...
- Ei, Sanica, o gajo não está cá! - diz o Carlos, quebrando a concentrada atenção do cabo, a focar a mata, rígido que nem uma marmota congelada.
- Parece não está, senhor. - sem, contudo, desviar os olhos desorbitados do arvoredo.
E não estava, de facto, naquela faixa. Deu-se o encontro dos dois grupos e leão....nem vê-lo!
Curiosamente, nem um coelho, uma gazela, um javali, nenhum animal passara em frente dos emboscados. A esta contestação do adjunto, observou o caçador, com segura convicção:
- Pois não tem outro bicho, porque leão está perto. Nosso vai encontrar, já viu pegada fresca....
O Carlos, sempre aprendendo, ficou a saber que numa área considerável em redor do palácio do rei leão, não havia lugar para outros animais menores. Os súbditos, amedrontados, fugiam perante a presença ameaçadora do seu despótico amo.
A ser assim, nada estava perdido, tanto mais que havia fortes indícios da presença próxima do devorador.
Ia tentar-se a faixa seguinte. A operação repete-se no terreno.
Desta feita, à falta de outro abrigo, o Sanica sugeriu ao Carlos uma árvore velha de melala bifurcada. Era este o poleiro de espera para o mocunha, com a pele ardendo sob a inclemência do sol do fim da manhã. Por baixo, brilhavam as micas soltas duma ribeira, seca naquela época do ano.
Enquanto esperava, de novo, ia pensando na sua caricata posição, qual ave no choco e deu consigo a conspirar, surdamente, contra o Sanica por lhe ter alvitrado aquele refúgio de abutre medroso. O sacana do cabo pensaria que ele tinha medo?! Mas, intimamente, até se sentia bem posicionado. Do pouco que sabia, os leões não voavam e ali não haveria perigo. Mas não se desvaneceu, de todo, aquele tremor de dedos.
A algazarra recomeçara, ao longe. De novo os tambores, as latas, os apitos, os berros musicais do outro grupo, que se ia aproximando.
De repente, bem ao lado, soa um tiro.
O Carlos, estendido num ramo, redobra de atenção, com a pistola metralhadora pronta a disparar...; tac....tac....tac.... o coração batia-lhe forte, como cavalo em solto galope na pradaria. O suor aumentava-lhe no rosto, o ar rarefazia-se nos pulmões, quando, mesmo por baixo, a uns escassos três, quatro metros, na vertical, o nosso leão, com as patas enterradas na areia, olhava pesadamente para um e outro lado da ribeira, desconfiado. Ouvia-se, nitidamente, a densa respiração da fera, uma bizarma medonha, grande, nutrida.
E agiu, então, como um autómato; a adrenalina tinha-o quase em bloqueio na presença de tão leonina figura! Ensaiou uma duvidosa pontaria na direcção do monstro e disparou uma rajada breve, sem se preocupar com a escolha dos pontos mais vulneráveis. Bastou-lhe divisar a massa enorme do bicho na mira e carregar o gatilho. Era difícil, quase impossível, não acertar, de cima para baixo, àquela distância!
Mas, ao contrário do que pressupunha, aquele não tombou: soltou um urro arrepiante e empreendeu um salto descomunal, embrenhando-se pelo capim alto.
E o nosso jovem manteve-se quieto, mudo e surdo, por uns instantes.
Veio-lhe, depois, um pensamento derrotista: falhara! E saltou da árvore.
Na areia seca, nem um pingo de sangue e ia cogitando como era difícil não lhe ter acertado!...
Procurou o Sanica com os olhos, mas o cabo não estava à vista e continuou a remoer no sucedido, quando troaram mais dois tiros de caçadeira.
- Senhor, já está! O gajo já morreu, tem ali....o caçador Sacura encontrou caído lá..- , gritava o Sanica, entusiasmado.
- Encontrou caído?! Mas não foi ele quem o matou com aqueles dois tiros? - interrogou o Carlos, já bem mais animado.
- Não, senhor - voltou o cabo - o gajo já estava sofrer p'ra morrer, com tiros de senhor adjunto. Sacura deu tiros para segurar ele, que leão ferido fica perigoso mesmo!....
Começou a desvanecer-se aquela sensação amarga de fracasso, Afinal, acertara-lhe!
Quando chegou, com o cabo, junto do animal moribundo, o Sacura fez questão de lhe mostrar os três pequenos furos com que o Carlos o havia atingido na espádua. Só que, como aquele continuava a explicar, aquela zona do corpo é dura, não dá para matar logo, com balas de 9 mm. Ele, sim, atirara como um bom caçador, bem na cabeça do gigante...e os zagalotes desfizeram-lhe o focinho...
Mas já um verdadeiro festim começara: uns cantavam, outros dançavam, fez-se batuque com o rufar dos tambores, vieram mamanas, vieram catraios, um mar de gente fez circulo em volta do odioso assassino.
O novato Carlos sentia-se com tanta e espontânea lisonja, tanto kuerine, tantos beijos de ousada gratidão que as moçoilas lhe iam depositando na face!
Bem real era para aquela gente o fim de um pesadelo e, também, o vingar dos seus mortos: o castigo do criminoso ditado por um código penal escrito pelo sentir do povo e que de pimentel nada tinha.
E a festa continuou ali mesmo, agora com um estranho ritual, que nunca vira: toda aquela gente alinhou em fila e, um por um, ao som de afinado cântico, foram espetando uma lança, passada de mão em mão, na cabeça do bicho.

continua......

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

CONTO ARQUIVADO
(continuação)




- Senhor, tem bom?! - interrogam os olhos arregalados do Sanica, fitando o Carlos como se ele acabasse de fugir das amarras do purgatório.
- Não é nada! -, olhando para trás.
à frente, só via aquela chapa cinzenta, barreira que lhe havia ocultado uns bons dez metros de ponte, estreita, como já vimos.
E o jovem Carlos, com nervosismo comprometido, acabou por se rir, quando perspectivou a frio a ridícula cena que durou segundos e podia ter absorvido anos de vida...
Lá para trás, bem no meio da ponte, os dois cipaios estavam ainda sentados, boca entreaberta, olhando, mudos, as águas impávidas e serenas correndo lá no fundo, a mais de trinta metros! As suas armas estavam tombadas, em desalinho, na caixa da viatura.
E pensou, refeito do susto, como teria sido possível atravessar toda a ponte daquela forma.
- Tens de perguntar ao Mussa como é que ele traz o capô solto! Aquilo não se solta de qualquer maneira! - como se quisesse transferir para o pobre mecânico/desenrasca lá do Posto, a sua aselhice e inexperiência, ali tão evidente.
O Sanica não respondeu e, quando ambos saíram do jeep, olharam ao mesmo tempo para os duendes perdidos na floresta, interrogando-se qual deles plantara aquele providencial jambire no azimute desvairado do carro!...Se não fosse aquela amorosa árvore, esperava-os o abismo profundo, na margem do rio...
Os dois cipaios cuspidos, ainda meio atarantados, atravessavam já o resto da ponte, aconchegando nas cabedulas assustadas as camisas desfraldadas pela queda livre a que viram sujeitos.
- Vamos chovar o carro para trás...
Estavam, então, a uns escassos duzentos metros do povoado, onde acabariam por chegar, aliviados.
Depressa o Carlos esqueceu o acidente, retomando o entusiasmo pela caça que, afinal, ali o levara. Tanto mais que aquela multidão, como há muito não vira, armada de zagaias, pontas de lança, arcos, flechas, catanas, machados, tambores, latas e apitos e todo um sortilégio de instrumentos, lhe lembrava, com certa ironia, as hordas de Viriatos nas serranias da Estrela.
Mas, para além do costumeiro cumprimento, uma vénia mal dobrada, aquela mole humana mantinha-se silenciosa, num descampado dominado por quatro mangueiras ramalhudas onde pontuavam já frutos madurados.
O Régulo Matico adiantou-se ao grupo, juntando-se aos ora chegados, acompanhado de mais três ou quatro elementos, seus conselheiros tribais, e um outro negro, ainda novo, armado de espingarda e era caçador de um europeu de Namuno, e que, casualmente, ali havia acampado e se dispusera a ajudar na caça ao leão.
Formou.se ali mesmo um "conselho da revolução" da caça, em que o Carlos desempenhava a cómoda função de moderador. Reconhecia, intimamente, ser o menos credenciado para ditar estratégias. Mas mostrou-se interessado e participativo e, sobretudo, prestava especial atenção aos experientes alvitres que iam surgindo.
O plano para caçar o leão não era assim tão complicado! Consistia, tão só, em formar uma linha de nativos com os instrumentos sonoros e armas rudimentares, de um lado do hipotético esconderijo da fera, enquanto os elementos com armas de fogo se emboscavam nos previsíveis pontos de fuga. É que o Rei da Selva incomodava-se perante um ajuntamento grande e barulhento, habituado que estava à sua vida de anacoreta da mata silenciosa. E era com passada pachorrenta, com manifesto desprezo, que se virava, abanando a cauda, à arruaça que, do género, se lhe deparasse.
- Está tudo bem, mas onde encontrar agora o bicharoco? - e o Carlos olhava, interrogativo, para os seus pares.
- Nosso sabe, senhor. Garramo tem além! O Matico apontava para a encosta arborizada do planalto, ao fundo, e rematava, decidido: - Tem junto do monte. Nossa gente leva lá.....
- Vamos, então!...
E o pequeno exército pôs-se em marcha pelos carreiros das machambas de mapira alta, de campos de milho com massarocas dourando ao sol brilhante.
Aqui e ali iam ficando faixas rasteiras de amendoim e, mais adiante, fartos cachos de bananas marruce, dependuradas de troncos com larga folhagem.
Representava tudo o que ia vendo a base de subsistência, da vida daquela gente, numa economia mista recolectora/produtora. Não era aquela, ainda, um a sociedade consumista. Era a vitalidade de terra forte, que ofertava os frutos na medida do trabalho de cada um: quase sempre suficientes, sem excedentes, mas sem graves faltas.

(continua em próximo post...)




domingo, 14 de outubro de 2007

CONTO ARQUIVADO
Continuação

- , mocunha, já viu aquele macaco todo?! -e o Sanica ia apontando, com as duas mãos espetadas na janela do carro. - Come a machamba toda!
A uma centena de metros, os mais brincalhões habitantes da floresta, almoçavam lauto banquete: uma refeição gratuita, servida pelo suor dos nativos que, e não só por isso, detestavam a macacada.
O Carlos afrouxou e parou o carro, ensaiando fortes aceleradelas, no intuito de os amedrontar. Os bichos olharam curiosos e, depois de estudarem a situação, continuaram a ladroagem, arrancando á terra, com primata avidez, enormes tarolos de mandioca que devoravam sem cerimónia. Os mais velhos carregavam às costas pequenos filhotes de pêlo azulado, tupilis reguilas, imaturos nos trabalhos de pilhagem.
- Sanica, corre-os a tiro!
O cabo esfregou as mãos contentes, saiu da cabina e....pum!...o macaco mais corpulento tombou, de ventre para o ar, lançando gemidos que confundiram o Carlos. Aquele choro aflitivo tinha qualquer coisa de humano, de súplica desesperada. Com a cabeça entre as patas, como que a rogar clemência, o bicho foi-se virando, lentamente, até que sucumbiu encostado a um ramo de mandioca. Os outros nem vê-los! Haviam fugido para as árvores mais altas e frondosas, onde aguardariam, nervosamente, que os primos, mais inteligentes, mas bem mais maldosos, abalassem.
- Hoje já tens almoço, Sanica!
Este, com um trejeito comprometido, olhou de novo para trás, para a caixa do jeep, onde imaginava já uma negra caçarola bem cheia de saboroso caril de macaco, cozinhado com bastante piri-piri...
- Vou também dar um bocado ao Issufo e ao Jamú! -enquanto acenava com a cabeça na direcção dos dois cipaios que viajavam de pé, na retaguarda, como que prestando honras fúnebres à vitima ensanguentada do seu cabo.
Nem todos os nativos de Moçambique comiam carne de macaco. Faziam-no os macuas, mas, mesmo no seio dessa etnia, só certos nihimos a incluíam no menu.
Porque, até na alimentação, eram diversos os costumes dos numerosos grupos étnicos daquele país. Como o são, adiante-se, as suas crenças, dialectos, personalidade e anseios. Nestes aspectos, Moçambique é uma autêntica manta de retalhos, em que só o espírito de nação, que começa a despontar, e a língua portuguesa são factores de união.
- Ainda falta muito?
- Não, senhor. Depois do rio, além, é mais pouco-pouco. - E o Sanica acompanhava a explicação com um abanar calculista da mão direita, enquanto o sol quente, trémulo de fogo, trepava, apressado e irreverente, pelas vastas escadas do horizonte.
Finalmente, haviam atingido o Lurio. Era um rio pouco caudaloso, mas um viajante longínquo, nascido lá para os contrafortes do Niassa e que deixava, ao passar, uma vegetação luxuriante a embelezar as margens sonhadoras.
Para o atravessar, o Régulo Matico e a sua gente haviam, anos antes, lançado mãos da sua empírica engenharia artesanal: compridos troncos de árvores, dispostos de um lado ao outro do rio, revestidos por esteira, pacientemente urdida por habilidosas mãos, de bambus entrelaçados.
Mas era precisa muita atenção ao efectuar a travessia auto daquela ponte, pois fora idealizada e projectada bem à maneira daquela gente: à exacta medida do carro do administrador e nem mais uns centímetros!...
Ao Carlos, novato naquelas travessias, habituado que estava a outras travessuras, não ocorreu que urgia reduzir a velocidade, para galgar sem problemas os primeiros troncos e...zás, o carro salta, estrebucha, o capô abre-se, corta literalmente a visão....o jeep segue, bate.....e pára!


(Continua em próximo post...)

sábado, 13 de outubro de 2007

Lá vai barão...




Hoje, deliberadamente, deixo o leão de Balama, a sinistra personagem do meu Conto Arquivado, a dormitar no fascínio da selva moçambicana, para exteriorizar a síntese das imagens em mim reflectidas do Orçamento de Estado para 2008, prestes a ser discutido em S. Bento.
Sem ser economista ou ter pretensões a analista de Finanças, algo ressalta bem evidente aos olhos leigos de qualquer anónimo e menos avisado contribuinte.
Positivo, arrisco mesmo, louvável, o incentivo proposto, em sede de IRS, para as famílias com filhos a cargo. É uma medida fragmentária, ainda muito insuficiente, mas o passo e o sinal de que urge apoiar a natalidade está dado.
E, porque me sinto com autoridade moral, enquanto responsável por uma família que criou e educou cinco filhos, com escassos ou nenhuns apoios, como sempre defendi, é este o caminho certo para esse desígnio, ao invés de se banalizar, ou fomentar, o aborto, esse abominável "lavar de mãos" que, em consciência, continuo a entender só ser humanamente admissível em casos especiais, já do antecedente tipificados.
Duvidoso, preocupante, é o aumento percentual e relativo a 2007, do orçamento da Presidência do Conselho de Ministros (mais gastos com a imagem e propaganda governamental?), enquanto que o Ministério que tutela a Segurança, uma das áreas mais sensíveis e actuais do nosso País, se vê com um corte nas suas disponibilidades financeiras, quando todos apontavam para o seu reforço. Não é bom augúrio...
Negativo, tal como o já vem sendo nestes últimos anos, é a escalada do IRS para os reformados. Defende o Ministro que se trata de um acto de justiça para com aqueles que ainda trabalham e descontam.
À priori, e em abstracto, todos concordaremos quando os argumentos são colocados nessa perspectiva, só que, não o podemos esquecer, ao longo dos anos, as pensões dos reformados se vão degradando, por força da precariedade do aumento das suas pensões relativamente aos trabalhadores no activo.
Como temos bem presente, julgo que em vigor desde Ferreira Leite, as pensões sofreram um corte efectivo de 10%, o correspondente à quota para a CGA e Segurança Social.
Que o Ministro das Finanças, no mínimo, não invoque justiça e proporcionalidade entre activos e reformados, como pretendeu justificar a medida. Tenha, sim, a coragem de alijar este agravamento, lesivo das bolsas dos que trabalharam uma vida, nas dificuldades com que (todos conhecemos e nem é culpa do Governo) se debate o "cofre" que sustenta os reformados. Mesmo reconhecendo que, na prática, a esmagadora maioria, não chega, pelo curto ciclo de existência que lhe resta no pós-vida activa, a ser ressarcido das quotizações com que contribuiu, no tempo próprio, para esse bolo social.
Que sirva de reflexão os jovens activos e aos vindouros. É o momento certo duma grande opção: confiar na devoradora máquina do Estado para prover da sua "velhice" ou optar, e quanto antes, por ser o próprio trabalhador a gerir, a administrar, a capitalizar, os seus contributos para os tempos da reforma, aplicando, por livre escolha, parte ou a totalidade dessas quotizações obrigatórias?
Quanto ao mais, neste Orçamento, só nos resta "esperar.......para ver"!

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

CONTO ARQUIVADO

(continuação do post anterior)



E a velha fera, bacharel em caça, não se fazia rogada: alta noite, abeirava-se, sorrateiramente, e esgadanhava as unharras na parede frágil da palhota onde se alojavam os catraios da família. E, enquanto os pais dormiam na casa ao lado, a uns escassos dez metros, os miúdos acordavam assustados, gritando pelos "velhos" em desespero. Mas o leão não forçava a entrada. A mãe dos garotos acorria aos gritos aflitivos dos filhos e era recebida pelo leão, de bocarra aberta, que a arrastava, presa nos seus caninos devoradores, para longe, pois o macabro repasto era sempre em recatada sala de micaias, na selva fechada.

Era este o ardiloso estratagema, como já referi, pouco comum no comportamento habitual dos leões, mas utilizado nos casos concretos que o Carlos foi ouvindo com um misto de estupefacção e de medo, enquanto coçava a meia dúzia de pêlos que lhe despontavam no queixo esguio. Que raio! Por aquela é que ele não esperava mesmo! Fora caçador, sim senhores, de pardais descuidados, de melros desaninhados, caídos na sua fisga infantil, mas qualquer cão rafeiro o fazia fugir, hirto de medo, só pelo ladruçar raivoso, quanto mais uma fera daquelas!... Mas não era ele o adjunto do posto, aquela gente não viera até ele procurando ajuda?! Não se sentia no direito de lhes defraudar a expectativa de alívio para os seus males. E lá foi vestindo rija pele de valente, enquanto ia vertendo consoladoras promessas de justiça e vingança nos corações condoídos pela perda de familiares. A seguir, foi vê-lo qual D. Quixote do Índico, a preparar os seus bravos Sanchos e a escolher as armaduras com que havia de partir os dentes ao assassino.

A caçada ia começar....

- Sanica, chama mais dois cipaios. Traz a tua Mauser e vê se o Land-Rover tem gasóleo, e vamos embora!

- Senhor adjunto, o senhor administrador não tem de saber? - lembrou o cabo, em respeitoso reparo.

- Tem, pois é... vai lá dizer-lhe, mas, se estiver a dormir, deixa o recado à senhora ou ao mainato.

Entretanto, o numeroso grupo corria já em direcção ao povoado. Iam dar a nova e preparar toda a gente para a batida. Conhecedores dos caminhos secretos da mata densa, encurtavam muito os cerca de quarenta quilómetros que os separavam do Lúrio.

O Carlos não levava a Mauser, como os cipaios. Não simpatizava com aquela espera-pouco de madeira, muito menos com o seu coice demolidor. Só mais tarde lhe viria a reconhecer vantagem. No momento, preferiu munir-se duma pequena pistola metralhadora FBP que o governo lhe havia distribuído.

Já acomodados no jeep cinzento, o cabo e o adjunto na cabina e os outros dois lá atrás, na caixa larga, passaram pelo barracão do posto, para o abastecimento. Este barracão era um misto de armazém e fábrica de curtumes, um casarão de troncos de umbila e capim seco, onde, por entre tambores de gasóleo e outras mixórdias, se espalhavam as peles que o administrador Barbosa, o grande senhor da terra, ia coleccionando, sabe-se lá se para fazer jus à sua nobre condição de herdeiro do Mouzinho... Brilhantes as de jacaré, pardacentas as de itata, muito valiosas seriam as de leopardo, mas as esteticamente mais sugestivas seriam as das zebras, pelos desenhos artísticos, a duas cores: a escura, dos naturais e a branca, dos europeus.

Num canto do armazém, com as mãos sabujas de unguentos, o negro Magemba, químico de ocasião, amanhava mais uma pele de lince que ia exalando um odor horripilante...

- Não podemos demorar! A esta hora já o Matico com a sua gente está a chegar ao Lúrio...

- Ainda, senhor. Parece agora estão passar Monte Nivato. - resposta pronta do Sanica, com um sorriso sabe-tudo nos lábios gretados pela suruma, enquanto apertava a espingarda contra as cabedulas de caqui branco, domingueiro.

O jipão rosnava forte na picada estreita, cabrito da serra, de pedra em pedra. Estremecia, pulava, parava, acelerava, que o piso de matope esburacado, ondulado, mais parecia o mar encrespado ao largo de Matosinhos. Mas o Land-Rover era uma boa traineira, concebida para sulcar aqueles caminhos improvisados na selva, onde nunca haveriam de chegar os "pidacs" e os "feders" da CEE. Surpreendente era também a resistência daqueles pneus a que nem mossa faziam as constantes mordeduras de troncos salientes, espreitando, disfarçados, nos tufos de capim verde. Uma viagem assim era um verdadeiro exercício físico, ainda mais desgastante que viajar de Aveiro a Viseu na velha automotora da Linha do Vale do Vouga!.....

(continua....)


quinta-feira, 11 de outubro de 2007

CONTO ARQUIVADO

Quinta-Feira! Em passada larga a caminho de mais um fim de semana, vou aproveitar estes dias para um regresso ao passado. É o que procuro fazer, por breves espaços, sempre que o irritante matraquear deste desconsolado presente, me consome a paciência depauperada.
Dou folga às espadeiradas das "Quadraturas do Círculo", esqueço-me do, já enferrujado, bisturi do Tio Marcelo, fecho os olhos ao sorriso alvar das legiões de assessores ministeriais e afasto-me do precipício das minhas miragens do futuro, enquanto este País se vai queimando, em lume brando, no panelão de S. Bento.
Escrevi este "Conto Arquivado" nos anos oitenta, num quadro de memória de factos ocorridos em 1967, naquelas terras africanas, cujo fascínio me viu dar o salto da adolescência descuidada para a preocupada fase adulta. E, enquanto o reescrevo, dou-me conta de como o tempo, voraz e implacável, muda as coisas bem terrenas, sem interferir em sentimentos como a saudade e o prazer:



CONTO ARQUIVADO

Amanheceu depressa aquele Domingo de Outubro, 1967. No Largo do Posto, mal o sol espreitou, bochechudo, por entre os cajueiros da mata, sentavam-se velhos negros, encolhidos nas capulanas de caqui barato. Esperavam, em triste paciência, carpindo para os cipaios madrugadores todas as desventuras da sua noite mal dormida.
- Senhor, tem ali gente com milando grande! - anunciava, solene, no seu jeito sério, o Cabo Sanica, chefe incontestado dos cipaios administrativos da região.
O Carlos, ensonado e digerindo uma agitada sessão de King que se prolongara noite dentro, levantou a esteira da janela baixa e lançou um "já vou" em contrariado bocejo. O Sanica, depois de uns desajeitados e dispensáveis salameleques, foi regressando para junto do grupo.
Carlos era um jovem de 19 anos. Viera, dois anos antes, das serranias beirãs para aquele sertão africano, fascinante e medonho, belo e arrepiante, caixa grande de mistérios que, sonhador, se propusera desvendar. Os negros da área achavam graça àquele "menino branco" idealista, ao seu espírito aventureiro e despreocupado, com quem os mais novos jogavam à bola, qual fruto verde em chão maduro... Mas, talvez por isso, representava, a seus olhos, a rampa de lançamento, através da qual faziam chegar até ao Administrador de Balama a sua nave recheada de lamentações, pedidos e, mal disfarçadas, exigências. Este era já pessoa idosa, vestuta, que eles não ousavam incomodar, quiçá por respeito àquelas barbas majestosas implantadas em sisuda carranca. Era um cabo verdiano letrado, da Ilha de S. Vicente, branco ou crioulo oxigenado, e chefe duma interessante família, pessoas de esmerada educação. Quando o Carlos, ainda esfregando os olhos, foi ao encontro do ajuntamento, por entre um interminável coro de salamas, viu naqueles rostos de ébano um problema maior, bem diferente das choramingas questões a que já o haviam habituado.
- Então o que se passa? O içar da bandeira é só às oito e vocês vieram para aqui tão cedo?! - perguntou, em tom de graça para desenferrujar a língua muda do Régulo Matico, um bondoso preto de carapinha grisalha, figura influente, guia espiritual duma população numerosa e senhor num território tão vasto como o Alentejo. Era admirado pela sua sabedoria e pela verdade com que manifestava os anseios do seu povo, de que era mandatário de linhagem. - Tem garramo muito mau, senhor adjunto, está comer nosso povo! Nosso pede ajuda, está sofrer muito!.... e continuava a explicar-se, o melhor que sabia, no seu português estudado na universidade das suas rugas. Depois, todos foram dando achegas, em alvoroço: que era velho o leão solitário; entrara, noite dentro, numa aldeia do Lúrio e levara a mamana do Jamisse; mas que andava, havia muito tempo, naquela região, pois já havia saciado a sua fome carniceira em dezasseis vítimas...homens, mulheres e crianças....
- Então e só agora vem dizer-nos?!
- Ah, senhor, nosso andava a preparar armadilha, mas aquele garramo não tem bom, não. Ginga, ginga...e não deixa apanhar! - e continuaram todos a descrever as animalescas façanhas da fera.
Pelo que os desventurados negros narravam, não era nada comum o comportamento do bicho. Aqueles métodos manhosos assentavam melhor no leopardo, não no leão, um animal feroz, mas leal na sua agressividade.
Por tradição nativa, antes da imposição dos aldeamentos estratégicos, uma família agrupava-se dispondo em círculo as suas palhotas maticadas, cobertas de capim seco e porta de bambu. Surgiam assim, pela floresta, núcleos habitacionais de quatro, cinco, seis casas, em cujos intervalos brincavam os putos do clã.
Continua em próximo post...

terça-feira, 9 de outubro de 2007

RTP, a velha senhora!

Em estilo telegráfico, as últimas do diferendo RTP/Rodrigues dos Santos:

"RTP: Conselho de Administração anuncia procedimentos legais contra Rodrigues dos Santos. Jornalista acusou-a de passar recados do poder político"

Resta-me aguardar os desenvolvimentos do caso e ficar com a satisfação por saber que nem todos de nós, povo acabrunhado, somos feitos de plasticina...

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Quem não é por mim....

Tudo terá começado quando o Primeiro-Ministro, em reacção ao discurso do P.R. no 5 de Outubro, nos fez saber, de viva voz, que não tem problemas com os professores, mas com os seus sindicatos.
Dúbio e estranho sinal de quem pretende dignificar aqueles profissionais da Educação, como aconselhou o Chefe de Estado!
Se por mais não fosse, Sócrates não se pode esquecer que os sindicalistas são eles também professores e representam os seus associados, uma larga fatia desses profissionais.
Seguindo a sua linha de pensamento, os três mil policias que há dias se manifestaram no Parque das Nações não representaram o descontentamento dos elementos que integram esta força de segurança, no seu todo. Era mais um grupo de comunistas!....
Mas o que me preocupa, seriamente, são os sinais de perigoso autoritarismo que vieram de Montemor-o-Velho, na recepção ao Senhor Engenheiro.
Dois grupos distintos, cada qual pelas suas motivações, o aguardavam: um, aperaltado, de fato e gravata, como convém à adulação, com fartas palmas e convenientes salamaleques; outro, sem traje de cerimónia, exteriorizando toda a sua revolta pelas medidas lesivas de que se sentem vítimas e por repulsa pelas palavras de desconsideração de quem governa.
Mesmo após terem sido despojados de todos os cartazes de protesto, os agentes de autoridade ali presentes, mantiveram-nos, à força, bem distantes do grupo adulador. Não iam armados, para além das armas roucas das suas gargantas, sendo certo que o P.M. tinha a sua segurança pessoal para fazer face a qualquer palmada que lhe acertasse na face sorridente.
Mas....nada de misturas! Quem não era por Sócrates, era contra Sócrates!
E, se estes últimos não batiam palmas nem se prestavam aos tais salamaleques, não tinham o direito de se aproximar de Sua Senhoria!
Dir-me-ão que o ónus dessa medida pouco democrática ficará com o responsável pela manutenção da ordem no local. Cai por terra essa acepção: quem já esqueceu aquele episódio de há anos em que o Marocas, então investido do mais alto cargo da Nação, gritou, de forma agressiva, para os policias que abriam caminho à sua comitiva, ordenando-lhes que se fosse embora?! E eles foram....
Também ficámos a saber que as manifestações de desagrado junto do Senhor Engenheiro são de iniciativa dos comunistas, os tais que quando eu, e muito mais aquele senhor, ainda andava de cueiros, nos diziam "comerem criancinhas ao pequeno almoço". E que eram a causa de todos os males que ocorriam por terras de Santa Maria. Também naqueles tempos, quem não concordasse com o Governo era comunista....
Os comunistas são espantalho para toda a pardalada!
Cabe-me , a mim que nunca alinhei com as propostas de Lenines ou Maos, interrogar: eram só comunistas os manifestantes da Ponte 25 de Abril no caso das portagens e que foi a causa próxima para a deposição de Cavaco Silva? Lembro-me bem que, por entre os manifestantes havia muito pessoal conotado com o partido actualmente no governo, mesmo deputados! Nessa e em muitas manifs, quando o PS não era Governo...
Além do mais - e é isto que o Senhor Engenheiro não vê ou não quer ver -, são só os comunistas os lesados por esta política cerceadora de direitos adquiridos? Das alterações às regras a meio do jogo, com retroactividade só e quando lesa os servidores do Estado e outros trabalhadores? Duma política económica que nos estrangula a bolsa e acelera o desemprego? Duma falência atroz e desumana na Saúde e na Educação? Dum autoritarismo e arrogância que já se não viam desde o tempo do Tio Oliveira?
Pois, não! Mas os culpados são sempre os outros, ou os velhos comunistas ou o defunto de Santa Comba!
Haja bom senso, senhor Primeiro Ministro! Caia em si, arrepie caminho, para bem do povo (em nome de quem governa) e para bem da Democracia, pois, pressinto, que a continuar por esse trilho, não me surpreenderia se em breve o ouvir gritar:
Quem não é pela "Nação" é contra a "Nação"!
Quem não é pelo Governo é comunista!

Há ciclos da nossa História que não gostaríamos de saber reeditados!

domingo, 7 de outubro de 2007

UNIDADE IBÉRICA

Ainda está bem presente aquela senil saramagada da União Ibérica.
É bem verdade que já muitos de nós, naqueles desabafos inconsequentes, fomos deitando da boca para fora que estaríamos melhor se o D. Afonso estivesse quietinho, recatado no calor duma lareira por Guimarães.
Não passam mesmo disso, inócuos ditaites que nos saem por força da situação económica que nos estrangula a magra bolsa, da leviandade trapalhona dos que nos vão (des)governando.
Sobretudo, por sabermos que os nossos vizinhos atravessam um bom momento, por comparação com os restantes países da União Europeia. O poder de compra, a qualidade de vida dos nuestros hermanos não deixa, com toda a naturalidade, de nos causar alguma inveja e amargos de boca. Especialmente, se nos recordarmos que, até aos anos setenta o panorama era o oposto. Nem o Ti Zé, de qualquer tasca de aldeia do Marão a Monchique aceitava as desvalorizadas pesetas.
Eram outros tempos.
Mas, é evidente, como já diria a minha avó "de Espanha nem bom vento, nem bom casamento...". O que me parece, sim, é que, como eu já referi por aqui, a propósito das "equipas mistas anti-ETA", estamos numa fase de aguda subserviência aos desígnios de Espanha, na vertente política e, em especial, na económica. Tudo fruto duma política governativa que duvido nos leve por bons caminhos...

Seja como for: boa vizinhança, sim. Dependência, nunca!

A propósito desta atoarda do Nobel, lembrei-me de que no meu baú tinha um conto com o título "UNIDADE IBÉRICA"!
Escrito em 1975 (ou 76?), inspirado numa realidade da época, mais não foi do que um conto com simbólicas alusões. Hoje, desajustadas.... só no título. Neste ano da Graça de 2007, poderia ser "Unidade Luso-Brasileira" (rsrsrsrsr....).

"Rezava" assim:

UNIDADE IBÉRICA




"Ondas do mar de Vigo


Se viste o meu amigo!


E ai, Deus, se verrá cedo!"




Sonhos antigos enraizados na cepa comum daquela época dos trovadores vagabundos deste pedaço ibérico, desvaneceram-se na onda de nacionalismo feroz dos antigos obreiros da pátria lusa.
Mas, gerações passaram por sobre os túmulos daqueles réis que tanto espetavam a espada nas costas do vizinho, como lhe defendiam a face quando ameaçados por inimigos comuns.
Portugal/Espanha, Espanha/Portugal...
Era este o tema cómico-futurista que desenvolvia em tagarelice amiga com um velho companheiro, após assistirmos a uma sessão legislativa da assembleia mais séria e pacata do velho continente europeu...
Foi então que ele - que não é o Tony Silva -, fez questão de me presentear com "una historiita", um daqueles contos que não ouvíamos todos os dias no "Pão com Manteiga". Uma historieta impregnada de poético animismo.
Era manhã de verão e o sol, internacional, debruçava-se, sorridente, por sobre a raia alcantilada de Caminha, Quintanilha, Badajoz, Ayamonte... Ao longo da secular fronteira, uma manada de vacas secas, magricelas, de sujo pêlo no costado, roía nas urzes ressequidas da nossa banda, sob as vistas do amargurado pastor, com triste flauta, sem melodia nova.
Mas, eis que um dia, no horizonte d'além - no salero do outro lado -, em apelativa miragem, surge um prado verdejante espraiando-se nos seus olhos famintos....e adeus vaquinhas!...
Foram aquelas, outras se seguiram, para contentamento de "nuestros hermanos", apressados em dependurar-lhes dourados chocalhos ao pescoço, com o número - a marca - bem à vista, não fosse o portuga tecê-las.
E, hoje, gordas e luzidias, chocalham pelos mais remotos currais de Espanha, passeiam-se pela fronteira: de cá para lá, de lá para cá, com o estatuto de vacas peninsulares, fonte de fartos lucros para os astutos ganadeiros, pois, como já explicava o livrinho da 4ª classe, as vaquinhas dão-nos o leite, a pele e a carne....
Dos pastores que por cá ficaram, alguns houveram que, saudosos das suas torinas e seus proventos, as seguiram, receosos que o gado tresmalhasse. E por lá andam, também, zurzindo o varapau, que os lobos do outro lado lhes cobiçam a manada.
Preocupado com o devir da nossa economia, ainda arrisquei saber do meu amigo se, com a adesão de Portugal à C.E.E., as manadas regressariam aos campos do País, mas ele limitou-se a encolher os ombros ignorantes: não podia adivinhar o futuro através das espessas nuvens, provocadas por uma depressão cujo epicentro se situa no coração da Europa, mas que afecta, duma forma muito especial e trágica toda a Península Ibérica.
E retomámos a tagarelice inicial, até que, ao deambularmos pela insegura Avenida da Liberdade, à falta de outro motivo, ficámos de nariz no ar, fitando, por muito, muito tempo, o Marquês de Pombal, na sua majestade granítica, solene e decidida!...




sábado, 6 de outubro de 2007

Uma pilula anti-stress

"...quando um homem se põe a pensar...".

É fim de semana. As preocupações, os pensamentos que nos martelam a mente pela crueza da vida, os problemas do quotidiano, as perspectivas pessimistas quanto ao futuro, é bom que fiquem engavetadas....,pelo menos, até Segunda!

O riso é preciso. A boa disposição, também.


Lembrei-me dum dos muitos episódios antigos, verídicos, mas que me induzem bom humor sempre que os recordo.

Este já tem uns bons anos, mas dá-me gozo recordá-lo:




Decorria o Verão de 1982 (?). No passeio adjacente à Esquadra da Policia de Alcântara, a funcionar ali ao lado da Promotora, frente ao Galão, passeavam-se os alfacinhas por ali residentes, gozando um fim de tarde estival de mais um Domingo.
O velho carro patrulha que servia a área rodava, pachorrento, na Rotunda de Alcântara, Avenida de Ceuta fora. Os três policiais iam lançando uns olhares vigilantes pelas escarpas do Casal Ventoso, quando são abordados por um popular que os informa que um burro deambula mais à frente, em plena avenida, perturbando a circulação.
O Diogo, que chefiava a viatura, perante o caricato da situação, já que o animal não seria propriamente um cadastrado e não vislumbrava imediata solução para o caso, procura aconselhar-se junto da Central Rádio do Comando:

- Que faço ao burro?

A resposta ouviu-a, confuso, pelo pequeno emissor/receptor:

- Leve-o para a esquadra e entregue-o ao graduado de serviço!

Dito e feito. Um dos elementos apeia-se da viatura, salta para cima do burrico e, com mansas palmadinhas, vai-o conduzindo pela Rua de Alcântara, em direcção à esquadra.

Por esse tempo, já as novelas brasileiras dominavam a televisão lusa. Sucediam-se os episódios duma telenovela em que era figura proeminente o Perfeito de Sucupira. Dias antes, o Odorico havia decretado o uso de fraldas pelas alimárias.

Enquanto aquele elemento conduzia o jerico, o carro patrulha, na retaguarda, em marcha lenta, tipo escolta, foi seguido por uma pequena multidão, maioritariamente composta por jovens, que não queria perder pitada de cena tão inédita, e que davam àquele quadro um ar festivaleiro.

E foi assim que o burrico, já no Largo do Calvário, após largar dois ou três zurridos nervosos, foi preso a uma acácia, bem junto à sentinela policial, por entre gargalhadas sonoras de passantes e dos frequentadores dos bares da zona, que iam clamando:

- Foi apanhado sem fralda!...

- Vai pagar a multa, que é para não ser burro!...

- O Governo Civil também decretou a cueca!....

E não faltou quem o alimentasse, à fartazana. Até a pastéis de nata teve direito, tão ilustre presidiário!

E era já noite quando o dono, entretanto detectado, depois de um afago amigo no cachaço do bicho, o levou Calçada da Tapada acima.

E lá foram os dois abanando as orelhas, cada qual pelas suas razões....

sexta-feira, 5 de outubro de 2007



MERIDIANO JUDEU (conclusão)



O Kremlin que, com o seu oportunismo, já por demais evidenciado, sempre tentara ganhar a simpatia dos árabes, não teve pejo em oferecer o seu apoio ao Mufti de Jerusalém, o mesmo que havia celebrado uma Aliança com Berlim e o Eixo!...
Mas, o plano da criação do Estado Judaico, aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, que mais não teria que ratificar uma situação já com forma concreta, facto consumado, irreversível, não resolveu de per si o problema do Povo mártir.
A Liga Árabe, filha parida dos ingleses, a mesma que hoje acusa os israelitas de opressores, anunciou ameaçadora "carnificina como não se assistia desde as invasões mongóis", não respeitando a deliberação do organismo internacional a quem Hoje clama por justiça e a quem solicita apoio.
Os árabes invadiram Israel, de imediato e em várias frentes, iniciando uma provocação que vêm perseguindo há décadas, cujos desígnios só a inesperada e enérgica reacção dos israelitas tem gorado.
Os exércitos árabes invasores, pavoneando-se na certeza duma vitória fácil, exortam os habitantes árabes a abandonarem a zona de conflito, para, alegadamente, melhor executarem o plano de "esmagamento" dos judeus.
E aqui está o cerne do problema dos refugiados árabes, bandeira que os pró-petróleo agitam e com que justificam o terrorismo (Massacre de Munique, raptos, sabotagens, sequestros de aviões....). Os árabes, mesmo com a força dos seus petro-dólares, não conseguiram resolver o problema dos seus próprios refugiados, nada de palpável tendo feito para melhorar a sua sorte. Os israelitas, com uma terra brava e inóspita nas mãos, debatendo-se não só com os problemas próprios dum jovem estado, gastando grande parte das suas energias na sua própria defesa, souberam acolher e dar vida a 500.000 judeus expulsos dos territórios árabes! Eis a questão, eis a diferença.
Nada tenho contra os árabes, nem incriminá-los foi o objectivo deste escrito, tanto mais que a alguém mais responsável caberão as culpas, mas também não podemos fechar os olhos ao extremado radicalismo de algumas das suas franjas, na cegueira fundamentalista dos que, no seu seio, se recusam ao diálogo e ao respeito pelos acordos que os mais lúcidos vão assinando!

Pessoalmente, sou dos que acreditam que os Judeus não são tão maus como os "pintam"!
E a minha nova vizinha já não chama "judeu" ao meu filho, quando ele pratica uma das suas malandrices.
Pensando bem, de judeus temos todos um pouco, nesta vida difícil que se nos depara a cada passo, aqui e por esses cantos do Mundo onde a alma lusa se viu obrigada a viver, para existir.

Com algumas alterações pontuais, escrevi este texto em 1979. Não sei se, passados todos estes anos, o escreveria com outros cambiantes.

A propósito: fiquei maravilhado com as imagens deste sítio. Voltarei a passar por lá, estou certo. - http://www.cityofdavid.org.il/index.html


MERIDIANO JUDEU (continuação)
E foi no século "das luzes", em 1881, que tiveram lugar na Rússia os primeiros "pogroms" - ataques, pilhagens e massacres nas aldeias de judeus -, perpetrados por multidões impelidas, ou consentidas, pelos próprios governantes. Outros se seguiram, por diversas terras, numa perseguição tão implacável como criminosa.
Insustentável era a vida para gente tão, raivosamente, maltratada.
Algo começou a germinar no humilhado coração do Povo Judeu. Os jovens sentiram o despertar nacional, a esperança alastrou pelos espíritos crentes, em febril ânsia duma pátria e essa só podia ser mesmo a bíblica Palestina.
Surge em França o caso "Dreyfus", oficial judeu do Estado Maior, degredado, e aquela França, bastião maior da justiça e igualdade, grita histericamente pelas ruas: "Morte aos Judeus"!
Theodor Herzl, um jornalista judeu que assiste a mais esta perseguição de seu povo, sente no peito a ferroada dolorosa da discriminação e serve-se, sem esmorecimento, da sua faculdade de brilhante escritor par alertar o Mundo, apresentando o problema judaico à opinião pública internacional. Se não foi Herzl o inventor do sionismo, que teve muitos precursores, coube-lhe o mérito de ser o primeiro a atrair a atenção mundial, discutindo aberta e corajosamente as causas do anti-semitismo.
Já, então, ondas de imigrantes procuravam a Palestina. De novo, a Terra Prometida! Entre eles, nos primeiros anos do séc. XX, ia David Ben Gurion, figura bem conhecida e que viria a ser o primeiro Presidente do Conselho da Nação Judaica.
A Língua hebraica que se não perdeu pelos confins do Mundo, foi o pólo de fusão dos judeus numa sociedade unificada, já que nunca deixara de ser para eles o dialecto da sua civilização, já que as suas orações eram rezadas nesse idioma.
Quando deflagrou a Primeira guerra Mundial, já os judeus haviam criado imensas povoações por terras da Palestina, perante a indiferença e descrença de muitos que, na Europa, julgavam irrealizável o sionismo.
Também aí surgiram as provações. Os otomanos não sucumbiram sem antes se voltarem contra os judeus, qual leão ferido que, em agonia, reúne as últimas energias para dilacerar quem estiver à sua volta. Mas, apesar de todas as contrariedades, era já um facto a fixação dos judeus na Palestina. E a Inglaterra compreendeu-o ao publicar a "declaração Balfour", reconhecendo o sionismo, em 211/1917. Talvez por isso, a Liga das Nações confiou à Grã-Bretanha o mandato daquelas paragens.
A administração britânica não quis, ou não conseguiu, satisfazer as aspirações judaicas: quando se esperava que os beneficiassem, adoptou uma política ambígua, favorecendo os árabes que, de início, se não haviam oposto ao sionismo e que, por força das "engrenagens" estrangeiras, vieram a ser seus inimigos declarados.
Muito longe estava a paz para o Povo Judeu. Na Europa, o sofrimento era constante e culminou no horrendo massacre de seis milhões (mais de metade da actual população portuguesa), de homens, mulheres e crianças, que Hitler, por loucura(?), entendeu não terem direito à vida por razões de descendência ou raça.
E, mesmo após aquele terrível holocausto, a Grã-Bretanha, já então em descarado namoro com os árabes (petróleo e interesses económicos a quanto obrigam!...), recusava aos sobreviventes da chacina nazi a entrada na Palestina.
Só a força inquebrantável dum Povo que procurava um modo de estar no Mundo foi vencendo os obstáculos.
E até a União Soviética, ciosa que era do domínio britânico no Médio Oriente, que temia ver perpetuado, e, talvez, só por isso, votou a favor da criação de Israel.


Continua em próxima postagem...





quinta-feira, 4 de outubro de 2007

MERIDIANO JUDEU

Surpreendeu-me aquele acto de macabros contornos perpetrado por dois garotelhos no cemitério Judeu, em Lisboa.
Tenho por estes grupinhos de "canalha brava", de mentes intoxicadas por doentios ideais(?), o mesmo asco que nutro por aqueles outros, com ideais(?) diversos, mas da mesma estirpe violenta e radical, que partiram montras na Baixa de Lisboa e destruíram o campo de milho no Algarve.
São, como diz o Povo "farinha do mesmo saco". Servem obscuros interesses de quem se aproveita da congénita irreverência juvenil para alimentar movimentos que não querem ou não sabem integrar-se em Sociedades democráticas, de diálogo e tolerância. Não passam de joguetes irresponsáveis acicatados por desviantes sinais de ódio e violência gratuitos.
Algum ódio de estimação que ainda perpassa por larga franja de europeus não é novo. Tem raízes em momentos históricos do Passado que, o bom senso e o Humanismo de Hoje, não podem permitir que se prolongue ou repita.


Sobre os Judeus, já em 6/1/1979 - já lá vão quase 30 anos -, escrevia assim:


MERIDIANO JUDEU

- Ah grande judeu! - Acabava de praticar uma das minhas infantis patifarias e a minha vizinha, velhota, de regresso da missa dominical, não perdoava: - És um grande judeu!...
Muitos anos ainda aquela senhora, madrinha do acaso, me foi chamando pelo nome estranho que, ao tempo, entendia por "mau", "velhaco", ou carícia semelhante.
Judeu! Quanto não se viria, depois, a falar e escrever desses judeus, em grandes títulos, pelos jornais que, aos Domingos, corria a comprar ao Vouguinha, o comboio do meio-dia, conhecido por "Expresso do Vouga", pela módica quantia de oito e dez tostões! Judeus que, para surpresa minha, eram, afinal, Gente!...
Hoje, no emaranhado da teia política de ocasião, entrechocam-se pontos de vista e dividem-se critérios, entre pensamentos de lógica e as mentes da paixão. Uns admiram-nos, outros os odeiam, os primeiros compreendem a sua actuação, os segundos os amaldiçoam.
Mas, a realidade não é coisa falível, nem sujeita às variações sentimentais e os Judeus são mesmo uma Nação, com Povo e território ciosamente seu, lutando para que os deixem viver.
No Mundo contemporâneo, quando tantos, por tantos lugares da Terra, exalam odores demagógicos de bebedeiras de humanismo, igualdade, solidariedade, a que vamos assistindo? Qual o procedimento, a actuação concreta de muitos países que, em verborreias de ódio destilado em alambiques de imundos interesses, acenam a cada passo com o perigo do fantasma nazi que foi, de facto, o inimigo mais atroz dos judeus. Qual é, pois, a sua genuína posição em relação ao problema israelita?
Proclamado em Maio de 1948, o Estado de Israel, onde vive hoje mais de 20% do povo judeu, encarnação e vivência física do sionismo, foi o abrigo, por direito merecido, para o grupo humano mais maltratado da História. E que jamais teria nascido se não fosse a força, a persistência das tradições judaicas, inspiradas na Bíblia. Foi mesmo a herança espiritual dos seus antepassados que permitiu a sobrevivência dum povo retalhado que, por paradoxo, os "guetos", nome originário dos bairros judeus de Veneza do séc. XVI, ajudaram a preservar.
Até alcançarem aquela meta, por que tanto sofreram e lutaram, os judeus tiveram uma vida agitada, desde há muitos séculos, e nem a Revolução Francesa, fonte indiscutível de humanismo e liberdade, conseguiu que fossem cidadãos livres, de plenos direitos, em todas as nações.
Lançados pela velha Europa, após a expulsão dos árabes da península Ibérica, onde também se acolhiam, foram vivendo ao sabor dos caprichos de monarcas e chefes de estado que raro os encaravam com benevolência.
Assim, mesmo após a sua proclamada emancipação, coincidente com a revolução Industrial, na maioria dos países onde se radicaram, a Europa de Leste, ainda czarista, manteve os guetos, não permitindo o livre acesso dos judeus às cidades mais importantes.


Continua em próxima postagem.....