




E a velha fera, bacharel em caça, não se fazia rogada: alta noite, abeirava-se, sorrateiramente, e esgadanhava as unharras na parede frágil da palhota onde se alojavam os catraios da família. E, enquanto os pais dormiam na casa ao lado, a uns escassos dez metros, os miúdos acordavam assustados, gritando pelos "velhos" em desespero. Mas o leão não forçava a entrada. A mãe dos garotos acorria aos gritos aflitivos dos filhos e era recebida pelo leão, de bocarra aberta, que a arrastava, presa nos seus caninos devoradores, para longe, pois o macabro repasto era sempre em recatada sala de micaias, na selva fechada.
Era este o ardiloso estratagema, como já referi, pouco comum no comportamento habitual dos leões, mas utilizado nos casos concretos que o Carlos foi ouvindo com um misto de estupefacção e de medo, enquanto coçava a meia dúzia de pêlos que lhe despontavam no queixo esguio. Que raio! Por aquela é que ele não esperava mesmo! Fora caçador, sim senhores, de pardais descuidados, de melros desaninhados, caídos na sua fisga infantil, mas qualquer cão rafeiro o fazia fugir, hirto de medo, só pelo ladruçar raivoso, quanto mais uma fera daquelas!... Mas não era ele o adjunto do posto, aquela gente não viera até ele procurando ajuda?! Não se sentia no direito de lhes defraudar a expectativa de alívio para os seus males. E lá foi vestindo rija pele de valente, enquanto ia vertendo consoladoras promessas de justiça e vingança nos corações condoídos pela perda de familiares. A seguir, foi vê-lo qual D. Quixote do Índico, a preparar os seus bravos Sanchos e a escolher as armaduras com que havia de partir os dentes ao assassino.
A caçada ia começar....
- Sanica, chama mais dois cipaios. Traz a tua Mauser e vê se o Land-Rover tem gasóleo, e vamos embora!
- Senhor adjunto, o senhor administrador não tem de saber? - lembrou o cabo, em respeitoso reparo.
- Tem, pois é... vai lá dizer-lhe, mas, se estiver a dormir, deixa o recado à senhora ou ao mainato.
Entretanto, o numeroso grupo corria já em direcção ao povoado. Iam dar a nova e preparar toda a gente para a batida. Conhecedores dos caminhos secretos da mata densa, encurtavam muito os cerca de quarenta quilómetros que os separavam do Lúrio.
O Carlos não levava a Mauser, como os cipaios. Não simpatizava com aquela espera-pouco de madeira, muito menos com o seu coice demolidor. Só mais tarde lhe viria a reconhecer vantagem. No momento, preferiu munir-se duma pequena pistola metralhadora FBP que o governo lhe havia distribuído.
Já acomodados no jeep cinzento, o cabo e o adjunto na cabina e os outros dois lá atrás, na caixa larga, passaram pelo barracão do posto, para o abastecimento. Este barracão era um misto de armazém e fábrica de curtumes, um casarão de troncos de umbila e capim seco, onde, por entre tambores de gasóleo e outras mixórdias, se espalhavam as peles que o administrador Barbosa, o grande senhor da terra, ia coleccionando, sabe-se lá se para fazer jus à sua nobre condição de herdeiro do Mouzinho... Brilhantes as de jacaré, pardacentas as de itata, muito valiosas seriam as de leopardo, mas as esteticamente mais sugestivas seriam as das zebras, pelos desenhos artísticos, a duas cores: a escura, dos naturais e a branca, dos europeus.
Num canto do armazém, com as mãos sabujas de unguentos, o negro Magemba, químico de ocasião, amanhava mais uma pele de lince que ia exalando um odor horripilante...- Não podemos demorar! A esta hora já o Matico com a sua gente está a chegar ao Lúrio...
- Ainda, senhor. Parece agora estão passar Monte Nivato. - resposta pronta do Sanica, com um sorriso sabe-tudo nos lábios gretados pela suruma, enquanto apertava a espingarda contra as cabedulas de caqui branco, domingueiro.
O jipão rosnava forte na picada estreita, cabrito da serra, de pedra em pedra. Estremecia, pulava, parava, acelerava, que o piso de matope esburacado, ondulado, mais parecia o mar encrespado ao largo de Matosinhos. Mas o Land-Rover era uma boa traineira, concebida para sulcar aqueles caminhos improvisados na selva, onde nunca haveriam de chegar os "pidacs" e os "feders" da CEE. Surpreendente era também a resistência daqueles pneus a que nem mossa faziam as constantes mordeduras de troncos salientes, espreitando, disfarçados, nos tufos de capim verde. Uma viagem assim era um verdadeiro exercício físico, ainda mais desgastante que viajar de Aveiro a Viseu na velha automotora da Linha do Vale do Vouga!.....
(continua....)
- Senhor, tem ali gente com milando grande! - anunciava, solene, no seu jeito sério, o Cabo Sanica, chefe incontestado dos cipaios administrativos da região.
Quando o Carlos, ainda esfregando os olhos, foi ao encontro do ajuntamento, por entre um interminável coro de salamas, viu naqueles rostos de ébano um problema maior, bem diferente das choramingas questões a que já o haviam habituado.
- Tem garramo muito mau, senhor adjunto, está comer nosso povo! Nosso pede ajuda, está sofrer muito!.... e continuava a explicar-se, o melhor que sabia, no seu português estudado na universidade das suas rugas. Depois, todos foram dando achegas, em alvoroço: que era velho o leão solitário; entrara, noite dentro, numa aldeia do Lúrio e levara a mamana do Jamisse; mas que andava, havia muito tempo, naquela região, pois já havia saciado a sua fome carniceira em dezasseis vítimas...homens, mulheres e crianças....
Tudo terá começado quando o Primeiro-Ministro, em reacção ao discurso do P.R. no 5 de Outubro, nos fez saber, de viva voz, que não tem problemas com os professores, mas com os seus sindicatos.
Ainda está bem presente aquela senil saramagada da União Ibérica.

A resposta ouviu-a, confuso, pelo pequeno emissor/receptor:
- Leve-o para a esquadra e entregue-o ao graduado de serviço!
Dito e feito. Um dos elementos apeia-se da viatura, salta para cima do burrico e, com mansas palmadinhas, vai-o conduzindo pela Rua de Alcântara, em direcção à esquadra.
Por esse tempo, já as novelas brasileiras dominavam a televisão lusa. Sucediam-se os episódios duma telenovela em que era figura proeminente o Perfeito de Sucupira. Dias antes, o Odorico havia decretado o uso de fraldas pelas alimárias.
Enquanto aquele elemento conduzia o jerico, o carro patrulha, na retaguarda, em marcha lenta, tipo escolta, foi seguido por uma pequena multidão, maioritariamente composta por jovens, que não queria perder pitada de cena tão inédita, e que davam àquele quadro um ar festivaleiro.
E foi assim que o burrico, já no Largo do Calvário, após largar dois ou três zurridos nervosos, foi preso a uma acácia, bem junto à sentinela policial, por entre gargalhadas sonoras de passantes e dos frequentadores dos bares da zona, que iam clamando:
- Foi apanhado sem fralda!...
- Vai pagar a multa, que é para não ser burro!...
- O Governo Civil também decretou a cueca!....
E não faltou quem o alimentasse, à fartazana. Até a pastéis de nata teve direito, tão ilustre presidiário!
E era já noite quando o dono, entretanto detectado, depois de um afago amigo no cachaço do bicho, o levou Calçada da Tapada acima.
E lá foram os dois abanando as orelhas, cada qual pelas suas razões....

Com algumas alterações pontuais, escrevi este texto em 1979. Não sei se, passados todos estes anos, o escreveria com outros cambiantes.
A propósito: fiquei maravilhado com as imagens deste sítio. Voltarei a passar por lá, estou certo. - http://www.cityofdavid.org.il/index.html
E, mesmo após aquele terrível holocausto, a Grã-Bretanha, já então em descarado namoro com os árabes (petróleo e interesses económicos a quanto obrigam!...), recusava aos sobreviventes da chacina nazi a entrada na Palestina.

e outros que postei no SAPO: (Clique, p.f)

Não é pacífica a doutrina do novo Código de Processo Penal, já em vigor. Para gláudio dos que fazem modo de vida "tramar" os outros (p. ex. o Cabo Costa e o brasileiro Marcos, assassino dos polícias na Amadora...) e desespero das vítimas, a nova Lei Penal surge envolta em incandescente polémica. Disso fazem eco comentadores e especialistas na área da Justiça.
Área da Justiça que tem ao leme um supremo Ministro, um dos "heróis" desertores da "Guerra Colonial" que, vendo partir os camaradas, preferiu colocar o próprio "canastro" a salvo. O que até poderá nada significar para a questão ora aqui aflorada....
O nosso P.R. aconselha-nos a "esperar para ver". Por mim, e a crer nas pérolas legislativas com que as ostras do Poder nos vão presenteando nos últimos tempos, nada de bom auguro. Pior, espero, sem o desejar, o agravamento da propalada inoperância dos nossos Tribunais - de que os magistrados serão os menos culpados -, e prevejo, e a curto prazo, nova escalada na insegurança dos descrentes cidadãos deste nosso cantinho.
Mas que ninguém se surpreenda ou escandalize: alguém tem interesse e retirará vantagens do descalabro da segurança e da justiça nesta nau que, há muito, perdeu a bússola.
E é essa a preocupação primeira de quem entende não ser forçoso "esperar para ver" diminuídos os direitos das vítimas e vê-los transferidos para os que vivem sugando a Sociedade em que não se querem ou não se sabem integrar.
Hoje é Domingo. Melhor será pensar em algo que me dê prazer. E tenho mais dois"clip", com imagens relaxantes.....e que evocam saudosos momentos:






Mais do que as palavras, valem as imagens que aqui ficam, como um abraço virtual àquelas terras de Gente Macua. À distância dum clic:
Também no SAPO, em:
e no YouTube, em:
http://br.youtube.com/watch?v=-8nEDaoUBNA
http://br.youtube.com/watch?v=T4WnepJKc8g

O caso Maddie continua a dominar as primeiras páginas dos matutinos e a abrir os serviços informativos da Rádio e TV. Não há volta a dar-lhes!... Mantenho a desconfiança que nutro pelos ingleses, enquanto nação ciosa dos seus pergaminhos, sempre disponível para fazer alarde duma convicta assunção de povo escolhido, de padrão exemplar. Mas não confundamos: não é justo, nem humano que - por mera desforra mental -passemos a acusar, desde já, os pais de Maddie seja do que for, para além de os censurar pelo abandono dos filhos, enquanto jantavam. Por mais evidentes indícios que nos sejam dados a conhecer, eles continuam inocentes. Não me revejo em julgamentos populares, tantas vezes, alicerçados em factos de duvidosa consistência, não poucas vezes fabricados ou empolados por órgãos de comunicação com o objectivo de aumentarem as tiragens ou nível de audiências. Juridicamente, a condição de arguido, não é a de acusado, nem, muito menos, a de condenado. Prefiro confiar na Justiça e aguardar o seu veredicto que, por mais entorpecida ou falível que nos vá parecendo, é sempre bem mais fiável e justa do que apriorísticas condenações de rua.

O que espero bem é que este mediático caso não sirva de manto a processos que, enquanto cidadãos atentos deste país que é o nosso, se vão arrastando no tempo....e caindo, dispersos no esquecimento. Casos como os da Casa Pia, Apito Dourado e outros de elevada acuidade na nossa escala de valores, tão ou mais preocupantes que este da infortunada Maddie, não podem ser ofuscados por este de tanta luminosidade....ou artifical brilho!....
